Na ONU, Lula critica ação dos EUA na região: 'Brasil não cabe no quintal de ninguém'

22 de Set de 2026 - 14:50
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Na ONU, Lula critica ação dos EUA na região: 'Brasil não cabe no quintal de ninguém'
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    • Author, Leandro Prazeres
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  • Published 22 setembro 2026, 13:20 -03Atualizado Há 13 minutos
  • Tempo de leitura: 7 min

O presidente usou o púlpito da abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, para criticar a interferência dos na .

Esta foi a 11ª vez que Lula discursou na Assembleia. Ele foi o primeiro a falar, em .

"Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas", disse o presidente brasileiro.

"O Brasil não cabe no quintal de ninguém", afirmou sob aplausos. "Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomentem o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos."

Lula e o presidente dos EUA, Donald Trump, não se encontraram nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, segundo fontes próximas ao presidente brasileiro.

Havia a expectativa de que os dois líderes se cruzassem na saída de Lula do plenário da ONU, quando Trump estaria entrando para seu próprio discurso. Foi nesse momento que eles se encontraram rapidamente em 2025.

Naquele momento, o governo brasileiro tentava uma saída diplomática para o primeiro tarifaço aplicado por Donald Trump ao país. Também se discutia a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, sob a acusação de o ministro do STF ter agido politicamente na condenação de Jair Bolsonaro.

O episódio foi um ponto de virada na relação entre os dois chefes de Estado, que passaram a dialogar e até tiveram um encontro presencial, que resultou na retirada de tarifas e sanções ao Brasil.

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Mas a relação entre os presidentes voltou a desandar nos últimos meses.

O momento atual é particularmente delicado: a duas semanas das eleições brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma nova rodada de sanções do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras.

Lula fez referências às cobranças dos EUA para combate ao crime organizado no Brasil e afirmou que seu país não vai "terceirizar a responsabilidade" de defender suas fronteiras e de "garantir à população o direito de viver sem medo".

"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas", disse o presidente brasileiro, "precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado".

Segundo Lula, esse é o ponto central da proposta sobre combate ao crime enviada pelo seu governo ao presidente norte-americano .

Em maio deste ano, o Departamento de Estado dos Estados Unidos .

O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o CV e o PCC "são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil", o que marcou a maior derrota do governo Lula na sua relação com o governo Trump desde a imposição do tarifaço, em 2025.

Foi uma batalha vencida pelo grupo político agora liderado pelo senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O anúncio ocorreu um dia após Flávio se reunir com Rubio, e na mesma semana em que ele pediu que o presidente Trump designasse as facções brasileiras como organizações terroristas, durante encontro na Casa Branca.

Na ONU, o presidente brasileiro ressaltou que o país está preparado para o desafio de enfrentar as organizações criminosas e listou algumas ações que seu governo realizou no combate às facções.

"Batemos recorde de apreensão de drogas, de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A lei antifacção, que acabamos de aprovar, impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo. Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei."

"O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados, mães perdem seus filhos, policiais não voltaram para as suas casas. As pessoas estão cansadas da violência", disse.

Segundo o presidente brasileiro, a eleição vai definir "se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão".

No , Flávio Bolsonaro voltou a aparecer à frente de Lula no 2º turno nesta semana.

Lula ressaltou que o pleito é "transparente e competitivo" e que todos os candidatos "desfrutam da mais ampla liberdade de expressão".

O presidente afirmou, porém, que "interesses estrangeiros contrários ao país" têm abusado dessa liberdade.

"Não subestimamos o desafio da rede de desinformação que pretende desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto, sob olhar atento de cidadania plural e de uma imprensa livre", disse.

Outro ponto do discurso de Lula foi a soberania do Brasil, tema que ele explorou durante o tarifaço dos Estados Unidos contra o país e também tem explorado em sua campanha eleitoral.

"Não permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará deste caminho".

Lula também usou seu discurso para falar sobre resultados da economia brasileira. "Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações", disse.

Lula critica Netanyahu e diz que guerra é a 'falência total da política'

Lula iniciou sua fala afirmando que este é o momento mais crítico das Nações Unidas desde 2003, quando se tornou presidente pela primeira vez.

Segundo o presidente brasileiro, o Conselho de Segurança, seus membros e o mundo estão falhando em proteger a população das guerras.

"A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas. A de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um conselho de segurança que não cumpre seu papel", disse Lula.

Em seu discurso, Lula defendeu o sistema eleitoral brasileiro e o Pix e pediu a regulamentação internacional de big techs.

Também fez contrapontos à política externa dos Estados Unidos. Ele afirmou que o povo venezuelano merece decidir sobre seu destino, em referência a Delcy Rodríguez na presidência da Venezuela após Nicolás Maduro ser preso pelos Estados Unidos em janeiro deste ano.

Trump, por sua vez, usou seu discurso na ONU para falar sobre as ações americanas na Venezuela e o combate a organizações criminosas na América Latina e Caribe.

"Nossas ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA", disse.

Lula também criticou a decisão do governo de Daniel Ortega, na Nicarágua, de não realizar eleições.

O presidente brasileiro também foi aplaudido ao elogiar a resolução histórica adotada pela Assembleia Geral da ONU em março de 2026, que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como "o crime mais grave contra a humanidade".

"Essa assembleia corrigiu recentemente distorções históricas. Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade", disse, sendo aplaudido.

"Aprovou a representação mais precisa do mapa-múndi. Agora, deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Democracia e extremismo. Soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos", disse.

Também no início de seu discurso, o presidente falou também sobre a guerra em Gaza, o "genocídio praticado pelo governo Netanyahu" e "os atos terroristas do Hamas".

"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", criticou o presidente brasileiro.

O presidente brasileiro disse ainda que é um representante de uma nação que defende a paz e a liberdade. Segundo Lula, a guerra é a "falência total da política".

"O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais. Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir", afirmou.

"As concessões à lei do mais forte já passaram dos limites", diz Lula.

O presidente encerrou seu pronunciamento com "que Deus nos abençoe a todos e muito obrigado".