Europa se prepara para possível guerra contra a Rússia
Governos europeus e a Organização do Tratato do Atlântico Norte (Otan) estão acelerando planos militares, reforçando infraestruturas e preparando até hospitais para um possível conflito com a Rússia. As medidas ocorrem diante de uma sequência de alertas sobre o aumento das ações de Moscou para além da guerra na Ucrânia.
Nas últimas semanas, autoridades da Polônia, França e da própria aliança militar ocidental passaram a alertar para uma intensificação de ataques híbridos, violações de espaço aéreo, sabotagens e incidentes envolvendo drones. Serviços de inteligência europeus também analisam a possibilidade de Moscou tentar testar a capacidade de reação da Otan com ações limitadas antes de qualquer confronto convencional de grande escala. O temor dos europeus está concentrado principalmente no risco de a Rússia ampliar operações que ficam abaixo do limite de uma guerra aberta e, no futuro, reconstruir capacidade suficiente para um confronto direto com a aliança.
Alertas de guerra ganharam força nos últimos dias
No dia 13, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, reuniu integrantes de seu governo e dos serviços de segurança depois de um ataque russo contra instalações ucranianas a apenas dois quilômetros da fronteira polonesa.
“As próximas semanas e meses serão um período de ações russas muito intensas. Infelizmente, não podemos excluir que essa escalada também envolva o território da Polônia”, afirmou Tusk. O governo polonês colocou serviços de segurança em estado reforçado e anunciou medidas adicionais nas passagens da fronteira com a Ucrânia.
Quatro dias depois, Tusk elevou o tom. Em discurso no Parlamento, o premiê polonês afirmou que avaliações de inteligência apontam para a possibilidade de a Rússia realizar ataques híbridos com drones e mísseis contra países que apoiam a Ucrânia, incluindo a própria Polônia. Segundo o primeiro-ministro, o objetivo de Moscou seria enfraquecer a confiança dos integrantes da Otan no Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, que estabelece que um ataque armado contra um membro da aliança deve ser considerado um ataque contra todos.
Macron alerta para intensificação das ações russas
Na França, o presidente Emmanuel Macron reuniu líderes dos principais partidos políticos na última sexta-feira (18) para discutir a deterioração do cenário de segurança na Europa.
“Nas últimas semanas, a ameaça, especialmente a ameaça híbrida russa, que pesa sobre os europeus e a França se intensificou”, afirmou Macron.
O francês determinou que seu governo elabore um novo plano de proteção das infraestruturas críticas, de instalações da indústria de defesa e de empresas de tecnologia contra possíveis ataques com drones e ações cibernéticas.
Macron citou episódios recentes na Alemanha e em outros países europeus e afirmou que Moscou estaria tentando intimidar governos para enfraquecer o apoio à Ucrânia.
No dia seguinte, a própria Otan fez um alerta semelhante. O presidente do Comitê Militar da aliança afirmou que o “comportamento imprudente” da Rússia aumentou nas últimas semanas e meses, citando violações de espaço aéreo, incidentes com drones e atividades híbridas. “Essa ameaça é real”, afirmou a aliança.
Ataque em aeroporto alemão aumentou preocupação
Parte dos alertas europeus é baseada em episódios que já ocorreram. O mais grave aconteceu em agosto no Aeroporto de Leipzig, na Alemanha, um dos maiores centros de transporte de cargas da Europa e utilizado também na logística de apoio à Ucrânia.
Um drone carregado com explosivos foi encontrado em uma área restrita próxima a uma pista. O episódio levou ao fechamento temporário de partes do aeroporto e à abertura de uma investigação antiterrorismo. No início deste mês, o governo alemão atribuiu formalmente a operação à Rússia. Segundo o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, a configuração do drone, os explosivos, os componentes e a tecnologia usada para detonação eram conhecidos pelas autoridades a partir de outras operações híbridas atribuídas a Moscou.
“A tentativa de ataque no aeroporto de Leipzig se encaixa no padrão conhecido das operações híbridas russas na Europa”, afirmou.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classificou posteriormente o episódio como um “ataque híbrido imprudente” da Rússia e disse que a aliança estava ao lado da Alemanha.
Para Emily Ferris, pesquisadora sênior associada do think tank Royal United Services Institute (RUSI), e mestre em Crime Organizado e Terrorismo pela University College London (UCL), o ataque mostrou um aumento da sofisticação das operações de sabotagem atribuídas à Rússia contra infraestruturas da Otan. Em análise publicada pelo RUSI em 10 de setembro, Ferris afirmou que o episódio também expôs a falta de clareza sobre qual tipo de ação russa levaria a uma resposta militar da aliança.
Pressão contra os Bálticos
No último dia 15, um caça italiano destacado para uma missão da Otan derrubou um drone que havia entrado no espaço aéreo da Lituânia vindo da direção de Belarus. O ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, afirmou que o aparelho “muito provavelmente” tinha origem russa. Autoridades lituanas encontraram explosivos nos destroços.
Investigações posteriores indicaram que o drone provavelmente tinha como destino a Ucrânia e pode ter entrado no território lituano por desvio ou interferência eletrônica. Apesar disso, o episódio mostrou o risco de a guerra ultrapassar as fronteiras ucranianas a qualquer momento.
Um dia antes, no Mar Báltico, uma fragata russa lançou dois sinalizadores em direção a um helicóptero militar dinamarquês que realizava uma missão de vigilância em águas internacionais. Um deles passou a poucos metros da aeronave, segundo o Ministério da Defesa da Dinamarca.
Copenhague convocou o embaixador russo para dar explicações. Moscou respondeu acusando os militares dinamarqueses de realizarem manobras perigosas perto do navio russo.
Nesta segunda-feira (21), a Letônia emitiu um novo alerta após detectar uma possível ameaça ao espaço aéreo na região de Krāslava, no leste do país, próxima às fronteiras com Belarus e a Rússia. Caças da missão de patrulhamento aéreo da Otan foram acionados, enquanto as Forças Armadas letãs reforçaram as unidades de defesa antiaérea posicionadas na fronteira oriental. O alerta foi encerrado cerca de duas horas depois, sem que as autoridades informassem a entrada confirmada de um drone no território.
O presidente da Letônia, Edgars Rinkēvičs, levou a preocupação do país sobre as ações russas diretamente ao secretário-geral da ONU, António Guterres. Em reunião ao lado dos presidentes da Estônia e da Lituânia, Rinkēvičs afirmou que está aumentando a pressão da Rússia contra os países bálticos e outras nações que apoiam a Ucrânia, o que, segundo ele, amplia os riscos de uma escalada regional.
Analistas veem nova fase da pressão russa
O think tank Institute for the Study of War (ISW) publicou no dia 16, em seu próprio site, o estudo The Russian Military Campaign Against Europe: Defining the Threat, dentro do projeto Defense of Europe. A análise afirma que o Kremlin já conduz uma campanha coordenada de ações cinéticas contra países europeus e que a Otan precisa distinguir entre essas operações atuais e uma eventual ameaça militar convencional no futuro. O instituto argumenta que sabotagens, ações com drones e outras medidas atribuídas a Moscou podem servir para testar respostas, provocar divisões dentro da aliança e dificultar o apoio europeu à Ucrânia.
O think tank Centro de Estudos Orientais da Polônia (OSW) publicou no dia 18, também em seu site, uma análise assinada pelo pesquisador Marek Menkiszak intitulada Russia’s war plan: subjugate Ukraine, intimidate Europe, buy off the US, onde trata as recentes ações russas como parte de uma nova fase da guerra híbrida do Kremlin contra a Europa. Segundo a análise, Moscou tende a ampliar sabotagens, ataques cibernéticos, violações de espaço aéreo e ações contra infraestrutura crítica com o objetivo de pressionar sociedades europeias, reduzir o apoio à Ucrânia e enfraquecer as sanções contra o Kremlin.
Por sua vez, o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), dos Estados Unidos, publicou em 9 de julho, em seu site, o relatório Managing the Long-Term Russian Threat to Europe, assinado pelo pesquisador Jeffrey Mankoff, onde pontua que a Rússia vem reformulando suas capacidades militares e mobilizando sua economia e sua população para um confronto prolongado. Segundo Mankoff, analistas de inteligência, planejadores de defesa e autoridades europeias temem que Moscou possa direcionar essas capacidades contra integrantes europeus da Otan quando os combates de alta intensidade na Ucrânia diminuírem.
Em análise publicada em julho, Emily Ferris afirmou que a Otan está claramente se preparando para a possibilidade de um futuro confronto com a Rússia.
Alemanha prepara hospitais para cenário de guerra
A Alemanha elaborou neste ano um plano nacional de defesa que integra Forças Armadas, empresas, transportes, infraestrutura e autoridades civis para um eventual cenário de conflito na Europa. O chamado "Operational Plan Germany" prevê que o país funcione como uma das principais bases logísticas da Otan caso seja necessário deslocar tropas e equipamentos para o flanco oriental.
A Bundeswehr, força integrada de defesa, trabalha com uma estimativa de planejamento de até mil militares feridos por dia em um eventual conflito no leste da Otan. Nesse cenário, soldados alemães e de outros países seriam transportados para hospitais em território alemão ao mesmo tempo em que tropas e suprimentos seguiriam na direção oposta, rumo ao front.
Neste mês, a Alemanha também passou a estudar a reativação de estruturas médicas construídas durante a Guerra Fria. Entre elas está um complexo subterrâneo no hospital militar de Ulm, projetado originalmente para continuar funcionando mesmo após um ataque nuclear e capaz de abrigar milhares de pessoas.
União Europeia prepara população e infraestrutura
Em março de 2025, a União Europeia lançou a Preparedness Union Strategy, uma estratégia de preparação para crises que prevê estoques de equipamentos essenciais, fortalecimento de hospitais e de sistemas de energia, telecomunicações e transporte, além da recomendação de que a população consiga manter suprimentos básicos por pelo menos 72 horas em uma emergência.
Na semana passada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que os ataques híbridos contra países europeus estão deixando de ser apenas “ameaças”.
“Ciberataques e sabotagem, incêndios criminosos e incursões de drones. Eles estão aumentando todos os dias”, afirmou.
Von der Leyen anunciou a elaboração de uma nova estratégia europeia de segurança e propôs um protocolo para que os países da União Europeia consigam coordenar uma resposta rápida a incidentes que não chegam ao nível de uma agressão militar aberta. A Otan também publicou neste mês, pela primeira vez, requisitos básicos de resiliência para os países integrantes da aliança. As orientações tratam da manutenção de serviços como energia, água, alimentação, telecomunicações e saúde durante crises e conflitos.
Até a Suíça, historicamente neutra, passou a reforçar seus preparativos. Na última sexta-feira, o Conselho Federal suíço aprovou a nova Estratégia de Política de Segurança de 2026, afirmando que a guerra da Rússia contra a Ucrânia e o avanço de ameaças híbridas deterioraram significativamente o ambiente de segurança europeu. O governo estabeleceu 10 objetivos e 46 medidas para ampliar a proteção de infraestruturas críticas, a capacidade de defesa e a resistência do país a ataques.
O documento considera improvável um ataque armado direto contra a Suíça no futuro próximo, mas alerta que o país pode ser atingido por armas de longo alcance, como drones e mísseis balísticos, mesmo sem uma invasão terrestre. Berna afirma ainda que precisa se preparar para combater ataques híbridos e, em caso de conflito, ter condições de atuar em cooperação com outros países.
A Alemanha também elevou o nível de alerta. No último dia 14, o Conselho Nacional de Segurança alemão se reuniu especificamente para discutir as ameaças híbridas russas após o ataque atribuído a Moscou no aeroporto de Leipzig. O governo afirmou que trabalha com a avaliação de que a Alemanha continuará sendo alvo dessas operações e anunciou novas medidas contra espionagem e sabotagem, além do reforço da proteção de infraestruturas críticas.
Rússia amplia forças próximas às fronteiras da Otan
A inteligência da Lituânia afirmou em sua avaliação de ameaças de 2026 que Moscou continua criando e ampliando unidades militares próximas ao flanco oriental da Otan apesar das perdas sofridas na Ucrânia. Brigadas vêm sendo transformadas em divisões no Distrito Militar de Leningrado e uma nova brigada equipada com mísseis Iskander-M começou a ser formada na região.
Segundo o serviço lituano, enquanto a guerra na Ucrânia continuar consumindo grande parte dos recursos russos, a capacidade de Moscou de iniciar um grande conflito contra a Otan permanece limitada. O cenário mudaria, porém, se houvesse um cessar-fogo ou congelamento da guerra. Nesse caso, a Rússia poderia deslocar soldados, reconstruir estoques de munição e acelerar a formação de unidades próximas aos países bálticos.
A avaliação lituana afirma que, em determinadas condições, Moscou poderia adquirir capacidade para uma ação militar limitada contra países bálticos antes mesmo de reconstruir completamente suas Forças Armadas.
O Kremlin rejeita as acusações de que pretende levar a guerra na Ucrânia para outros países europeus. Nesta segunda-feira (21), o porta-voz Dmitry Peskov voltou a afirmar que a Rússia não representa ameaça à França nem a outros países da Europa e negou que Moscou esteja promovendo ameaças, chantagens ou intimidação contra governos europeus.