"Não gosto": a verdade por trás de J.R.R. Tolkien odiar As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis

20 de Set de 2026 - 13:00
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"Não gosto": a verdade por trás de J.R.R. Tolkien odiar As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis

Por mais de meio século, uma das lendas urbanas mais famosas do mundo literário afirmava que J.R.R. Tolkien, criador de O Senhor dos Anéis, odiava visceralmente As Crônicas de Nárnia e que a obra teria destruído a amizade entre ele e C.S. Lewis. No entanto, uma investigação detalhada desmentiu essa versão dramática dos fatos.

Segundo a pesquisa da acadêmica Holly Ordway, publicada na revista (via ), a relação de Tolkien com o universo de Nárnia era muito mais detalhada, respeitosa e sutil do que os biógrafos fizeram parecer ao longo dos últimos 52 anos.

O mito do “ronco de desprezo”

A narrativa popular sustentava que, quando C.S. Lewis leu os primeiros capítulos de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa em 1949 para um grupo de amigos, Tolkien teria reagido com um "ronco de desprezo" e rejeitado a obra categoricamente. Biógrafos subsequentes ampliaram esse relato, sugerindo que a reação de Tolkien desencadeou o afastamento entre os dois grandes autores.

Contudo, a pesquisa de Holly Ordway revela que essa expressão exagerada nunca existiu nos relatos originais de testemunhas da época, como o escritor Roger Lancelyn Green. A fala real de Tolkien na ocasião foi uma crítica pontual sobre a mistura de elementos mitológicos no livro:

“Isto realmente não funciona, sabe! Quero dizer: 'Ninfas e Seus Costumes, A Vida Amorosa de um Fauno'. Ele não sabe sobre o que está falando?” — referindo-se aos títulos de livros na prateleira do Sr. Tumnus.

O que Tolkien realmente achava de Nárnia?

Tolkien, de fato, não era fã da estrutura narrativa adotada por Lewis. Para Tolkien, colocar no mesmo universo Papai Noel, ninfas, faunos, castores falantes e a Feiticeira Branca criava uma inconsistência estética. O autor também era abertamente avesso à alegoria deliberada, em especial à religiosa direta presente na jornada de Aslan (que, spoiler, é Jesus Cristo!).

Apesar dessas divergências estilísticas, Tolkien mantinha enorme respeito pelo apelo da obra e pela escrita do amigo. Em uma carta escrita em 1971, ele esclareceu sua posição diretamente:

“Fico feliz que tenha descoberto Nárnia. Estas histórias são merecidamente muito populares; mas, já que me pergunta se gosto delas, receio que a resposta seja não. Não gosto da "alegoria", e menos ainda da alegoria religiosa deste tipo. Mas essa é uma diferença de gosto que ambos reconhecíamos e que não interferia em nossa amizade.”

O real motivo do afastamento entre Tolkien e Lewis

A pesquisa de Ordway demonstra que o distanciamento gradual entre os dois autores não teve relação direta com a obra de Lewis. Em seus próprios escritos, Tolkien citou outros fatores do cotidiano para o afastamento: a mudança do amigo para Cambridge, o casamento de Lewis com Joy Davidman e a crescente influência do escritor Charles Williams sobre o amigo.

No fim, a ideia de que Nárnia destruiu a amizade entre os dois gênios da fantasia foi fruto de extrapolações e "pontos ligados incorretamente" por biógrafos ao longo das décadas.