'Minha mãe morreu de novo': a jovem que presenciou o pai matar a mãe e agora vê o tio como suspeito de outro feminicídio na família
- Author, Shin Suzuki e Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published Há 3 horas
- Tempo de leitura: 5 min
Alerta: este texto tem conteúdo sensível.
Quando Micheli Barbosa soube, no fim de junho, que seu tio Valdecir Inácio Barbosa havia sido preso por , ela sentiu que repetia a tragédia de quatro anos antes.
Em 2022, Micheli perdeu a mãe, Teresinha, assassinada. O autor do foi seu pai, Valdir Barbosa, irmão de Valdecir.
"Veio tudo de novo. Eu disse para a minha avó: 'Parece que estão me ligando para dizer que minha mãe morreu de novo'", afirma.
O que mais surpreendeu Micheli, esteticista de 25 anos, foi lembrar das conversas que teve com o tio na época da morte da sua mãe.
"Quando aconteceram as coisas, esse tio meu, Valdeci, disse: 'Meu Deus, o que se passava na cabeça do Valdir, o que que levou ele a fazer isso? Que loucura. Se não dá mais, separa. Se não querem, né, se acertem numa boa'", relata.
Moradora de Alecrim, cidade gaúcha de cerca de 5,5 mil habitantes próxima à fronteira com a Argentina, Micheli cresceu em meio à
Ela conta que o pai era ciumento e controlador e que as agressões contra a mãe faziam parte da rotina da família.
"Eu lembro do meu pai chegando bêbado em casa, agredindo minha mãe com coronhada [de arma de fogo], batendo muito nela. Meu irmãozinho mamando no peito e corria sangue por cima dele, nos paninhos brancos", se recorda.
Ao longo dos anos, Teresinha tentou se separar diversas vezes. Registrou ocorrências policiais, chegou a fugir para outras cidades e, mais tarde, foi morar com a filha.
Mas, segundo Micheli, nenhuma medida foi suficiente para afastar Valdir.
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Em 2021, depois de deixar a prisão onde cumpriu pena por outro crime, Valdir passou a frequentar os lugares onde mãe e filha estavam.
"A gente ficava com muito medo. Minha mãe tinha começado a fazer ginástica, estava voltando a viver. E aí ele começou a seguir a gente."
No início de janeiro de 2022, Valdir apareceu armado na casa de Micheli, apontou um revólver para a cabeça dela e levou Teresinha à força de lá.
Micheli correu até a casa de uma vizinha e ligou para o pai. Ele pediu para que ela não chamasse a polícia, que levaria a ex-mulher de volta dentro de uma hora, e que só queria que ela assinasse uns papéis.
"Só que eu não acreditei nisso. Então, eu liguei de novo e pedi para falar com ela. E a única coisa que ela dizia pra mim: 'Cuida dos teus irmãos pra mim'. Ele pegou o telefone e desligou", lembra a esteticista.
Micheli ligou para a polícia, que iniciou buscas na região. Valdir e Teresinha foram localizados em uma residência na cidade vizinha. Policiais cercaram o imóvel e tentaram negociar a rendição de Valdir.
Segundo Micheli, que acompanhava a operação à distância, os agentes ouviram disparos vindos de dentro da casa.
"Quando os policiais tentaram entrar, ele deu um tiro na porta. Depois veio o outro tiro. Naquela hora eu pensei: acabou."
Quando os policiais conseguiram invadir o local, encontraram Teresinha baleada. Valdir também estava morto. Segundo Micheli, a mãe chegou a ser socorrida, mas não resistiu.a
"Foi a pior noite da minha vida, porque eu não pude fazer nada", afirma.
"Até hoje, a gente não consegue se reerguer direito."
'Eu virei a mulher dele'
Mas a violência relatada por Micheli não se limitava às agressões que presenciava contra a mãe.
Ela afirma que também foi vítima de abusos cometidos pelo pai durante a infância.
Segundo seu relato, os episódios começaram após uma das tentativas de separação de Teresinha.
Na época, a mãe havia fugido com os filhos para a casa de parentes em uma cidade vizinha. Micheli diz que o pai conseguiu reaver a guarda das crianças e levá-las de volta para casa.
"Ali, ele começou a abusar de mim. No primeiro dia que nos trouxe de volta, começou a passar as mãos em mim. Depois, eu virei mulher dele", relata.
Micheli diz que viveu anos sem contar à mãe o que estava acontecendo.
"Eu tinha medo. Ele falava que ia matar nós duas. Dizia que ia nos picar em pedacinhos. Eu não podia abrir a boca de nada."
Ela afirma que só conseguiu revelar os abusos aos 14 anos, depois de um episódio em que o pai tentou atacá-la com uma faca.
Segundo Micheli, as duas procuraram a polícia, registraram a denúncia e realizaram exames. Mas, dias antes da audiência, o pai teria voltado a ameaçá-las.
"Ele disse que eu tinha que negar tudo. Que eu tinha que dizer que inventei a história."
No dia do depoimento, os três ficaram frente a frente. Micheli conta que, com muito medo, acabou negando. "Eu não sabia o que fazer."
Hoje, ela acredita que o medo foi determinante para que a violência continuasse por mais anos dentro de casa.
"Enquanto tu estás naquele ciclo, tu não enxergas claramente as coisas. Tu vives com medo o tempo todo."
Estigma
A tragédia familiar marcou profundamente Micheli. Com a prisão de Valdecir, ela diz que as lembranças sobre a mãe voltaram à tona.
E o que mais a surpreende é que nunca imaginou ver o tio suspeito em um caso semelhante ao do irmão dele.
Segundo Micheli, Valdecir costumava frequentar torneios de bocha na região acompanhado da esposa — uma mulher muito reservada.
"Até pouco tempo atrás, eu ia assistir a jogos com eles. Ela respondia o que perguntavam e nada mais."
Micheli diz que não sabe o que acontecia dentro da casa do casal. Mas afirma que a própria história a ensinou que a violência doméstica muitas vezes permanece invisível para quem está de fora.
"Só quem vive entre quatro paredes sabe o que uma pessoa é capaz de fazer."
A reportagem tentou localizar a defesa de Valdecir Inácio Barbosa por meio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e da Defensoria Pública do Estado. A defensoria disse, por meio de sua assessoria de comunicação, que atua pelo réu, mas irá se manifestar apenas nos autos do processo.
O TJ-RS e a polícia local não responderam aos pedidos de mais informação sobre o caso.
A lavradora Tatiane Cristina Kusniewski deixou duas filhas, uma de 21 anos e outra de 10.
Além da dor causada pelos dois casos, Micheli enfrenta hoje o peso do estigma em uma cidade pequena.
"A gente tenta fazer uma coisa, tenta fazer outra, mas não vai para frente. Aqui a cidade é tão pequena que a gente acaba sendo manchada junto por uma coisa que a gente nem tem culpa do que aconteceu."