O número que pode definir vitória de Lula ou de Flávio Bolsonaro no 2º turno
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- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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Na noite de domingo (25/10), milhões de eleitores vão acompanhar, voto a voto, o placar da corrida presidencial entre (PT) e (PL) no segundo turno, numa das disputas mais acirradas desde a redemocratização.
Mas, além do placar, pesquisadores vão olhar para dois outros indicadores: quantos eleitores não saíram de casa para votar e quantos votaram em branco ou nulo.
O peso da abstenção e dos votos brancos e nulos na disputa divide as avaliações de especialistas sobre as chances de virada do petista.
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A margem é apertada. Flávio ficou à frente de Lula no primeiro turno por 2,2 milhões de votos, ou 1,8 ponto percentual. As simulações de segundo turno da Quaest indicam os dois tecnicamente empatados desde setembro.
A última divulgação do instituto, na quarta-feira, sugere Flávio entre 43% e 47% das intenções de voto, e Lula, entre 42% e 46%, considerando indecisos. O instituto ouviu 2.154 pessoas de 16 anos ou mais, entre os dias 17 e 20 de outubro, em uma pesquisa com margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos, e com nível de confiança de 95%.
Já o sugere Flávio dois pontos à frente, com 47% das intenções de voto, ante 45% do petista.
Para o cientista político Rodrigo Mahlmeister, pesquisador na Universidade Duke, nos Estados Unidos, a virada é possível, mas depende menos de uma queda da abstenção e mais de Lula conseguir tirar votos do adversário.
"Tem pouca margem para a abstenção ou para os brancos e nulos reduzirem tanto assim, de uma forma que faça muita diferença", afirma.
Ele aponta três pontos de atenção: o comparecimento, o desempenho dos candidatos no Nordeste e a capacidade do petista de conquistar quem votou em Flávio no primeiro turno.
Além disso, nas pesquisas que antecedem à votação, Mahlmeister também recomenda acompanhar dois indicadores: o saldo de aprovação dos candidatos e o receio provocado pela possibilidade de o adversário voltar ao poder. Para ele, o segundo turno é também uma "guerra de rejeições".
"A gente viu em 2022 essa pergunta sobre o medo de o Lula voltar ou de o Bolsonaro voltar ser um indicador bem importante, um termômetro além da própria intenção de voto", afirma.
Abstenção tem pouca margem
No primeiro turno, a abstenção ficou em 21,08%. E, historicamente, ela cresce no segundo turno. A exceção foi 2022, quando caiu 0,4 ponto percentual, única vez desde 1989.
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Mahlmeister atribui a queda de 2022 principalmente à mobilização das campanhas e diz que o fenômeno pode se repetir. "No primeiro turno tinha um certo desinteresse, uma desmobilização. Esse segundo turno mudou isso completamente. Não me surpreenderia acontecer de novo", afirma.
Ele ressalva, porém, que o espaço é pequeno: "A queda de 0,4 já é um feito histórico. Se for mais que isso, já é bastante. Acho muito difícil reduzir em um ponto."
Há ainda um fator contrário neste ano: a maior parte dos governadores foi eleita ou reeleita no primeiro turno — cinco Estados e o Distrito Federal vão ter segundo turno —, o que reduz o número de disputas capazes de estimular o comparecimento. Segundo o pesquisador, sem campanhas locais competitivas, o incentivo para ir votar pode diminuir.
E mesmo que a abstenção caia, o efeito depende de quem volta às urnas. Uma redução no número de ausentes não beneficia necessariamente Lula.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, diz que a mudança pode vir dos brancos e nulos, como em 2014, quando eles caíram quase 4 milhões entre os turnos e ajudaram Dilma Rousseff (PT) a vencer.
"Em 2014, a abstenção cresceu quase 2,4 milhões do primeiro para o segundo turno, mas o total de votos brancos e nulos entre turnos caiu aproximadamente quase 4 milhões. No fim, o número absoluto de votos válidos foi 1,5 milhão de votos maior no segundo turno em comparação ao primeiro", escreveu Felipe Nunes em artigo no jornal O Globo.
"Foram eleitores convencidos por Dilma a migrar do nulo/branco para ela que fizeram a diferença em 2014, e podem aumentar as chances de virada de Lula esse ano", diz o diretor da Quaest.
Mahlmeister nota, no entanto, que a tendência de virada ainda não está clara nas pesquisas divulgadas até agora. Para ele, os brancos e nulos já estiveram perto do mínimo histórico no primeiro turno, e parte dos eleitores da terceira via deve ir para essa opção.
Virada depende de conquistar eleitores de Flávio
O pesquisador cita um e publicado na plataforma Substack na quinta-feira (22/10).
O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) parte da diferença de votos entre Flávio e Lula no primeiro turno: 2,2 milhões de votos, ou 1,8 ponto percentual a mais para o senador, em relação ao atual presidente.
A partir daí, busca estimar a transferência de votos de outros candidatos. Usando dados da primeira pesquisa Quaest após o primeiro turno, Flávio ficaria com 37% dos votos da chamada "terceira via", Lula com 25%, e 38% se dividiriam entre branco, nulo, abstenção e indecisos.
Supondo que Lula e Flávio mantenham todos os seus eleitores do primeiro turno, Flávio teria 51,4% e Lula, 48,6% dos votos válidos, e a vantagem de Flávio passaria de 2,2 para 3,3 milhões de votos, estima Jairo Nicolau.
Em seguida, o cientista político faz estimativas para brancos, nulos e abstenção.
Num cenário otimista para Lula, estima que parte de quem votaria branco ou nulo escolha um candidato e que a abstenção caia em relação ao primeiro turno. Somando um saldo favorável a Lula nesses dois grupos (60% dos votos em ambos), a vantagem de Flávio cairia de 3,3 milhões para 2,4 milhões de votos (51% a 49% dos votos válidos).
Neste cenário, calcula Nicolau, Lula precisaria convencer cerca de 1,2 milhão de eleitores de Flávio a mudar de lado para eliminar essa vantagem — o equivalente a pouco mais de 2% dos eleitores que votaram no candidato do PL no primeiro turno.
Isso ocorre porque, quando se trata de votos válidos, cada eleitor que troca de lado conta duas vezes: subtrai um voto do candidato do PL e passa a contar para Lula.
"A campanha dos apoiadores de Lula usa o termo 'vira voto'. O que talvez a maioria dos eleitores não saiba é que, para vencer, a expressão provavelmente terá de ser levada ao pé da letra: convencer uma parcela dos eleitores de Flávio a votar em Lula", conclui o pesquisador da FGV, em sua análise.
Assim, Mahlmeister avalia que a principal possibilidade de mudança no segundo turno está na capacidade de Lula de atrair eleitores que ainda não consolidaram sua escolha.
"Mas o eleitorado está muito calcificado", diz o pesquisador.
A pesquisa da Quaest indica que Lula mantém 95% dos eleitores do primeiro turno, e Flávio, 94%. "Está tendo muito pouca reconversão, pelo menos até agora", afirma o pesquisador.
Há espaço, ainda assim: também a Quaest aponta que 8% dos eleitores de Flávio admitem a possibilidade de mudar de voto, o que, nas contas de Nicolau, equivale a quase 5 milhões de pessoas. Lula precisaria conquistar um em cada quatro desses eleitores de Flávio que poderiam mudar de voto.
Mahlmeister vê duas oportunidades para o petista. A primeira está entre os eleitores de candidatos derrotados.
"Lula tem conseguido absorver entre um terço e metade desses candidatos da terceira via, o que eu acho que é, na verdade, até mais do que o esperado, porque o perfil ideológico deles é muito mais próximo do Flávio", diz.
A segunda é o aumento da indecisão, sobretudo entre mulheres, segundo a última Quaest. Mas Mahlmeister também faz a ressalva de que esses eleitores podem voltar para Flávio.
Na mesma pesquisa, Lula ampliou a vantagem entre beneficiários de programas sociais. "Cresceu muito o medo da volta da família Bolsonaro ao poder", diz o pesquisador, para quem o esforço do PT nesse segmento "parece ter tido efeito".
"É possível uma virada, mas é muito difícil, porque é um ponto de um para o outro e não tem uma tendência apontando nessa direção."
Nordeste pode indicar se Lula reage
Durante a apuração, Mahlmeister recomenda atenção especial à contabilização dos votos no Nordeste, onde Lula tradicionalmente constrói vantagem expressiva. O alerta é o crescimento de Flávio em cidades do interior da região no primeiro turno.
O senador e aliados, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), apostaram em atos e conteúdos voltados para a região na última semana de campanha.
"O Nordeste voltou a ser um centro de atenção também porque é onde está a chance do PT, na margem que ele abre no Nordeste", diz.
A questão é se Lula vai conseguir manter diferença suficiente para compensar a votação do adversário no Sul e no Centro-Oeste, onde Flávio foi bem.
"Se reduz essa margem, se o Flávio continua conseguindo esse voto que conseguiu no interior do Nordeste, fica muito difícil o Lula compensar essa vantagem no Sul e no Centro-Oeste", afirma.
Entre 2022 e 2026, o comparecimento cresceu mais no Nordeste, mas Lula teve pequena queda em votos absolutos, e quem mais cresceu foi Flávio.
O pesquisador ressalta que dados agregados não permitem saber quem são esses eleitores, mas diz que isso acende outro alerta: quem não votou em 2022 e votou em 2026 pode ter engordado a votação de Flávio na região.
No Sudeste, Mahlmeister recomenda observar os números absolutos, sobretudo nas capitais, onde a abstenção pode ter retirado votos potenciais de Lula. Nas cinco maiores cidades do país, a abstenção superou a média nacional.
Primeiros números podem enganar
Para quem acompanha a apuração em tempo real, Mahlmeister recomenda cautela com a vantagem dos primeiros boletins. A ordem em que as urnas são contadas muda de eleição para eleição.
Em 2022, Lula ultrapassou Jair Bolsonaro com cerca de 66% das urnas apuradas. Se a ordem do primeiro turno tivesse se repetido, a virada só viria perto dos 95%, segundo o pesquisador.
"Não dá para ter muita noção do resultado final com base nos números que começam a apuração. Flávio pode começar com 60 e perder, pode começar com 53 e ganhar", afirma.
O pesquisador desenvolveu um modelo que projeta o resultado final combinando as urnas já apuradas com o desempenho das seções restantes em eleições anteriores. Os resultados oficiais são divulgados pelo TSE a partir do fechamento das urnas, às 17h.
Nas últimas pesquisas antes do segundo turno, ele recomenda ficar de olho nos índices de reprovação e no medo de o candidato oponente voltar.
Já no domingo, uma queda acima de 0,4 ponto percentual na abstenção seria um sinal de mobilização atípica.
A abstenção, os votos brancos e nulos, a transferência de votos e a distribuição regional podem ajudar a interpretar o resultado. Nenhum desses indicadores, isoladamente, permite antecipar quem vence a disputa.