Ideb: quais propostas dos candidatos para tirar o DF de ranking indigesto
No centro do debate político, o resultado negativo do último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é questionado em sabatinas e confrontos eleitorais entre os 11 candidatos ao Governo do Distrito Federal (GDF). Segundo o Ministério da Educação, em 2025, a capital do país ficou abaixo da média nacional em todas as etapas da educação básica e registrou queda no ensino médio.
No geral, as propostas de campanha direcionadas ao Ideb e à educação pública envolvem a criação de novos programas de incentivo, bem como a fixação de metas de aprendizagem. Além disso, candidatos propõem investir na melhora da alfabetização, recomposição de aprendizagem em português e matemática e acompanhamento com recursos de inteligência artificial.
Celina Leão
Recentemente, a governadora e candidata à reeleição, Celina Leão (PP), reconheceu que houve falha do governo no desempenho do DF no Ideb, incluindo no monitoramento. A atual mandatária afirmou que a ausência de treinamento e foco dos alunos na prova pode ter impactado nos resultados.
Segundo a postulante, a mudança do comando da Secretária de Educação após o rendimento na prova faz parte dos esforços da atual gestão para mudar o cenário negativo no DF. A governadora espera que a experiencia de Thiago Peixoto, reconhecido por ter atuado na educação pública de vários estados do país, possa promover resultados positivos.
“Agora, nosso desafio é trazer essa experiência para Brasília, com uma gestão focada em aprendizagem e resultados. Vamos identificar onde estão as maiores defasagens, reforçar a aprendizagem de português e matemática, investir na alfabetização na idade certa, ampliar o ensino integral e acompanhar de forma permanente o desempenho das escolas e dos estudantes”, defendeu a governadora.
Em seu plano governamental, Celina Leão propõe a criação do programa “Primeiras Letras”, que deve focar o ensino básico no compromisso de que toda criança conclua o 2º ano do ensino fundamental sabendo ler e escrever fluentemente. No mesmo sentido, ela promete investir em mais creches de qualidade para fortalecer a educação desde os primeiros anos de ensino.
José Roberto Arruda
Segundo o ex-governador e candidato ao GDF José Roberto Arruda (PSD), não há como melhorar os índices da educação sem valorizar professores. A proposta dele é pagar um 14º salário para todos os servidores das escolas que aumentar o seu índice no Ideb e voltar a oferecer a Bolsa Universitária.
“A nossa proposta de educação é, primeiro, valorização dos professores. O professor de Brasília tem que voltar a ser o melhor remunerado do país. Quero pagar o 14º salário para todos os servidores da escola que aumentarem o seu índice no Ideb”, disse. “Eu quero voltar a valorizar os professores e todas as carreiras da educação, para a gente voltar a ser a melhor educação do Brasil”, completou o postulante.
Arruda prevê a criação do programa “Acelera Exatas”, que prevê a implementação de tutorias intensivas regulares no contraturno focadas na aprendizagem de matemática e de raciocínio lógico. A proposta pretende utilizar plataformas de Inteligência Artificial para elevar os indicadores no Ideb.
Leandro Grass
O professor e candidato ao GDF Leandro Grass (PT) afirma que o maior problema da educação pública atualmente é falta de gestão focada no aprendizado dos estudantes. Por isso, ele explica que o seu plano de governo pretende focar principalmente no aprendizado e no fluxo escolar.
“Vou começar pela primeira infância. Vou construir 100 creches em quatro anos, para chegar à fila zero. Entendo que é da base que se garante bons resultados no futuro”, disse. “Quero promover a alfabetização na idade certa, com metas por escola e apoio às que ficam para trás”, disse o petista ao Metrópoles.
O postulante prevê mapear as escolas públicas da rede com os melhores resultados no Ideb para compreender seus métodos e apoiar as unidades de menor desempenho com tutoria, formação e aportes de recursos. Leandro Grass promete fortalecer os conselhos escolares e a autonomia das escolas, assim como criar um painel público de metas de aprendizagem por escola e por região administrativa.
Paula Belmonte
A candidata Paula Belmonte (PSDB) disse enxergar que os resultados no Ideb, principalmente a queda do desempenho do ensino médio, é preocupante por ser o momento que separa a escola de outras fases importante, como a universidade, cursos técnicos ou a entrada no mercado de trabalho. Como solução, a postulante afirma que pretende colocar a aprendizagem no centro das decisões do poder público.
Entre as propostas de governo de Paula Belmonte está aumentar o acompanhamento da frequência dos estudantes para combater a evasão escolar. A candidata afirma que pretende também expandir gradualmente a educação integral com foco em regiões de maior vulnerabilidade para melhorar a educação pública do DF.
“Quando falo de escola em tempo integral, eu não falo de simplesmente manter a criança mais horas dentro da escola, eu falo de realmente oferecer estrutura para os profissionais poderem acompanhar nossos jovens com esporte, cultura, tecnologia e oportunidades para que o aluno possa se desenvolver”, disse Belmonte.
Ricardo Cappelli
No mesmo sentido, Ricardo Cappelli (PSB) entende ser necessário incentivar o aprendizado de alunos e oferecer melhores condições de trabalho para professores. Segundo o candidato, o seu plano é priorizar a alfabetização de todas as crianças até o final do 2º ano, diminuir o número de alunos por sala e pagar salários melhores.
“O Ideb melhora quando o aluno aprende e o professor tem condições de ensinar. Não tem mistério. Professor valorizado faz a escola avançar. Eu sei que é possível porque já ajudei a fazer no Maranhão, no governo Flávio Dino. Colocamos o professor maranhense naquele período com o maior salário do Brasil. Quero fazer o mesmo no Distrito Federal”, defendeu o postulante.
Além disso, Ceppelli promete oferecer reforço, tutoria e acompanhamento para crianças com dificuldades de aprendizado, bem como impedir a evasão escolar. “E não vamos esperar o aluno abandonar a escola para agir. Vamos acompanhar a frequência, procurar a família e enfrentar a evasão, principalmente no ensino médio noturno”.
Kiko Caputo
Kiko Caputo (Novo) promete investir em alfabetização na idade adequada, além de realizar um diagnóstico pedagógico contínuo. O candidato ao GDF prevê apoio individualizado aos estudantes, bem como defender melhorar especialmente a aprendizagem e a progressão escolar.
“Para a melhoria do Ideb no Distrito Federal, propomos atuar justamente sobre os dois componentes que formam o indicador: aprendizagem dos estudantes e fluxo escolar – aprovação, reprovação e abandono”, disse o candidato.
Professor Robson
Segundo o concorrente ao Palácio do Buriti, professor Robson (PSTU), o Ideb não reflete a real qualidade da educação no Distrito Federal. Segundo ele, o indicador funciona como um mecanismo de ranqueamento para justificar o contingenciamento de verbas e a privatização do ensino público.
Sua proposta de governo prevê a efetivação dos professores temporários e dos Educadores Sociais Voluntários (ESVs), bem como aumentar o repasse para a educação de 25% para 30% da Receita Corrente Líquida (RCL) do DF.
“Sem investimento estrutural, valorização salarial e o encerramento dos contratos precarizados, não há como superar os problemas históricos do ensino na capital”, sustou o candidato.
Professora Samara Mineiro
Em tom de critica, a candidata professora Samara Mineiro (UP) afirma que educação no DF vem sendo sucateada ao longo dos últimos anos, assim como apontou a falta de construção de novas escolas públicas e a falta de valorização dos profissionais. Diante disso, ela defende a realização de novos concursos e a promoção de melhorres proventos à categoria.
“Por isso, para a gente conseguir melhorar a qualidade da educação pública no Distrito Federal, é fundamental que a gente faça novas novos concursos para recompor o quadro de profissionais da educação do DF. Além disso, precisamos de um processo de valorização salarial da carreira que hoje é uma das piores em relação à remuneração dos profissionais com ensino superior”, afirmou Samara Mineiro.
Elisson Ferreira
O buritizável Elisson Ferreira (Agir) defende que decretos do governador não possuem o poder de melhorar o Ideb, mas sim quando há ações reais que incentivem alunos a aprender e terminar os estudos. Segundo o candidato ao GDF, nos primeiros 100 dias de governo, ele pretende fazer um diagnóstico de aprendizagem por escola e iniciar recuperação imediata em português e matemática.
Melhorar as condições de alfabetização, combater faltas, evasão escolar e reprovação também faz parte do seu plano de governo para o DF. “Também vamos instalar uma mesa permanente de diálogo com os professores e o Sinpro, avançando na valorização profissional, nas pecúnias e na recomposição da carreira urgentemente”, completou.
Procurado pelo Metrópoles, o candidato Expedito Mendonça (PCO) não deu retorno sobre sua proposta de governo para a educação do Distrito Federal.
Avaliação de especialistas
O doutor em educação Lucelmo Lacerda explica que o Ideb é um calculo feito a partir dos dados de aprovação escolar coletados pelo Censo Escolar e das médias de desempenho medidas pela prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicada a cada dois anos. De acordo com o especialista, o índice avalia a progressão dos alunos ao longo da vida escolar e é importante por expor se a educação dos estados e municípios avançaram.
“Nos últimos anos no Brasil, a gente vem avançando em relação ao Ideb, mas esse avanço não é uniforme: tem lugares que têm pior desempenho, melhor desempenho, às vezes têm uma regressão em termos de desempenho”, disse o especialista.
O professor titular da Faculdade Educação UnB, Remi Castioni, completa a ideia ao exemplificar que, se uma turma não progride, não passa de ano, tem abandono e repetência, ela é penalizada nos resultados do Ideb por conta disso. “Então, não é simplesmente o desempenho na nota que vai medir também a progressão”
O que pode ter motivado a queda no IDEB?
O resultado não é surpresa para especialistas que acompanham e têm como produto o estudo das políticas de educação no DF, avalia Castioni. O professor ressalta que, nos últimos 20 anos, é possível observar uma queda no Ideb do DF, mesmo com programas destinados à educação.
Confira os motivos que podem ter deixado o DF com baixo desempenho na educação, segundo Remi Castioni:
- Abandono por mais de 20 anos de um sistema de monitoramento;
- Coordenação frágil entre a Unidade Central e as Regionais de Ensino que agem à mercê da Unidade Central;
- Baixo comprometimento com os resultados da aprendizagem por parte dos gestores;
- Formação dos gestores não prioriza a liderança na melhoria da aprendizagem;
- Proposta curricular do DF: o currículo em movimento destoa da Base Nacional Curricular;
- Ausência de mobilização para a realização da avaliação.
A avaliação do especialista é que apesar dos incentivos de progressão e permanência na escola, como o pé-de-meia, há problemas principalmente na aprendizagem. Os resultados mostram que o DF alcançou 2 pontos em matemática e 3 em português na SAEB, patamar avaliado como muito ruim e preocupante.
“E o que foi então que derrubou a nota do IDEB nestes 20 anos no DF? A taxa de aprendizagem. A escala do SAEB vai até 500 pontos, a mesma do PISA. Todas as UFs estão localizadas nos níveis 2 (250-275) e 3 (275-300) de uma escala de 8 ou 10 níveis (Português e Matemática, respectivamente). Mas o que ocorreu no DF? Regredimos de um ponto a outro em 20 anos; 22 pontos em matemática e 3 em português. Estamos no limite da escala 2 do SAEB, o que é muito ruim”, elenca o Castioni.
Possibilidades
O especialista avalia que o DF tem todas as condições para sair da posição baixa no Ideb, especialmente por ter o maior orçamento per capita em educação do Brasil.
“Tem um corpo docente muito qualificado; tem contrato de 40 horas e jornada de trabalho exclusiva em uma única escola, algo raro no Brasil, onde os professores duplicam contratos. É necessário que a prioridade esteja no centro da questão, a aprendizagem”, disse.














