Herança organizada: startup viu uma oportunidade no caos burocrático da sucessão

3 de Out de 2026 - 05:50
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Herança organizada: startup viu uma oportunidade no caos burocrático da sucessão
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Quando perdeu a mãe, em dezembro de 2020, o empreendedor Sidney Pedrotti se deparou com uma situação comum a muitas famílias brasileiras: os documentos existiam, mas ninguém sabia exatamente onde estavam. “As coisas estavam lá, mas a gente não tinha o mapa”, resume. A experiência deu origem à Guarda Digital, plataforma criada para ajudar usuários a organizar documentos, registrar vontades e reunir informações que podem ser necessárias em caso de incapacidade ou morte.

Criada em 2022, a Guarda Digital começou atendendo exclusivamente o mercado corporativo, fornecendo sua tecnologia para funerárias, empresas de assistência e outros parceiros em modelo white label. A entrada no mercado de pessoa física, porém, é recente. Segundo Pedrotti, a operação B2C foi lançada em abril deste ano e já reúne cerca de 17 mil usuários.

“Quando idealizei a Guarda Digital, o objetivo era ajudar a reduzir os problemas que acompanham uma perda. Não há como eliminar a dor emocional do luto, mas é possível diminuir o caos burocrático e financeiro que costuma surgir nesse momento. Nosso propósito é justamente oferecer uma solução para tornar esse processo menos pesado para as famílias”, explicou.

Diferente do direcionamento da maioria dos produtos relacionados a sucessão, o alvo da Guarda Digital é a classe média. “A alta renda não é o meu público, até porque o planejamento póstumo desse grupo tem uma estrutura empresarial. Nosso foco é uma camada da classe média que não tem advogado de família, não é atendida por multifamily office, não tem holding, mas que, quando perde aquela pessoa que tinha o controle de tudo, de todos os documentos, fica perdida e sofre”, explica Pedrotti.

‘Cofre digital’

A plataforma disponibiliza um cofre digital criptografado para armazenamento de documentos e informações consideradas relevantes para familiares e herdeiros. O usuário pode guardar desde documentos pessoais e patrimoniais até senhas, registros de investimentos, apólices de seguros e instruções específicas para familiares.

Uma das características do serviço é o sistema de “guardiões”: pessoas escolhidas pelo usuário para participar do processo de liberação das informações armazenadas. A lógica, segundo a empresa, é semelhante à de um cofre bancário com múltiplas chaves.

Além do armazenamento de documentos, a plataforma oferece recursos voltados ao chamado legado digital, com orientações de como preencher um testamento digital, uma Diretiva Antecipada de Vontade (DAV) – documento que registra preferências sobre tratamentos médicos caso a pessoa não consiga se manifestar – e cápsulas do tempo com mensagens para familiares e de como organizar ativos digitais e instruções para beneficiários.

A empresa também desenvolveu serviços voltados a pets. Nele, o tutor pode registrar informações de saúde do animal, carteira de vacinação, indicar quem deverá assumir os cuidados em caso de falecimento e ter acesso a assistências específicas para animais, inclusive destinadas à partida do próprio pet, como transporte e cerimônia.

“Hoje a configuração familiar é diferente. Existem os cônjuges e o pet. Muitas vezes não existe a figura do filho, só a do ou dos pets. Então, quando fomos validar o produto, percebemos que era necessário oferecer uma estrutura para proteger esse pet, para que, após um eventual falecimento, ele não se torne um problema familiar, evitando aquele cenário em que nenhum dos familiares quer se tornar o novo tutor”.

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Para além do cofre digital, a empresa tenta se posicionar como uma plataforma de planejamento pós-morte. Por meio de parceria com a CAIXA Assistência, os planos pagos incluem serviços assistenciais como auxílio funeral, telemedicina, assistência veterinária, descontos em farmácias e suporte relacionado a inventários sem litígio.

Segundo Pedrotti, a expansão dessas assistências surgiu a partir das demandas percebidas pelos próprios usuários relacionadas a desafios burocráticos e financeiros para quem fica e o serviço funciona em um plano gratuito, chamado Início, que inclui até cinco documentos armazenados, um guardião, dois beneficiários e 100 MB de armazenamento. Depois, são oferecidos planos pagos com mensalidades que variam entre R$ 29,90 a R$ 99,90.

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Tecnologia ajuda, mas não elimina o inventário

Para o advogado João Otávio Spilari Goes, sócio do escritório Oliveira e Olivi e professor da Escola Paulista de Direito, ferramentas de organização patrimonial podem ser úteis, mas é importante que os usuários entendam seus limites jurídicos.

Segundo ele, um dos erros mais comuns é acreditar que a elaboração de um testamento elimina a necessidade de inventário.

“O testamento só significa que eu estou orientando meus herdeiros”, afirma. “Esse testamento vai ter que ser validado pela Justiça e posteriormente vai ter que ter um inventário.”

O advogado explica que existem três principais modalidades de testamento previstas na legislação brasileira:

  • o testamento particular, elaborado pelo próprio interessado e assinado com testemunhas;
  • o testamento público, registrado em cartório;
  • o testamento cerrado, também realizado perante tabelião, mas cujo conteúdo permanece sigiloso.

Segundo Goes, cada formato possui vantagens e limitações, mas todos podem exercer um papel importante na organização da sucessão.

Mais do que patrimônio, evitar conflitos

Para o especialista, o principal benefício do planejamento sucessório não está necessariamente na economia tributária ou na redução de burocracias. “Muitas vezes o planejamento existe para evitar brigas”, afirma.

“O grande ponto é olhar para a família e entender quais são os problemas que você pode imaginar no pós-morte e tentar evitar esses conflitos. Por exemplo, você sabe que, dos seus três filhos, dois se dão melhor e tem um mais apartado. Que tipo de orientação você pode deixar para evitar conflitos? Ou então você sabe que tem um filho mais responsável, mais confiável para lidar com burocracias. É possível deixar diretrizes mostrando que sua vontade é que esse filho tome algumas decisões”.

“O brasileiro vive como se nunca fosse se divorciar e como se nunca fosse morrer. Não existe conversa e, posteriormente, o luto, que já é um período difícil, se torna ainda mais complexo”, resume.

Para famílias sem grandes fortunas, a organização prévia pode não dispensar procedimentos legais, mas pode reduzir incertezas e evitar que um momento de perda seja agravado por disputas, documentos desaparecidos e patrimônio sem identificação.

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