Em depoimento, tenente-coronel fala em armação da perícia para incriminá-lo

13 de Out de 2026 - 18:30
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Em depoimento, tenente-coronel fala em armação da perícia para incriminá-lo

A CNN Brasil obteve acesso à íntegra do interrogatório de mais de oito horas do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana. No relato, ele alega ter sido vítima de armação das peritas que atuaram no caso para incriminá-lo.

O depoimento foi prestado na última segunda-feira (5), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Na audiência, estiveram presentes representantes do Ministério Público, o advogado da família de Gisele e a defesa do oficial.

Neto acusou a equipe da perícia de ter manipulado a cena do crime durante a reconstituição dos fatos para prejudicar a visbilidade da vítima em sua versão, já que afirma ter encontrado a esposa caída na sala.

“No dia da reconstituição, as peritas deslocaram o sofá 50 cm para cá, para que ele tampasse a minha visão do chão da sala.” Assista ao trecho:

Na época do ocorrido, um policial relatou ter visto uma árvore de natal em cima da cama. Neto teria questionado a presença do item em cima da cama e afirmado que alguém teria mexido em seu quarto.

No depoimento, o tenente-coronel afirmou que a árvore de Natal foi remontada e posicionada no cômodo pelas peritas para obstruir seu campo de visão.

“As peritas foram… remontaram a árvore, demoraram ali quase 10 minutos para remontar a árvore só para me acusar”, declarou o militar.

Entre as críticas feitas à perícia, o réu relatou que, antes da reconstituição, uma das peritas teria dito que estava convicta da culpa dele.

“Antes de começar a perícia, a perita falou assim para mim: ‘O senhor pode falar o que for, pode fazer o que for… Eu já tenho minha convicção que o senhor é culpado. Eu sei que o senhor matou ela”, afirmou Geraldo.

Falta de preservação e irregularidades

A arma usada no crime, segundo Geraldo, estava em cima de um guarda-roupas de 1,90m de altura, contrariando a altura de 2,10m apontada no laudo.

Ele afirma que a medida teria sido alterada para criar uma falsa narrativa de que Gisele não alcançaria a arma sobre o guarda-roupas.

Neto apontou outras supostas irregularidades na preservação das provas. Ele conta que, ao lado desse mesmo armário, ficava uma bolsa preta, que a vítima poderia ter usado como degrau para alcaçar o topo, e que foi removida do quarto antes da perícia.

Ele relata que deixou a bermuda que vestia na manhã do ocorrido em cima da pia do banheiro, já que estava suja de sangue, e que não teria guardado a peça no armário, onde foi encontrada.

Segundo o réu, o fluxo desordenado de pessoas no apartamento comprometeu a veracidade dos fatos.

“Não confio na Polícia Civil”

Durante o interrogatório, ele foi questionado pela promotora de Justiça sobre as provas do processo, incluindo as mensagens extraídas do celular dele e da vítima.

Em uma das mensagens, Gisele manifestou a vontade de se separar do marido, e Geraldo respondeu que ela jamais seria solteira.

O tenente-coronel, no entanto, afirma que tentava se separar de Gisele há meses devido ao comportamento supostamente agressivo dela, e que as mensagem divulgadas eram “blefes”.

Para sustentar a alegação de agressividade por parte da esposa, ele conta que a soldado teria criado uma conta falsa nas redes sociais, para discutir com mulheres que se interessassem pelo companheiro.

Neto afirmou que não confia na Polícia Civil, duvidando da veracidade das conversas anexadas ao inquérito policial.

“Parece um pesadelo”

O oficial foi preso preventivamente no dia 18 de março, um mês após a morte de Gisele Alves. Ele segue sob custódia no Presídio Militar Romão Gomes, localizado na zona Norte de São Paulo.

Durante o interrogatório, Neto relata sua rotina na prisão e diz que “todo dia parece um pesadelo”. Segundo o oficial, ele está há 202 dias preso injustamente por um crime que não cometeu.

“Eu não matei a minha esposa […] E eu estou aqui, preso, sem ter feito isso”, diz.

Durante o depoimento, o tenente-coronel reforça, diversas vezes, que não matou a esposa e que a soldado tirou a própria vida. No dia dos fatos, ele afirma que havia comunicado a decisão de separação, que, conforme depoimento, Gisele era controversa.

Réu por feminicídio

A soldado Gisele foi encontrada morta em seu apartamento no Brás, na região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Inicialmente tratada como suicídio, a ocorrência evoluiu para um inquérito de feminicídio qualificado e fraude processual.

Um laudo recente, obtido pela CNN Brasil, concluiu que a soldado não cometeu suicídio, descrevendo a impossibilidade de Gisele ter atirado contra a própria cabeça.

De acordo com o MP, após o crime o oficial teria tentado simular um suicídio ao posicionar a arma na mão da vítima e alterar a cena para induzir a investigação a erro.

As investigações identificaram vestígios de sangue nas roupas do acusado e indícios de que ele teria tomado banho após o crime para eliminar provas.

Para o Ministério Público, o homicídio foi praticado por motivo torpe, relacionado ao sentimento de posse e à recusa do acusado em aceitar o fim do relacionamento. A denúncia também afirma que Gisele foi surpreendida, sem possibilidade de defesa, circunstância que qualifica o crime.