Luan revela luta contra o álcool e a depressão no São Paulo: "Entrava em crise de choro"
Volante admite problemas, diz que teve pedidos para treinar com o grupo negados e que isolamento foi gatilho; ele conta que chegou até a rejeitar visitas dos companheiros: "Não queria sair de casa"
Depressão, crise de pânico e um pedido: "Só queria treinar com o grupo"
Era quase como um altar. Na parede, dois quadros cuidadosamente alinhados com duas camisas. Uma delas, tricolor, com o número 13, outra amarelinha com o número 5. As duas com o mesmo nome: Luan.
– Essas daí são de quando eu era bom – brincou o ex-volante do quando a reportagem do ge pediu para fotografar o espaço.
Luan revela problemas com bebida durante depressão enquanto esteve afastado no São Paulo
Na tarde da última sexta-feira, Luan passou quase uma hora na sala de casa concedendo sua primeira entrevista exclusiva desde que deixou o clube que ele define como “família”.
Antes do papo começar, o volante deu uma olhada no caderninho e quis saber: “E essas perguntas aí, só bomba?”
– Agora já pode falar, Luan – comentou uma pessoa que acompanhava a entrevista.
Camisas enquadradas na casa de Luan — Foto: Eder Traskini/ge.globo
O volante sorriu e desviou o olhar. O sorriso mais amarelo que seus dentes imaculadamente brancos eram capazes de dar. Não era felicidade, muito longe disso. Luan nunca quis deixar o , mas ali naquela cadeira pôde, finalmente, contar a sua versão da história.
– Nunca tive o poder do microfone. Algumas coisas me deixaram muito chateado. Eu fui afastado porque não tinha renovado o contrato. Tive uma conversa franca com a diretoria, Rui Costa sabe disso. Tive propostas de outros clubes, até rivais, pagando mais, mas eu não queria sair, só queria ter mais oportunidades. Começaram a sair notícias de que eu queria a titularidade e mais dinheiro. Eu me calei.
Luan abre o jogo sobre problemas com diretoria do São Paulo: "Nunca tive voz"
Depois de sofrer com lesões entre 2021 e 2022, Luan tinha contrato somente até o final de 2023 e deixou de ser utilizado até resolver sua renovação. Foi em maio daquele ano que o volante rejeitou ofertas de rivais e renovou até o fim de 2026.
– Tem algo que nunca falei: no mês seguinte da minha renovação, me chamaram para falar que eu não iria jogar, que iriam me emprestar. Eu tinha rejeitado propostas melhores para ficar e reforcei que não queria sair. Então, começaram a me deixar de fora, separado, no terceiro time.
– De 2023 para frente, não teve “o Luan não conseguiu voltar a ser o que ele era em 2021”. Teve mais de não darem oportunidades para que eu pudesse jogar.
Luan preferiu batalhar pelo seu espaço naquele ano, voltou a ser relacionado, fez alguns jogos e foi parte do elenco campeão da Copa do Brasil. No ano seguinte, foi novamente informado que não estava nos planos e passou a temporada emprestado ao Vitória. Em 2025, mais uma vez ele recebe a informação de que estava fora nos planos, mas se recusa a sair.
Luan concede entrevista exclusiva ao ge — Foto: Eder Traskini/ge.globo
– Nunca falei sobre isso, mas foi difícil de entender. Eu não tinha renovado e eles me afastaram. Eu renovo e eles me reintegram. Um mês depois, avisam que vou ser emprestado. A partir dali, entendi que ia ser uma guerra. Não do Luan para estar bem física e mentalmente. Eu sabia que ia ser uma guerra fora de campo.
– Fiz de tudo para ficar no . Fui chamado de mercenário e não era. Renovei por três anos e nos três quiseram me emprestar. Nos três me colocaram para treinar separado. Não o , mas pessoas que trabalharam lá, que inclusive não estão lá mais. Não tenho mágoas, não. Fiz de coração, não me arrependo. Eu falei na minha despedida: teve vezes que preferi treinar separado do que ser emprestado para outro clube. Isso diz muito do amor que tenho pela camisa.
Luan se emociona ao falar de despedida no São Paulo
Para Luan, a maior tristeza era treinar separado do restante do grupo, sem poder estar junto com aqueles com quem conviveu por boa parte d,a carreira. Para ele, esse foi o principal gatilho que o levou ao quadro de depressão.
– Treinar separado foi o que despertou a depressão. Eu entrei com 11 anos, fui campeão, fiz gol em final, ajudei. Não era nenhum Rogério Ceni, Kaká, Luís Fabiano, Lugano, esses caras que são ídolos, mas de alguma forma ajudei a quebrar um tabu de anos. E o mínimo que eu pedia era continuar treinando com o grupo. Eu não ia atrapalhar em nada, todo mundo sabia do meu comprometimento. Só precisava estar no grupo.
Os trabalhos em horários alternativos eram, muitas vezes, feitos sozinho em campo, apenas supervisionados por algum membro da comissão técnica. Diversas vezes, era apenas Luan correndo ao redor do gramado e fazendo trabalhos com bola batendo no "paredão".
– Treinar em horário alternativo dos meus companheiros era a pior coisa do mundo para mim. Era o que mais me machucava ter que passar por aquilo. A torcida ficou com a imagem de que fiquei três anos lá comendo, bebendo e roubando o clube. Sei que depois da renovação, minha relação com a torcida mudou muito, acharam que fiz corpo mole, queria dinheiro e pegaram birra, mas não foi isso.
A depressão preocupou os companheiros de clube a ponto de Luciano, Alan Franco, Jandrei e Alisson fazerem uma visita na casa de Luan. Só que o volante não conseguiu recebê-los.
– Eu me tranquei no quartinho e fiquei chorando. Eu não recebi eles. Muitas vezes eu não queria sair de casa. Quando tinha jogo do eu ficava mal. Eu assistia, mas entrava em crise de pânico, de choro.
Luan chora após primeiro jogo pelo São Paulo em quase dois anos — Foto: Rubens Chiri/saopaulofc
Durante a entrevista ao ge, Luan confessou que teve dificuldades com o peso durante a recuperação da lesão sofrida em 2021, e que enfrentou problemas com bebida durante o ponto alto da depressão.
– Todo mundo passa por um momento de amadurecimento. O momento que convivi com problemas de peso foi no momento da minha lesão. Hoje entendo que ali já desenvolvi um pouco de depressão porque eu não conseguia voltar, não recuperava. Quando faz a cirurgia é que descobrem que eu tinha uma situação mais delicada no adutor, um edema ósseo que tinha calcificado. E ali me perguntam: como você estava aguentando jogar e treinar?
– Já tive alguns problemas extracampo, sim, não escondo. Em determinado momento da minha depressão. Eu preferi me calar e fazer o trabalho no dia a dia. Problema de peso na época da lesão, problema de bebida na época da depressão.
Até hoje, Luan diz não ter conseguido entender os motivos pelos quais o renovou seu contrato e logo depois o tirou dos planos. Uma contradição do antigo executivo Rui Costa, no entanto, nunca foi esquecida pelo volante.
– Sempre era um jogando para o outro. A diretoria falava que era a comissão, a comissão falava que era a diretoria. Ninguém olhava na minha cara e falava: quem não quer é esse. Meu amor pelo clube não mudou perante essas atitudes dessas pessoas.
– O que não consigo entender é que no ano passado recebi uma proposta do Botafogo, mas o Rui Costa não me liberou falando que eu tinha me recuperado. E no outro ano me afastou. Eu não entendo. Se eu não posso ser negociado com o Botafogo, como que vou ser afastado dentro do ?
Arboleda e Luan antes de Palmeiras x São Paulo — Foto: Marcos Ribolli
Veja outras respostas de Luan durante a entrevista exclusiva:
GE: o gol de 2021 vai ficar para sempre marcado. Como você vai contar isso daqui a 10 anos para os amigos?
– Podem passar 10 anos e o pessoal vai me parar para falar desse gol. A forma que eu contaria é engraçada. Eu estava com a minha família um dia antes assistindo a final da Copa Sul-Americana e falei: quem fizer o gol na final contra o Palmeiras vai ficar lembrado. Eu fui muito confiante, tinha feito um primeiro jogo muito bom. Não esperava que iria fazer o gol, sou mais defensivo. Mas fiquei na cabeça que a bola que sobrasse eu iria chutar. Eu brinco que combinei com o jogador do Palmeiras o desvio para enganar o Weverton (risos). Fui abençoado com o gol.
– No primeiro jogo da final, eu estava dando entrevista sobre o jogo e aí o Abel passa ali e brinca que ficou cansado só de me ver correr. Ficou marcado porque ele é um grande treinador e acabou sendo um elogio. Até hoje tenho esse carinho até de torcedores do Palmeiras, que me encontram e falam: Abel falou de você e tal. Mas aquilo com certeza me deu mais confiança para o segundo jogo (risos). Ajudou!
Melhores momentos: São Paulo 2 x 0 Palmeiras pela final do Campeonato Paulista 2021
Como era sua relação com Crespo? Ele foi o melhor técnico com quem você trabalhou?
– Cada jogador tem sua preferência de treinador, mas o Crespo extraiu muito de mim, das minhas características. Meu futebol com ele cresceu muito. Diniz também foi outro que acreditou muito em mim. Mas se tivesse que escolher, seria o Crespo. Não só pelo título e pelo gol, mas pela confiança que tinha em mim. Nesse retorno, conseguiu me recuperar. A conversa que tive com ele foi simples: se ele precisasse de mim cinco minutos ou 90, eu estaria pronto.
O que achou da demissão de Crespo?
– Não tem como eu decretar se foi injustiçado ou não (na demissão). Cabe à diretoria essa decisão. Somos funcionários do clube. A decisão nunca vai passar 100% pelos jogadores, podem até opinar nisso ou naquilo, mas cabe ao presidente e diretor. O que sei é da pessoa dele. A relação era boa, todos gostavam, não tinham problema. Muitos faziam gols e iam abraçar. Depois também veio Roger e foi mandado embora. Ficamos tristes quando um treinar vai, mas é cíclico.
Como foi o retorno ao time, na semifinal do Paulistão, contra o Palmeiras? A escalação rendeu críticas ao técnico Hernán Crespo.
– Eu havia retornado de lesão e estava ganhando alguns minutos. A conversa que ele teve comigo foi franca. Eu vinha treinando bem e evoluindo. O Danielzinho vinha jogando e durante a semana estava com algum problema. Ele me perguntou se eu estaria apto se precisasse contar comigo. Eu falei que tinha voltado agora, não tinha sido titular, mas que estava à disposição. Mesmo que meu máxima não seja o que as pessoas querem, eu iria entregar o meu máximo.
– Perdemos o jogo, e é aquela: futebol é resultado. Se tivéssemos classificado, a repercussão teria sido diferente. Não entendi na época tanta repercussão por ter me escolhido. Mas é normal, jogar com a camisa do vai ter sempre essa responsabilidade. Abaixar a cabeça e continuar trabalhando. Encontrei ele no outro dia, me passou tranquilidade. Me privei de rede social e tudo isso. A torcida tem todo direito de ficar brava, ficaram naquela situação, mas não me levei como culpado. Tinham 11 em campo e futebol é assim.
E o que as pessoas queriam?
– Não sei. Quando termina um jogo, você faz sua autoanálise. Tem a da torcida, tem de repórter… Para algumas pessoas pode não ter sido meu máximo dentro de campo. Eu sabia que estava voltando de lesão. Como eu falei: se eu tiver sem ritmo, ninguém vai querer saber, vão querer os 100%. Eu saí de lá satisfeito com o que eu fiz. Se para outras pessoas não foi, o que eu fiz foi abaixar a cabeça e continuar trabalhando buscando melhorar. Foi uma decisão contra uma grande equipe. O Palmeiras estava ganhando de todo mundo e até hoje é assim. Acontece. Grandes jogadores, grandes responsabilidades. Eu tinha um nome ainda mais jogando contra o Palmeiras, a torcida esperava algo mais e não aconteceu. Foi a primeira vez talvez que recebi bastante crítica. Sabia que estava voltando de lesão e não me crucifiquei por isso.
Você chegou a ter algum embate com Rogério Ceni quando foi treinado por ele?
– Não. No primeiro treino dele, eu tive a lesão. Quando voltei, eu voltava e machucava. No ano seguinte, fiz a cirurgia, me recuperei, voltei de férias, me dediquei, emagreci, tudo. Quando voltei, tive o problema da minha renovação. O Rogério conversou comigo e me deu um conselho: “Sei que tem muitos clubes atrás de você, sei que talvez o não consiga cobrir o que te oferecem, mas aqui você terá o carinho da torcida”. Eu respondi: “Não, professor, eu quero ficar, quero jogar mais”. Tivemos essa conversa, porém as negociações não aconteceram, entre meu empresário e a diretoria. E, como ele era o comandante na época, ele ia a público. Ele falou que o Luan não jogaria enquanto não renovasse. Mas não era ele quem tomava a decisão da renovação, era a diretoria.
– Naquele momento, teve a situação do Rogério com outro jogador. Acabaram falando que Luan e Luciano fizeram uma panela. Mas, como sempre, quando acontecia alguma coisa com meu nome, eu não vinha a público. Eu me calava, porque sou jogador, não tenho que vir explicar. Tenho que estar no dia a dia, jogando. A não ser que eu faça um gol, entregue um gol e responda ao repórter. Mas não vou abrir uma live. Para mim, o justo não tem que se justificar.
– Enfrentei ele (Rogério) depois, tanto pelo quanto pelo Vitória. Virou meu rival, conversamos. É um ídolo, talvez o maior do . Não tem como ter um embate com Rogério Ceni e achar que você vai ganhar, ainda mais dentro do . Mas, como treinador, não tenho o que falar. Diniz, Crespo e ele, como treinadores, não tenho o que falar.
Luan sinaliza lesão ao técnico Rogério Ceni — Foto: Marcos Ribolli
O quanto jogar com salários atrasados influenciam dentro de campo?
– Recentemente, o Luciano deu uma entrevista dizendo que, desde que chegou, conviveu com salários atrasados. Posso falar por mim e pelos meus companheiros: a gente nunca fez corpo mole por salário. Sempre foi um grupo muito bom. Eu estava no desde 2018, foram muitos jogadores, e nunca vi um elenco, ou uma panela, que dissesse: “Ah, não está pagando, não vamos correr”.
– Mas não tem como deixar de dizer que atrapalha. Não importa o dinheiro que tenha, todos têm responsabilidades, família, contas a pagar, e isso mexe um pouco. Hoje eu estou mais velho, mas era mais novo, a gente acaba ficando preocupado. Não só no , mas em outros clubes do Brasil, infelizmente, isso acontece. Acaba atrapalhando, sim.
E o quanto a guerra política dentro do clube atrapalha?
– Acabava afetando. O sempre foi exemplo de gestão. Infelizmente, hoje passa por um momento delicado, tanto financeiramente quanto na política. Alguns jogadores vieram a público falar que isso precisava ser resolvido. O Crespo também falou. O , com a grandeza que tem, não pode ficar muito tempo com esses embates para resolver questões políticas. Acaba atrapalhando. Não sabemos quem vai comandar, as novas regras, isso atrapalha. Não que fosse uma desculpa.
– O pior momento era quando não sabíamos quem seria presidente, se continuaria ou se sairia. Estávamos com salários atrasados, então ficávamos preocupados. Dependia de quem ia chegar. A gente tinha dinheiro para receber que estava atrasado e não sabia se quem chegasse ia acertar o que estava para trás. Esse momento mexeu muito. Ficamos sem saber, até que o Crespo falou: “É a gente pela gente, vamos jogar”. Tinha um momento em que você conversava com alguém e, na outra semana, essa pessoa não estava mais.
O que o Luan vislumbra para o futuro?
– Tem alguns clubes com os quais estou conversando. Meu empresário vai resolver da melhor forma. O que eu queria era resolver com o amigavelmente. Agora a gente vai olhar e definir os próximos passos. Vou focar em treinar, me dedicar ao máximo para estar na melhor forma e esperar meu empresário me comunicar. Tomar a melhor decisão, avaliar as propostas, dentro ou fora do Brasil. Mas sei que o próximo clube para o qual eu for terá a melhor forma do Luan.
Como foi a despedida e a homenagem que você recebeu?
– Foi uma despedida marcante. Eu nunca esperava que chegaria esse dia. Estou no desde os 11 anos, jogo no profissional desde os 18. Fui chorando ao CT. Quando cheguei lá, chorei. Quando o Rafinha começou a falar, chorei, porque sabia que seria meu último momento ali, que eu teria acesso livre na portaria.
– Foi quando fui buscar minhas chuteiras, abraçar meus amigos, assistir ao último treino. Foi muito difícil. Era meu último dia, que eu esperava que nunca chegaria. Tive outras oportunidades de sair e não quis. E sair daquela forma... Rafinha me ligou e disse que queria que fossem me homenagear porque fiz gol na final. Eu chorei no telefone, porque era só o que eu queria, o mínimo que eu queria. Não era só assinar uma rescisão e cada um para o seu lado, obrigado pelos serviços e tchau. Quando ele me ligou e contou que faria isso por mim, fiquei feliz. Foi gratificante da parte dele, porque não precisava. Chorei bastante, fui para casa chorando, com meus amigos
– É a realidade, o ciclo se encerrou. Agora está caindo a ficha, é olhar para frente. Fico feliz pela minha história. Não me arrependo de não ter ido para o rival naquele momento. Não sabemos o dia de amanhã, mas de não ter deixado o , de não ter renovado e ido para um rival, não me arrependo. Não pensei no dinheiro, pensei no amor pela camisa.
O que o representa para você?
– é família. Não vou falar tudo, porque tudo é Deus, mas família. Ele me acolheu com 11 anos de idade, eu criancinha, treinava uma vez na semana, no fraldinha. Estudei na escola que o me colocou para estudar. Me abraçou.
– Foi quando consegui comprar minha primeira casa, foi pelo . Tirar minha mãe de onde morávamos, comprar um apartamento, meu primeiro carro, me tornar quem sou como homem, foi através do . O clube moldou quem eu sou hoje e serei eternamente grato.
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