NASA mantém Starliner e se prepara para dar adeus à Dragon
E a Boeing se safou, por incrível que pareça: a NASA decidiu manter a cápsula CST-100 Starliner como opção de plataforma de transporte, para astronautas e carga rumo à Estação Espacial Internacional (ISS), dois anos após o caótico voo inaugural que esteve a um fio de cabelo de um desastre.
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O motivo é bem simples, falta de opções. A SpaceX é resoluta em sua decisão de aposentar a Dragon até 2030, e a agência espacial norte-americana ficará amarrada à Boeing, o que já levantou preocupações sobre o estabelecimento de um monopólio. Mas, sendo sincero, o que há de se fazer?

Starliner só deu dor de cabeça à NASA, mas a agência em breve terá que se virar apenas com ela (Crédito: NASA TV/YouTube/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
NASA e o "quem não tem cão..."
Na última segunda-feira (28), a Boeing e a NASA apresentaram um plano de desenvolvimento conjunto que envolve pelo menos a comissão de mais dois lançamentos, além dos quatro já agendados; o primeiro, não tripulado e apenas de carga, tem data prevista para entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027, e servirá para avaliar as capacidades da cápsula e se ela é segura o bastante para levar astronautas.
Caso esse primeiro voo passe no teste, três missões tripuladas serão posteriormente agendadas. Nada disso é novidade, a NASA já havia marcado esses voos no início de 2026, e deixado em aberto a possibilidade de contratar mais duas missões, direito que ela está exercendo agora, em caráter inicial e nada garantido.
A parte divertida é que a NASA, mesmo com todos os perrengues pelos quais passou com a Boeing, vai dar MAIS DINHEIRO para a velha parceira, pelo menos um adicional de US$ 359 milhões (~R$ 1,86 bilhão, cotação de 30/09/2026), que se somam aos vários pagamentos e incrementos ao longo dos anos, totalizando um orçamento total de US$ 4,749 bilhões (~R$ 24,57 bilhões), ou US$ 791,5 milhões (~R$ 4,1 bilhões) por missão.
A título de comparação, a SpaceX recebeu ao todo US$ 4,93 bilhões (~R$ 25,5 bilhões) para o desenvolvimento da cápsula Dragon, mas tendo que entregar ao todo 15 missões, o que derruba o valor de cada lançamento para US$ 328,7 milhões (~R$ 1,7 bilhão); a economia só não é maior para a companhia de Elon Musk, porque a NASA é nazista (sorry, not sorry) com segurança e não permite uma configuração maior que quatro astronautas por voo, independente da cápsula, mas a Crew Dragon pode levar até seis de uma vez com relativo conforto.
Não é segredo que o Programa de Tripulações Comerciais da NASA (CCP) só saiu do papel graças ao envolvimento da Boeing. O Congresso não admitia a SpaceX ser a única concorrente porque, basicamente, ninguém lá vai com a cara do bilionário, uma das poucas coisas em que há consenso bipartidário entre democratas e republicanos.
Essa predileção pela Boeing data dos tempos de contratos tradicionais nos moldes do fechado com o SLS, em que o foguete é uma plataforma política, mas parcerias público-privadas como o CCP funcionam de modo diferente: o governo libera a grana e as empresas precisam entregar tudo nos conformes e no prazo mas, fora isso, podem operar como quiserem.

ISS vista da Terra; note a cápsula Boeing CST-100 Starliner acoplada à estação (Crédito: Maxar Technologies/Getty Images)
O tempo passou, a Crew Dragon subiu em 2020 e nada da Starliner, que amargava um chabú atrás do outro e continuava consumindo grana. Nesse meio tempo, a cultura interna da companhia mudou radicalmente e a administração passou a ser tocada por "contadores de feijões", gente do financeiro que prioriza economia sobre a segurança, e o resultado se viu na catástrofe chamada 737 Max. O desenvolvimento da cápsula também não escapou disso.
Ela finalmente subiu em 2024, e todo mundo viu o que aconteceu.
Em 2026, a NASA classificou o incidente como uma "Falha Classe A", a mesma atribuída aos desastres dos ônibus espaciais Challenger e Columbia, ou seja, quase deu MUITO ruim. Todos os méritos possíveis e imagináveis para os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams, que conseguiram acoplar a cápsula à ISS com relativa segurança e impediram uma nova tragédia espacial de acontecer, e isso não é um exagero.
A Boeing teria sofrido um prejuízo total de US$ 2 bilhões com a Starliner e, como a venda da plataforma não passou de um rumor, é preciso arrumar o que está errado e colocá-la para funcionar o quanto antes, pois há outro problema à vista: a Dragon está em uso há seis anos, e a SpaceX a homologou para no máximo dez.
A companhia até poderia fazer dela sua própria Soyuz pé-de-boi, mas os planos para o descomissionamento até no máximo 2030 seguem inalterados. Quando isso acontecer e se a Starliner não estiver "nos trinques" até lá, os americanos terão que ou morrer em muitos milhões de dólares alugando voos junto à Mãe Rússia, que ficaria muito contente em receber seus clientes ianques de volta (cobrando MUITO mais caro que antes, claro) ou, bem... arrumar um novo trampolim.
A NASA decidiu apostar na Starliner por não ter mais a quem recorrer, e isso abre espaço para novos problemas.

SpaceX não pretende prolongar o uso das cápsulas Dragon além de 2030, deixando a NASA com poucas opções (Crédito: Divulgação/NASA/SpaceX)
O relatório da agência sobre o incidente de 2024 levantou 61 recomendações de modificações à Boeing, e algumas já estarão implementadas na missão Starliner-1; a seguinte, Starliner-2, deve ser lançada em 2028 e será a primeira tripulada. Até lá, a Boeing deve garantir que nada mais vai dar errado, e a NASA está em modo Tolerância Zero, por todo o tempo perdido, muito dinheiro dos contribuintes gasto e um desastre evitado por muito pouco.
O que está incomodando alguns é o fato de que, quando a Dragon sair de cena e até o estabelecimento de uma plataforma concorrente, a Boeing exercerá um monopólio de acesso à ISS, com a Starliner sendo a única plataforma disponível, excluindo as Soyuz. A ESA também não possui uma cápsula própria e depende das companhias americanas, o que, finja surpresa, os tira do sério.
Tecnicamente, a SpaceX tem uma plataforma sucessora da Dragon, e acredite se quiser, é a Starship; ela poderia se acoplar à estação de forma similar à dos antigos ônibus espaciais e, após seu primeiro teste orbital bem-sucedido, é esperado que ela esteja pronta em algum momento, de preferência logo.
O problema, como sempre, é o Elon Time.
Fonte: NASA, Ars Technica