Memes, medo e desinformação: por que os Caps ainda enfrentam resistência no DF

27 de Set de 2026 - 02:10
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Memes, medo e desinformação: por que os Caps ainda enfrentam resistência no DF

Placa mostra CAPS no DF. Jhonatan Cantarelle/Agência Saúde-DF Até 2027, cinco novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) devem ser implementados no DF. Mas, como o g1 mostrou neste sábado, a construção desses espaços vem sofrendo resistência dos próprios moradores das regiões. Os cinco novos Caps estão previstos para Taguatinga, Ceilândia, Guará, Gama e Recanto das Emas. Até aqui, apenas o do Gama entrou em funcionamento, em julho. Mais que uma simples escolha de governo, o número e o mapeamento constam em uma recomendação do Ministério Público do do DF que leva em consideração a baixa cobertura no DF – de 0,54 unidades para cada 100 mil habitantes. Os protestos dos moradores dessas regiões são semelhantes no modo de agir e nos argumentos trazidos --- como a preferência por espaços de lazer, os impactos ambientais e a segurança. Para além das reivindicações, no entanto, um fator é marcante: a falta de conhecimento sobre como funciona a rede de saúde mental. A resistência cresceu? As mobilizações contra a instalação de Caps não são exatamente uma novidade, mas ganharam volume nos últimos meses, como explica a subsecretária de Saúde Mental do DF, Fernanda Falcomer. Os memes usando o nome do Caps, por exemplo, contribuem para essa desinformação. "Doidinho do Caps", “dia mais fraco no Caps”, “do jeito que o Caps gosta” são algumas das frases que aparecem nas redes sociais -- e que, na visão da especialista, estigmatizam os espaços e as pessoas que buscam tratamento. As menções ao sistema cresceram em 2024, segundo o Google Trends, e alavancaram perfis na internet. Atendimento a crianças e adolescentes nos CAPS aumentou 33% no DF Direito ao território A existência do Caps no meio da comunidade não enfrenta apenas a resistência da comunidade, mas passa por um dilema de planejamento urbano. O modelo de assistência em saúde mental previsto no Sistema Único de Saúde (SUS) e válido para todo o país prevê, justamente, que os Centros de Atenção Psicossocial sejam construídos dentro dos bairros – mesmo aqueles que funcionam 24 horas e atendem pacientes em crise. Isso, porque a ideia do tratamento é de reabilitar o sujeito para a vida em comunidade. Responsável pela gestão desses espaços, a subsecretária Fernanda Falcomer afirma que é preciso entender a função social dos Caps e de outras estruturas voltadas à saúde mental. “A população precisa também respeitar que os espaços públicos são para construção de equipamentos públicos. A gente usa sempre um terreno que já estava com previsão de colocar um equipamento público. Então, é tudo feito dentro da lei”, comenta. População deve ser ouvida, avalia especialista No caso do terreno de Taguatinga, a população levanta um questionamento: o lote em disputa foi abandonado pelo poder público por anos, e vinha sendo cuidado pela própria comunidade. Agora, os moradores não têm direito a participar da decisão? O professor de arquitetura e urbanismo da UnB e autor do Plano Diretor do Campus Darcy Ribeiro, Frederico Flósculo, aponta a falta de participação popular na administração dos espaços. Segundo o especialista, o planejamento territorial do DF segue uma lógica da construção civil, que prioriza especulações imobiliárias em detrimento da função social dos espaços. Ele destaca a necessidade de audiências públicas – demanda citada também pela população. “É verdadeiro que esses terrenos destinados a equipamentos públicos são públicos, mas não é verdadeiro que esses terrenos devam ficar intocados, devam ficar abandonados, devam ficar entregues à própria sorte, por obra do próprio governo. Isso é uma atitude que eu vejo como perversa. São autoridades que não conseguem enxergar a dimensão do seu papel público, a dimensão do seu papel civilizatório”, afirma. Flósculo critica ainda a própria arquitetura dos Caps do Distrito Federal, que não condizem com a função social das unidades. “Você tem muros cercando os Caps. Então, a gente acaba tendo, digamos assim, um enclausuramento das políticas de saúde mental", pontua. O especialista afirma que a natureza do atendimento psicossocial necessita de um projeto arquitetônico que promova integração com a comunidade. Para ele, isso poderia ser feito com espaços de convívio, hortas comunitárias e áreas de lazer. “Nós podemos ter um modelo de Caps que é muito mais integrado à comunidade, mas isso exige uma discussão do que é o Caps e como ele serve à comunidade. Do jeito que a gente faz, nós instalamos um corpo estranho no meio da comunidade. Isso aumenta a sensação de insegurança”, explica. Ataques de pessoas em situação de rua a pedestres acende o alerta para o tratamento de saúde mental Uma convivência possível Para o doutor em saúde pública e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Silvio Yasui, a resistência aos Caps vinha diminuindo em razão de esforços de conscientização e dos efeitos positivos do cuidado efetivo nas unidades. Nos últimos 10 anos, segundo Yasui, a imagem dos centros sofreu um revés -- que ele atribui a uma "onda de conservadorismo". “Antes de ser uma mudança técnico-assistencial, a reforma psiquiátrica também é uma proposição de sonhar com uma sociedade mais solidária, mais empática. Num cenário conservador em que as pessoas são mais individualistas, são mais indiferentes, o jeito de tratar as diferenças vai se tornando um campo de batalhas. Yasui conhece essa dinâmica social de perto. Nos anos 1980, atuou como psicólogo no primeiro Centro de Atenção Psicossocial do Brasil, o Caps Professor Luiz da Rocha Cerqueira, em São Paulo. Décadas depois, os argumentos contrários ainda são os mesmos. “Quando a gente começou a reforma psiquiátrica, lá nos anos 80, vários setores mais conservadores falaram exatamente isso, que se você fechasse o hospital psiquiátrico iria aumentar a população de rua. Ao longo dos últimos 30 anos, esse fenômeno não existiu”, pontua. Para o especialista, a solução está em trazer a comunidade para perto -- por exemplo, promovendo eventos abertos à comunidade nos locais. “É um pouco sobre abrir o diálogo com a comunidade no entorno. Perguntando para as pessoas: 'Se um dia você tiver um problema de saúde mental, como você gostaria de ser cuidada? Fechada no hospital psiquiátrico ou perto da tua casa?', provoca. Segundo pior do Brasil Mesmo com a implementação das novos unidades, o DF segue entre as piores coberturas de Caps do país, com 18 CAPS. Em 2025, Brasília alcançou o segundo pior resultado do país, atrás apenas do Amazonas. Segundo o Ministério da Saúde, o índice é de 0,54 Caps para cada 100 mil habitantes. De 2025 para cá, o DF passou a ter 19 unidades, com a inauguração no Gama. A Secretaria de Saúde afirma que o planejamento de construção dos cinco CAPS deve ser cumprida até 2027. A inauguração no Recanto das Emas está prevista para outubro deste ano. Já Ceilândia e Taguatinga tem conclusão prevista para o ano que vem. No Guará, o processo está em fase de contratação da obra. "Além dessas unidades, está prevista a construção de mais sete Caps no período de 2027 a 2029, ampliando progressivamente a oferta de serviços de saúde mental no DF. As novas expansões seguem critérios técnicos de priorização e estão condicionadas à disponibilidade orçamentária e à existência de terrenos adequados", diz a pasta. DF tem uma das piores coberturas de CAPS do país Precisa de ajuda? O Caps é um serviço público voltado para casos de intenso sofrimento psíquico, com acolhimento, equipe multiprofissional e reabilitação. O tratamento é voluntário. Veja aqui o Caps mais próximo e a UBS mais próxima de você. Centro de Valorização da Vida – telefone 188 (ligação gratuita). O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip, 24 horas por dia, todos os dias. A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, é gratuita a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular. Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre a ligação gratuita. Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.