Três histórias por trás das perguntas de Lula a Flávio sobre mulheres
A primeira pergunta veio leve logo no primeiro confronto direto do debate da Band, na noite de domingo (18/10). Lula olhou para Flávio Bolsonaro e lembrou um voto de 2009, quando o adversário era deputado estadual no Rio de Janeiro. “De 49 deputados, você foi o único que votou contra a mulher ter dois meses mais para cuidar da criança. O que você tem contra as mulheres?”
Flávio respondeu que não tinha nada contra elas, citou a esposa e as filhas e mudou de assunto. Lula insistiu. “Você não respondeu à pergunta. Por que você votou contra?” A explicação não veio.
O voto existiu. A proposta ampliava de quatro para seis meses a licença-maternidade das servidoras do estado do Rio e foi aprovada na Assembleia Legislativa por 45 votos a 1. O único voto contrário foi o de Flávio.
Por que dois meses fazem tanta diferença
É nos primeiros meses que o bebê forma o vínculo que sustenta sua segurança emocional, como mostrou o psiquiatra John Bowlby, e seis meses é o período em que a Organização Mundial da Saúde recomenda só leite materno. Foi esse tempo que Flávio negou às servidoras do Rio.
Podia ser coisa da idade
Mas em 2023, já senador, Flávio discursou contra a paridade de salários entre homem e mulher. Na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, disse defender a igualdade salarial e, na mesma fala, anunciou que ficaria contra o projeto em nome da meritocracia, embora a CLT sempre tenha permitido diferenças por produtividade e tempo de serviço.
O Congresso aprovou a proposta apesar da resistência dele, e em maio deste ano o STF validou a lei por unanimidade. As mulheres ainda ganham 21,3% menos que os homens.
Ana Clara
O debate da Band ainda guardava a pergunta mais dura da noite sobre as mulheres. Lula quis saber por que Flávio, já senador, trabalhou para que o policial acusado de matar uma criança de 5 anos com tiro de fuzil não fosse preso. “Me explica por que você fez isso”, cobrou. Flávio respondeu que não se pode criminalizar a advocacia, que nem houve julgamento e que nunca quis tirar a marcação das balas, como Lula também cobrou. Lula voltou ao assunto mais cinco vezes, e a explicação não veio.
Nesta segunda-feira (19/10), a atriz Camila Pitanga contou a história por trás dessa pergunta em “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, episódio da série Revelando. Ana Clara Gomes Machado tinha 5 anos, cabelo cacheado e carinha redonda. Queria ser igual à mãe em tudo. “Mãe, quando eu crescer eu vou ser igual a você”, dizia.
Na manhã de 2 de fevereiro de 2021, ela tinha acabado de acordar e brincava na porta de casa com o irmão de 2 anos, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói, quando foi atingida por tiros de fuzil durante uma ação policial. Chegou ao hospital sangrando nos braços da mãe e não resistiu. “Me dói muito porque eu não vou ver minha filha crescer. Eu não vou ver os 15 anos”, diz Cristiane Gomes da Silva.
O Ministério Público acusou o então cabo da PM Bruno Dias Delaroli pelos disparos. Segundo o episódio, o delegado da Polícia Civil que foi ao local afirma não ter dúvidas sobre quem atirou, e a Justiça mandou o caso a júri popular. Quando o julgamento parecia enfim chegar, um advogado novo apareceu no processo. Era Flávio Bolsonaro, que em 2024 assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça para tentar derrubar essa decisão.
Mais de cinco anos depois, Delaroli segue sem julgamento, em liberdade, e o júri está previsto só para maio de 2027. “Eu só quero que a justiça seja feita”, diz Cristiane. “É surreal uma pessoa querendo ser presidente do Brasil tentar anular o júri de um cara que impediu uma criança de 5 anos de viver.”