PMs viram réus após atirarem 42 vezes e matarem jovem desarmado por engano
Cinco policiais militares viraram réus pela morte de Danilo Lipaus Matos (foto em destaque), de 20 anos, após dispararem 42 tiros contra o carro do jovem durante uma perseguição em Colatina (ES). A vítima foi atingida por cinco disparos e, segundo as investigações, foi confundido com suspeitos de roubar uma caminhonete horas antes.
A Justiça recebeu a denúncia do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) no dia 21 de outubro. Segundo documentos obtidos pela coluna, o 3º sargento Renan Pessimilio, o soldado Eduardo Nardi Ferrari e o cabo Rodrigo de Jesus Oliveira respondem por homicídio.
Já os cabos Roberth Willian Meirelles e Bill Guidoni Ferrari são acusados de tentativa de homicídio contra Danilo e o amigo dele, Ângelo de Cristo Ribeiro dos Santos, que sobreviveu à perseguição.
O crime
Segundo os inquéritos ao qual a coluna teve acesso, o caso teve início na noite de 31 de janeiro de 2025, quando criminosos armados roubaram uma caminhonete GM S10 em Águia Branca (ES). Após a perseguição policial, os suspeitos abandonaram o veículo no bairro São Brás, em Colatina, e fugiram a pé para uma área de mata.
Pouco depois, Danilo dirigia uma Fiat Strada branca com Ângelo no banco do passageiro e outros quatro amigos na carroceria. O grupo voltava de uma distribuidora de bebidas quando foi parado pela polícia, ainda no bairro São Brás.
Os quatro jovens que estavam na carroceria desembarcaram, foram revistados e liberados. Danilo, porém, permaneceu no veículo com Ângelo e fugiu, por receio de perder a carteira de habilitação provisória.
Os documentos destacam que a fuga ocorreu na mesma região e pouco depois de os criminosos abandonarem a S10, o que levou os policiais a suspeitarem, por engano, que os ocupantes da Strada fossem os assaltantes.
Na segunda tentativa de abordagem, uma outra equipe tentou interceptar a Strada, mas Danilo deu marcha à ré e fez uma manobra conhecida como “cavalo de pau” para escapar.
Durante a aproximação, o soldado Rasfaschy informou pelo rádio, em um pedido de prioridade, que o veículo havia furado o bloqueio e que o passageiro parecia estar com uma arma de fogo. O objeto, na verdade, era uma caixa de som que Ângelo carregava no colo.
Após isso, os cabos Roberth Willian Meirelles e Bill Guidoni Ferrari, dispararam cinco vezes contra o veículo em fuga.
Durante a perseguição, Ângelo saltou do carro em movimento e se escondeu. Danilo continuou dirigindo sozinho até ser cercado pelas viaturas, atingido pelos tiros e morto no local, em decorrência de uma laceração cardíaca.
O Inquérito Policial Militar (IPM) atribuiu os disparos a três policiais: o 3º sargento Renan Pessimilio, com 15 tiros; o soldado Eduardo Nardi Ferrari, também com 15; e o cabo Rodrigo de Jesus Oliveira, com 12.
A análise das imagens e os exames periciais indicaram que Danilo estava desarmado e que a maior parte dos disparos ocorreu quando o carro já estava parado. O laudo cadavérico identificou ferimentos na região dorsal direita, nas costas, e na escápula.
A investigação também apontou irregularidades no registro oficial da ocorrência. O Boletim Unificado registrou que o motorista teria “avançado com o veículo em direção aos militares”, versão questionada pelas apurações.
Conclusões
A Corregedoria da Polícia Militar indiciou Renan Pessimilio, Eduardo Nardi Ferrari e Rodrigo de Jesus Oliveira por homicídio militar. Já Guilherme Martins Silva foi indiciado por falsidade ideológica, sob suspeita de inserir informações falsas no boletim de ocorrência.
Já a Polícia Civil indiciou Roberth Willian Meirelles e Bill Guidoni Ferrari por dupla tentativa de homicídio. Para os policiais envolvidos nos disparos fatais, a investigação considerou a hipótese de legítima defesa putativa e apontou homicídio culposo. O Ministério Público, porém, rejeitou essa interpretação e denunciou os cinco policiais por crimes dolosos contra a vida.
A Justiça recebeu a denúncia e determinou que os réus apresentem defesa em 10 dias. Eles também estão proibidos de manter contato com Ângelo e os familiares de Danilo, além de deixar Colatina sem autorização judicial.
O MPES pediu indenização mínima de R$ 50 mil ao sobrevivente e R$ 150 mil aos familiares do jovem morto.
A coluna procurou a Polícia Civil e Militar do Espírito Santo, mas não obteve retorno até a última atualização desta matéria. A defesa dos policiais investigados não foi localizada. O espaço segue aberto.
“Responsabilização”
Em nota à coluna, a advogada Naianne Lara, que representa a defesa da família de Danilo, afirmou que o recebimento da denúncia representa um avanço, mas destacou a preocupação dos parentes com a demora na responsabilização dos policiais.
Segundo ela, o procedimento administrativo que tramita na Corregedoria Militar e pode resultar na demissão deles ainda não foi concluído, e os policiais continuam em exercício. A advogada também ressaltou que dois dos denunciados por tentativa de homicídio com dolo eventual não respondem a esse procedimento.
“A família espera que as instituições atuem com transparência, seriedade e rigor no cumprimento da lei, garantindo a devida apuração dos fatos e a responsabilização de todos os envolvidos, de acordo com as provas e suas respectivas responsabilidades.”