Glance: desbloqueie seu Mac com reconhecimento facial usando a própria câmera

Cristiano Joaquim
Arquiteto de soluções em uma empresa do ramo da saúde, trabalha na área de tecnologia há 27 anos. É graduado em ciência da computação, pós-graduado em engenharia de software, business intelligence com ênfase em bancos de dados e gestão da tecnologia da informação. Marido da Kátia e pai do Nathan e da Isabelle — além do filho de patas Bidu.
Quem utiliza um iPhone com Face ID provavelmente já se acostumou com a praticidade de desbloquear o aparelho apenas olhando para a tela. É algo tão natural que, depois de algum tempo, quase esquecemos que existe um processo de autenticação acontecendo ali. Mas, quando voltamos para o Mac, a experiência é um pouco diferente.
Embora a Apple já ofereça o Touch ID em diversos modelos, ainda precisamos posicionar o dedo no sensor ou, dependendo da situação, digitar a senha para acessar o computador. Nem mesmo com o lançamento do MacBook Pro com Tela PROLED XDR a Apple trouxe o Face ID a um Mac — e, verdade seja dita, não havia rumor sobre essa possibilidade, ainda que seja o desejo de muitos.
Mas e se pudéssemos fazer algo parecido com o Face ID do iPhone utilizando a câmera que já temos no Mac? Foi justamente essa a proposta que me chamou a atenção no Glance, um aplicativo gratuito e de código aberto — que já foi comentado no MacMagazine —, desenvolvido por jonnyoo no GitHub, e que procura trazer uma experiência semelhante ao reconhecimento facial do iPhone para o macOS.
O mais interessante é que ele não exige uma câmera especial ou equipamentos adicionais. A ideia é aproveitar a câmera do próprio computador para reconhecer o rosto do usuário e realizar o desbloqueio automaticamente. Naturalmente, existem diferenças importantes em relação ao Face ID (da Apple), principalmente quando falamos de segurança. Mas vamos conhecer primeiro como tudo funciona.
Reconhecimento facial no Mac? Sim, é possível!
O Glance foi desenvolvido para tornar o desbloqueio do Mac mais prático. Sua proposta é relativamente simples: quando o computador está bloqueado, o aplicativo utiliza a câmera para identificar o rosto de uma pessoa previamente cadastrada. Se o reconhecimento for bem-sucedido e as verificações adicionais forem atendidas, ele realizará o desbloqueio.
Na prática, isso significa que você pode abrir a tampa do MacBook ou retornar ao computador depois de algum tempo e, em vez de utilizar o teclado ou o Touch ID, simplesmente olhar para a câmera.
Um detalhe interessante é que todo o processamento de reconhecimento facial acontece localmente, utilizando tecnologias da própria Apple (como Vision e Core ML). Segundo o desenvolvedor, as imagens capturadas não são enviadas para servidores externos. Dessa forma, não é preciso conexão com a internet para analisar o rosto.
O aplicativo também aproveita o notch dos MacBooks para apresentar pequenas animações durante o reconhecimento, lembrando a Ilha Dinâmica (Dynamic Island) que conhecemos do iPhone — e que, agora, chegou ao MacBook Pro. E, para quem utiliza um Mac sem notch (como o MacBook Neo), existe uma interface semelhante, exibida na parte superior da tela.
Configurando o Glance
A instalação não exige muitos passos.
O aplicativo pode ser baixado diretamente pelo GitHub do projeto. Depois de fazer o download do arquivo DMG, basta abri-lo, arrastar o Glance para a pasta Aplicativos e iniciar sua configuração.

Na primeira execução, o aplicativo apresenta um processo de configuração para cadastrar seu rosto e conceder as permissões necessárias.

Em seguida, você deverá conceder as permissões de acesso a recursos do macOS necessárias ao funcionamento do aplicativo.

Um detalhe importante: o próprio aplicativo deixa claro que sua funcionalidade não é tão segura quanto o Face ID ou o Touch ID. Então, obviamente, você precisa assumir algum tipo de risco ao usá-lo.

Durante o reconhecimento inicial, o Glance solicita que você movimente a cabeça em nove direções diferentes — algo parecido com o cadastro do próprio Face ID, diga-se. Isso permite registrar diferentes posições do rosto, criando as informações que serão utilizadas nas próximas autenticações.

Mas existe um detalhe interessante nesse processo. Em vez de simplesmente salvar fotografias do usuário, o aplicativo transforma essas imagens capturadas em representações matemáticas das características faciais. Essas informações são utilizadas posteriormente para comparar o rosto identificado pela câmera com aquele que foi cadastrado inicialmente.
As imagens originais são descartadas logo após o processamento, enquanto os dados necessários ao reconhecimento são armazenados localmente, de forma criptografada.

O aplicativo também solicita a senha do macOS, que será utilizada no momento do desbloqueio. Voltarei a esse ponto mais adiante, porque existe uma particularidade importante na maneira como o Glance funciona.
Você poderá definir o nome para esta captura que realizou — no meu exemplo, deixei com meu nome mesmo.

Você também precisará informar a senha que utiliza para desbloquear o Mac; o aplicativo informa que essa configuração é criptografada e armazenada no seu equipamento.

Ao finalizar, você também pode ajustar as configurações do aplicativo, como iniciá-lo junto com o Mac ou habilitar a opção “Retry”, que faz uma nova tentativa caso o desbloqueio falhe.

O desbloqueio acontecendo na prática
Depois da configuração, o Glance começa a trabalhar sempre que o Mac for bloqueado ou retornar do repouso, conforme as opções escolhidas. Quando a câmera identifica um rosto, o aplicativo inicia o processo de reconhecimento e verifica se ele corresponde a alguma das identidades cadastradas. Se tudo estiver correto, o desbloqueio acontece automaticamente.
O interessante é que não precisamos necessariamente interagir com o app. A ideia é justamente permitir que ele execute sua função discretamente, sem exigir uma ação adicional a cada desbloqueio.
O Glance também permite iniciar o reconhecimento ao pressionar a barra de espaço na Tela Bloqueada, além de permitir configurar quais situações devem acionar a câmera. Para quem trabalha alternando entre reuniões, pausas e períodos de concentração, pode ser uma forma de eliminar uma daquelas pequenas ações repetitivas que realizamos várias vezes ao longo do dia.
E é justamente esse tipo de funcionalidade que costuma chamar minha atenção em aplicativos para macOS: não necessariamente algo revolucionário, mas uma pequena melhoria na forma como utilizamos o computador todos os dias.
Uma Ilha Dinâmica para acompanhar o reconhecimento
Outro aspecto interessante do Glance está na interface. Nos MacBooks que possuem notch, o aplicativo utiliza a região da câmera para apresentar animações que indicam o andamento do reconhecimento facial. Durante a identificação, essa área se expande e apresenta informações visuais sobre o processo; quando o reconhecimento é concluído, a interface também indica se ele foi bem-sucedido.
A proposta lembra a Ilha Dinâmica do iPhone, mas aqui aplicada a uma finalidade bastante específica. O aplicativo também permite interagir com essa região para tentar novamente um reconhecimento. E, se você prefere uma experiência mais discreta, existe a possibilidade de desativar essas animações.
Nos Macs sem notch, uma pequena área em formato de cápsula substitui essa interface, mantendo a proposta visual. É um detalhe estético, sem dúvida, mas que ajuda a tornar a experiência de uso mais integrada ao macOS.
Não sabemos ainda como o Glance funcionará nos MacBooks Pro com Ilha Dinâmica, mas imagino que basicamente da mesma forma que hoje, porém adaptado ao novo espaço.
Mais de um rosto? Também é possível!
Uma funcionalidade que achei interessante na proposta do Glance é a possibilidade de cadastrar diferentes identidades. Isso significa que você pode registrar mais de uma pessoa ou até criar diferentes registros do seu próprio rosto.
Imagine, por exemplo, utilizar óculos durante parte do dia e não utilizá-los em outros momentos. O aplicativo permite cadastrar essas variações, assim como diferentes condições de iluminação ou mudanças na aparência (com e sem barba). Também é possível habilitar ou desabilitar uma identidade sem necessariamente excluí-la.
É importante observar, porém, que cadastrar diferentes pessoas significa permitir que esses rostos desbloqueiem a mesma sessão configurada no Mac. Portanto, embora o recurso exista, seu uso exige cuidado, principalmente em computadores compartilhados.
Como o Glance identifica se existe realmente alguém na frente da câmera?
Essa talvez seja uma das partes mais interessantes do aplicativo. Reconhecer um rosto em uma imagem é uma coisa; identificar se existe realmente uma pessoa diante da câmera é outra.
Para tentar evitar desbloqueios utilizando fotografias, o Glance possui um mecanismo conhecido como liveness detection, ou detecção de vivacidade. Essa funcionalidade também pode ser vista na janela de configuração do aplicativo.

A ideia é analisar determinados sinais que ajudam a diferenciar um rosto real de uma imagem apresentada à câmera. Entre essas verificações, estão características relacionadas ao movimento da cabeça, ao piscar dos olhos, à geometria facial e até à presença de reflexos que possam indicar uma tela sendo utilizada para simular um rosto.
O aplicativo oferece diferentes níveis de verificação, incluindo os modos Light e Heavy. No modo mais rigoroso, são utilizadas verificações adicionais para tentar identificar possíveis tentativas de falsificação.
Isso não significa, porém, que o Glance seja capaz de impedir qualquer tentativa de desbloqueio indevido. O próprio desenvolvedor deixa claro que, embora o aplicativo consiga identificar algumas tentativas utilizando fotografias, ele não consegue impedir de maneira confiável ataques realizados com vídeos.
E aqui chegamos a um dos pontos mais importantes de toda a proposta.
Mas ele é tão seguro quanto o Face ID de iPhones e iPads?
Não. E essa diferença precisa ficar bastante clara! O Face ID utilizado em iPhones e iPads Pro conta com um conjunto de sensores dedicados a isso, capazes de analisar a profundidade e construir uma representação tridimensional do rosto. Já a câmera convencional de um MacBook não possui os mesmos recursos, o que significa que o Glance precisa trabalhar com imagens bidimensionais, utilizando algoritmos para reconhecer o rosto e realizar verificações adicionais.
Embora essa abordagem permita oferecer uma experiência semelhante em termos de praticidade, ela não proporciona o mesmo nível de proteção oferecido pelo sistema biométrico da Apple.
Existe ainda outra diferença importante: o macOS não disponibiliza uma interface pública que permita a aplicativos de terceiros autenticar diretamente um usuário na tela de login por meio de reconhecimento facial. Para contornar essa limitação, o Glance utiliza uma abordagem diferente: depois de reconhecer o rosto autorizado, ele insere automaticamente a senha previamente cadastrada na Tela Bloqueada do macOS.
Sim, o aplicativo precisa armazenar uma versão criptografada da sua senha do Mac para realizar essa operação. Segundo a documentação do projeto, essa informação é protegida por criptografia AES-GCM, utilizando uma chave armazenada no Acesso às Chaves (Keychain Access) do macOS. O acesso depende de uma autorização de presença do usuário, como Touch ID ou a senha do dispositivo.
Dessa forma, o Glance não substitui o mecanismo de autenticação do macOS. Ele automatiza a utilização da senha depois de executar suas próprias verificações. Essa distinção é importante, especialmente para quem utiliza o Mac em ambientes corporativos ou trabalha com informações sensíveis.
O Glance deve ser entendido como uma ferramenta de conveniência, e não como uma melhoria na segurança do computador. Essa, inclusive, é uma observação apresentada pelo próprio desenvolvedor na documentação oficial.
Privacidade e permissões
Naturalmente, um aplicativo que utiliza reconhecimento facial e consegue interagir com a Tela Bloqueada precisa de permissões específicas. No caso do Glance, as principais são o acesso à câmera (necessário para capturar e analisar o rosto) e a permissão de acessibilidade (utilizada para inserir a senha na Tela Bloqueada). O aplicativo também utiliza os mecanismos de autenticação do macOS para proteger o acesso às informações criptografadas.
Segundo o desenvolvedor, o processamento facial é realizado inteiramente no dispositivo, sem envio das imagens ou das credenciais para servidores externos. Os dados utilizados no reconhecimento são armazenados de forma criptografada e podem ser excluídos pelo usuário.
Outro ponto positivo é que estamos falando de um projeto de código aberto. Seu código-fonte está disponível no GitHub, permitindo que pessoas interessadas compreendam melhor sua implementação. Isso não significa, por si só, que o aplicativo esteja livre de vulnerabilidades, mas oferece transparência sobre sua proposta e a forma como foi desenvolvido.
Pessoalmente, considero importante avaliar esse tipo de permissão antes de instalar qualquer ferramenta que interaja com mecanismos de autenticação do sistema operacional.
Gratuito e de código aberto
O Glance é distribuído gratuitamente e possui código-fonte aberto sob licença MIT. O projeto foi desenvolvido utilizando tecnologias do ecossistema Apple, incluindo SwiftUI para sua interface e os frameworks Vision e Core ML para o processamento relacionado ao reconhecimento facial.
Atualmente, o aplicativo exige o macOS Sequoia 15 ou superior e um Mac com Apple Silicon e câmera. O download está disponível diretamente na página de versões do projeto no GitHub.
Para quem gosta de conhecer o funcionamento das ferramentas que utiliza, também é possível acessar o repositório, consultar o código-fonte e acompanhar a evolução do projeto.
Vale a pena utilizar o Glance?
Acredito que a resposta dependa principalmente do que você espera dessa funcionalidade. Se a ideia é trazer para o Mac um pouco da praticidade que já conhecemos no desbloqueio facial do iPhone, o Glance apresenta uma proposta interessante. Ele aproveita a câmera que já temos disponível, trabalha com reconhecimento local e oferece uma interface visual que combina com a experiência do macOS.
Por outro lado, é importante entender que não estamos falando de uma implementação equivalente ao Face ID da Apple. Existem diferenças técnicas e limitações de segurança que precisam ser consideradas, especialmente pelo fato de o aplicativo utilizar uma senha armazenada de forma criptografada para concluir o desbloqueio.
Para quem prioriza a segurança oferecida pelos mecanismos oficiais de autenticação, continuar utilizando o Touch ID e a senha do macOS pode ser a escolha mais adequada. Mas, para quem compreende essas limitações e procura uma alternativa voltada à praticidade, o Glance pode ser interessante.
No fim das contas, o que mais me chama atenção nessa proposta é perceber como desenvolvedores independentes continuam encontrando maneiras de ampliar a experiência de uso do macOS. Não é uma funcionalidade que transforme completamente a maneira como utilizamos o computador, mas é justamente nessas pequenas interações do dia a dia que algumas ferramentas acabam encontrando seu espaço. E, neste caso, tudo começa com algo bastante simples: olhar para a câmera do Mac.