“Exércitos” de Lula e Flávio chegam ao 2º turno na tentativa de vencer a batalha da rejeição
A desaprovação à continuidade do governo Lula — que busca o quarto mandato presidencial — e a antipatia ao sobrenome Bolsonaro serão decisivos na "batalha da rejeição", que tem peso suficiente para decidir o resultado do segundo turno, no próximo domingo (25). Na balança eleitoral da primeira votação, no último dia 4, o antipetismo pesou a favor de Flávio Bolsonaro (PL), quando o “voto útil” esvaziou as demais candidaturas e deixou o presidente da República atrás do principal nome da oposição.
Nos últimos dias, a polarização calcificada por Lula e pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em eleições anteriores fez subir a temperatura da campanha eleitoral, marcada por troca de ataques durante manifestações nas ruas e alta mobilização nos meios digitais.
De um lado, o grupo de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede), chegou a ser retirado do ar por desinformação, com decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques. Do outro lado, o PL organizou a militância nas redes sociais e nos grupos de aplicativos, principalmente por meio do canal “Tropa do Flávio”.
Na avaliação do cientista político Leandro Consentino, as campanhas dos dois candidatos à Presidência utilizam um tom que favorece o confronto em detrimento à discussão de propostas. “O tom é dado pelas próprias campanhas, que se autorreferenciam como 'exército' e 'tropa'. Ou seja, o objetivo é 'aniquilar o inimigo', como se fosse uma guerra. Isso produz o sentimento de que a eleição é de fato essa aniquilação do outro", aponta.
Com isso, para Consentino, a rejeição mobiliza mais do que a discussão sobre ideias, "pois a única proposta é suprimir o adversário”, analisa ele. Segundo pesquisa Quaest divulgada no último dia 14, 54% dos entrevistados afirmam que conhecem e não votariam em Flávio Bolsonaro. O índice de rejeição a Lula é bastante próximo, chegando a 53%.
Para a analista política especializada em processos eleitorais Yolanda Tolentino, as rejeições a Lula e a Flávio Bolsonaro têm naturezas diferentes, sendo que o atual presidente enfrenta o “antipetismo estrutural” e desgaste político do terceiro mandato. “Isso pesa porque, para ele, a eleição vira também um referendo sobre a gestão. A rejeição de Flávio é mais herdada do que construída. Ele carrega o antibolsonarismo e o sobrenome”, resume.
Polarização antecipa rejeição a Lula
A alta temperatura das eleições e a consolidação do antagonismo entre os grupos políticos liderados por Lula e por Bolsonaro influenciam o comportamento histórico do eleitor no primeiro turno. Tradicionalmente, segundo Consentino, o brasileiro escolhe o candidato com quem mais se identifica na primeira etapa da eleição presidencial e rejeita um dos concorrentes com o voto no adversário no segundo turno.
No entanto, de acordo com o cientista político, houve uma antecipação desse movimento na votação do último dia 4, com eleitores simpáticos a outros candidatos destinando voto a Flávio. O filho “01” do ex-presidente teve 47,03% dos votos válidos; Lula ficou em segundo lugar com 45,16%.
“Diante da polarização vista nas últimas eleições, essa lógica também passou a influenciar o primeiro turno. As pessoas votam muito mais para evitar um candidato do que por defender convictamente aquele em quem elas votaram. No primeiro turno, aconteceu uma grande migração de votos úteis e a polarização em dois candidatos”, afirma Consentino.
E foi essa polarização que drenou as campanhas adversárias na centro-direita, minando qualquer possibilidade de uma candidatura alternativa e viável nas urnas. “Enquanto a terceira via estava falando mais de propostas — ficando lateralmente no debate —, os dois candidatos se atacavam e reproduziam a polarização”, completa Consentino.
Polarização e alta rejeição reduzem margem para "virar" voto
Pesquisa BTG/Nexus do último dia 13 apontava que Lula lidera a rejeição com 51% das respostas. Também revela que um em cada quatro eleitores de Flávio declara votar nele motivado pelo desejo de derrota do petista no segundo turno.
Além disso, 7% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar de voto. "Ou seja, parte relevante do voto já é um voto contra. Com tão pouca margem para conquistar adesão, vence quem convencer o eleitor de que o outro representa o risco maior", comenta a analista Yolanda Tolentino.
Escândalos do próprio candidato são lidos como perseguição, e os do adversário, como confirmação.
Yolanda Tolentino, analista política especializada em processos eleitorais
Ela considera que o presidente Lula terá uma grande dificuldade para "virar voto" depois de ficar atrás de Flávio no primeiro turno. Na avaliação de Tolentino, o voto passou a fazer parte da identidade do brasileiro e uma pequena parte do eleitorado ainda está em disputa devido à "cristalização" política do país desde as eleições de 2018.
"Mudar de lado tem um custo social, e o eleitor tende a filtrar informações conforme o grupo a que pertence. Escândalos do próprio candidato são lidos como perseguição, e os do adversário, como confirmação", ressalta.
"A eleição tende a ser decidida menos pela conversão e mais por dois fatores. O primeiro é o comparecimento: quem consegue levar seu eleitor potencial às urnas. O segundo é a rejeição: quem consegue manter o eleitor do outro lado em casa ou votando nulo", completa.
Lula usa máquina pública na tentativa de diminuir rejeição
Na tentativa de virar a eleição no segundo turno — fato inédito até aqui na democracia brasileira —, o presidente Lula aposta nas redes sociais, no engajamento de artistas, no voto dos eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno e, principalmente, nos benefícios eleitoreiros da máquina pública.
Com a ascensão de Flávio, o petista anunciou uma série de medidas recentes: aumento de R$ 90 no Bolsa Família; distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS e, de quebra, conseguiu aprovar no Senado o fim da escala de trabalho 6x1, com apoio do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União).
Enquanto a militância petista tenta desgastar o adversário, Lula procura diminuir a rejeição do eleitorado com anúncios e entregas. “Elas são pensadas desta forma: estratégias de ganho, de apelo mais forte, de busca com um caráter claramente eleitoreiro. [...] O candidato da situação tem sempre mais efetividade nisso, porque ele consegue tomar medidas concretas”, comenta o cientista político Leandro Consentino.
Na avaliação dele, as suspeitas de corrupção perderam peso na decisão do voto com menos impacto na rejeição de Lula e Flávio. “Talvez a corrupção esteja em segundo plano porque os dois estão sofrendo escrutínio nesse aspecto. Apesar de o Lula ter se livrado de uma série de investigações na Justiça [as condenações na Lava Jato foram anuladas pelo STF], e o Flávio ter conseguido arquivar as suspeitas de rachadinha, as duas candidaturas têm associações diretas ao escândalo do Banco Master”, ressalta.