League of Legends e Wild Rift são os exemplos perfeitos de como o preconceito foi normalizado no meio gamer

26 de Set de 2026 - 13:40
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League of Legends e Wild Rift são os exemplos perfeitos de como o preconceito foi normalizado no meio gamer

Joguei durante toda minha adolescência. Poderia brincar ao dizer que não me orgulho disso e fazer piadas — como geralmente faço —, mas decidi escrever sobre um problema sério, que causa revolta ao ser ignorado pela Riot e normalizado pela comunidade.

Sei como a comunidade de jogos online é (e sempre foi) extremamente tóxica. Quando joguei League of Legends pela primeira vez, ficava com um medo avassalador de ser xingada no chat, chegava a ficar dias sem jogar com vergonha de tentar aprender, pois até em partidas PvP era uma batalha para ver quem conseguia pensar na pior ofensa para enviar no chat. Passando por situações assim de forma recorrente, criei uma casca grossa — como todo jogador de LoL que quer continuar jogando — e me tornei indiferente a xingamentos de terceiros.

Quando migrei para o , bem no lançamento, acabei largando LoL e fiquei somente no jogo mobile. São anos tendo o (des)prazer de jogar, então sei como funciona e o que esperar de cada partida. Ao parar para analisar bem, é possível perceber que a maioria das ofensas não são para afetar quem realmente está derrubando o time, mas sim de jogadores que estão frustrados com a própria gameplay e decidem descontar em outros. Ou, como vem acontecendo bastante, ficam com raiva por não conseguir o champ ou a lane que desejam e iniciam a partida feedando os inimigos e xingando aleatoriamente no chat. Isso sempre existiu e não vai mudar. No entanto, tem algo que não posso desviar a minha atenção e simplesmente ignorar: o descaso da Riot com as denúncias de racismo, homofobia e misoginia.

Jogos online apresentam ambientes cada vez mais hostis, marcados por discursos de ódio

Observo que se tornou cada vez mais “comum” crimes (Sim, crimes! Temos que começar a dar nomes aos bois) serem cometidos dentro das partidas. Pelo menos duas vezes por semana, me deparo com comentários racistas sendo direcionados a jogadores que estão com campeões negros, como Senna, Lucian, Ekko, entre outros. Muitas vezes, essas falas são feitas no lobby ou no início da partida, antes mesmo do spawn de minions ou de qualquer movimentação dentro do jogo.

E o caso piora quando há encontro de diferentes servidores. Tornou-se um completo inferno cair em um time composto por estrangeiros, como argentinos, e receber ofensas gratuitas só por ser brasileira. Perdi a conta de quantas vezes tentei me comunicar por chat com falantes de espanhol e simplesmente recebi um “mono” (macaco, em português) como resposta. É um show completo de xenofobia e racismo.

Além disso, não posso deixar de mencionar a misoginia. Apesar de as mulheres continuarem a ocupar ainda mais espaço dentro da comunidade gamer, ainda vemos muitos comentários hostis e sexistas dentro dos jogos. Talvez, por causa disso, presenciamos ainda mais esse tipo de comportamento. Ver comentários que envolvem assédio e estupro nos chats se tornou algo tão comum, que quase passa despercebido quando falamos sobre o assunto.

, como continua sendo tão comum ver ambientes onde o racismo e a misoginia são tratados com indiferença? Como é possível tantas reclamações, mas nenhuma solução de fato?

E mesmo querendo muito, eu não posso acabar com todos os males enraizados na comunidade gamer. Então, o problema que estou querendo sinalizar nesta matéria se concentra no sistema de denúncia e penalidade da Riot. Denunciei inúmeros crimes de ódio que presenciei em partidas e escrevi textos, tanto longos quanto curtos, com os detalhes de cada absurdo que li, mas a sensação é de impotência. É inevitável sentir revolta, uma vez que a omissão apenas contribui para que esses jogadores mantenham a coragem de continuar cometendo os mesmos atos discriminatórios em jogos que — querendo ou não, mesmo com a “verificação de idade” — reúnem públicos de todas as idades, como é o caso do Wild Rift e League of Legends.

, podemos ver que há um passo a passo de como denunciar alguém. Lá, é possível ler que “denúncias feitas dentro do jogo são a forma mais rápida e fácil de sinalizar comportamentos ruins” e que "basta preencher os campos e deixar o resto” com eles. Mas não é bem assim que acontece. Quando desistimos de perder tempo com denúncias in-game, abrimos um ticket que muitas vezes não resulta em nada, apenas mais estresse. O retorno é apenas para tentar “acolher” o jogador e informar que as análises são confidenciais. Mas como sabemos, a penalidade — quando aplicada — se limita ao bloqueio temporário de chat. Nada mais. Considerando a situação atual da comunicação durante as partidas, isso não é o suficiente.

A Riot Games baniu o streamer Yiok novamente em menos de 30 minutos após ele abrir o League of Legends.

O Rioter Drew Levin comentou no X que burlar a localização não adiantará neste caso e que Yiok está BANIDO PARA SEMPRE do jogo. — Sheep Esports Brasil (@SheepEsportsBR)

Há casos isolados de banimentos, principalmente após a nova política da Riot de banir streamers dependendo do que falam/fazem durante as partidas (como podemos ver acima), mas será que, para obter resultados, precisamos gravar, mobilizar as redes sociais e reunir o maior número possível de pessoas? Se a resposta for sim, quantas centenas de denúncias teríamos que dedicar nosso tempo para que recebam a mínima atenção? E se fosse necessário registrar um boletim de ocorrência toda vez que presenciássemos algo parecido, quantos haveriam por semana? Por dia?

Tenho consciência de que algumas pessoas irão falar que eu deveria simplesmente parar de jogar. Eu poderia largar o Wild Rift de vez (e isso faria muito bem para minha saúde mental, não nego), mas não mudaria o fato de que jogadores preconceituosos, racistas e misóginos continuarão dentro das partidas sem receber as devidas punições. Por que, para continuar jogando, eu tenho que fechar os olhos para o que está acontecendo?

Não adianta atualizações, reformulações ou eventos para atrair novos jogadores se o problema principal, que é ignorado por anos, persiste. É preciso de diretrizes que tenham êxito em criar um ambiente seguro e saudável, que tragam resultados e garantam uma experiência positiva para os jogadores que realmente estão ali para se divertir e competir.

E isso seria somente a ponta do iceberg.

Ano após ano, a situação permanece praticamente a mesma

Antes de publicar esta matéria, decidi reunir diferentes publicações que encontrei na minha timeline sobre o assunto. O engraçado é que não é necessário pesquisar para achar esses comentários, pois eles se tornaram tão comuns que, em qualquer publicação, seja comentando sobre uma partida ou fazendo uma piada, sempre haverá um jogador expressando sua frustração com a falta de punições verdadeiras no jogo.

>abro lol
>aceita partida
>jogo mal
>sou xingado de macaco pre** e favelado
>reporto
>nada acontece
>internet de casa cai por 5 min
>tomo perma ban por placa de vídeo CPF RG carteira de estudante e cnh — de Deus in chains (@deDeuss_)

E não são somente os comentários dentro de partidas, pois até mesmo nicknames mostram como racistas passaram a se sentir confortáveis dentro do jogo.

absurdo o permitir um nick desse. que bizarro!! joguei a partida toda com nojo de estar com um lixo desse no msm time — isa (@biebaldw)

o mais assustador pra mim, é esse tipo de crime, receber uma punicao de APENAS trocar de nick, ou tomar 15 dias... O MÍNIMO, na minha opinião, seria ban de ip em qualquer um que fosse racista no chat CARALHO. É CRIME PORRA — Dco ☭ 🇵🇸 (@flamunivia)

Ja abri mais de um ticket pra racista em 2019, até hoje ele segue jogando, a riot é uma piada com quem comete crime — Atila Paiva (@AzPesadelo)

parabéns riot por mais uma vez acabar com meu dia aceitando seus jogadores incels de merda que fazem piada com estupro e fingindo que ticket resolve alguma merda — gibas🐇🌿 (@gabizszzz)

o sistema de punição do Wild Rift precisa de melhorias urgente. Um argentino fudido foi racista (crime) e xenofobico chamando os brasileiros de "macaquitos de merda". Respondi dizendo que tinha 1 real no bolso pra compra a vadia da mãe dele junto com o país todo e queria troco. — afeminado discreto (@baddyboy2)

E não é somente no LoL ou no Wild Rift em que encontramos casos assim, muitos shooters ou MOBAs por aí, games no geral, reúnem uma comunidade assustadora. Mas quando falamos sobre o assunto, os jogos da Riot sempre serão os primeiros a serem mencionados na roda de conversa. A normalização da misoginia, cultura do estupro, racismo e homofobia nesse meio é algo que precisa ser mais discutido e estudado.