Por que 9 das 10 distribuidoras de energia mais bem avaliadas são cooperativas
Economia Cooperativa
Por Cléber Moletta, especial para a Gazeta do Povo
07/10/2026 às 18:22
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Elas atuam em áreas rurais, com distâncias longas e poucos consumidores por quilômetro de rede. Mesmo assim, as cooperativas de distribuição de energia elétrica lideram o ranking de satisfação dos clientes e estão entre as que cobram as tarifas mais baixas do país. O modelo atende 3,5 milhões de pessoas em seis estados, e é em Santa Catarina que ele aparece com mais força.
O estado concentra 22 cooperativas de distribuição, que atendem cerca de 1 milhão de pessoas em 118 municípios, com 22 mil quilômetros de rede. Além de Santa Catarina, há cooperativas de eletrificação rural no Rio Grande do Sul (13), em São Paulo (12), no Rio de Janeiro (3), no Paraná (2) e em Sergipe (1).
Os resultados aparecem na conta de luz dos catarinenses. Na última revisão tarifária, divulgada no fim de setembro, a autorizou redução média de 39,79% para os consumidores da , que atende parte de cinco municípios do sul catarinense. Na, que atende sete mil unidades consumidoras em Gravatal, o corte foi ainda maior: 47,06%.
A estratégia para conseguir baixar os custos passa por investimento em infraestrutura. Antes da revisão, as duas cooperativas aplicaram juntas mais de R$ 60 milhões em duas subestações (de 34 kV e 138 kV), novas linhas de transmissão e na conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Cada real economizado vira energia mais barata
A tarifa depende do custo do "transporte" da energia (rede, equipamentos, equipe e manutenção) e do preço da energia em si. As cooperativas catarinenses têm atuado nas duas frentes.
"O custo da cooperativa é transporte e energia, e nós atacamos os dois. Construímos subestações, nos conectamos direto no Sistema Interligado Nacional, buscamos energia mais barata no mercado e investimos em tecnologia, e cada real economizado volta para o associado na conta de luz", destaca Edson Flores da Cunha, presidente da Federação das Cooperativas de Energia do Estado de Santa Catarina (FECOERUSC).
Ter subestação própria é o investimento mais alto e estratégico. Com ela, a cooperativa se conecta diretamente ao sistema nacional e compra energia no mercado, sem depender de um único fornecedor. Uma das cooperativas catarinenses fez isso e viu o custo cair de R$ 300 por megawatt-hora (MWh), quando comprava da concessionária Celesc, para cerca de R$ 95.
Em alguns casos, o custo de transporte caiu até 25%. Edson Cunha ressalta que esse dinheiro não fica no caixa da cooperativa. A Aneel considera a economia no cálculo e repassa como redução de tarifa: "quem ganha é o associado, que paga menos na conta."
Política fiscal incentivou cooperativas de energia em Santa Catarina
Um fator determinante para o avanço da infraestrutura que permite reduzir custos ao cooperado foi o apoio fiscal. Desde 2024, uma política do governo catarinense reduziu em 20% o ICMS das cooperativas. Com a condição de que o valor fosse aplicado em linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição. As obras também contaram com crédito subsidiado.
Em São Paulo, a Cemirim, que atende parte de Mogi Mirim e outros 12 municípios do entorno, tem a menor tarifa do estado, cobrando R$ 0,732 por kWh na modalidade convencional. "A relação com o consumidor é pautada pela prestação de um serviço de qualidade, continuidade e eficiência, além da disponibilização de canais de atendimento", destacou a gerente administrativa da Cemirim, Adriana Francatto.
Concessionária ou permissionária?
Há dois tipos de empresa que distribuem energia no país, todas fiscalizadas pela Aneel em função de prestarem um serviço público. Das 105 distribuidoras de energia elétrica, 53 são concessionárias e, 52, permissionárias. Todas as permissionárias hoje são cooperativas de eletrificação rural.
As concessionárias são, em geral, grandes empresas que assumem a distribuição de uma região por meio de contrato de concessão com o poder público, como a Celesc. Já as permissionárias atuam por meio de uma autorização mais simples, costumam ser menores e voltadas a áreas específicas.
As cooperativas de energia nasceram principalmente para levar eletricidade ao meio rural. Mas muitas acompanharam a urbanização das regiões onde atuam e hoje também atendem consumidores em áreas urbanas. Mais recentemente, o cooperativismo também avançou na geração compartilhada de energia, modelo que já reúne cooperativas e permite produzir energia, principalmente solar, para compensação entre os cooperados, inclusive em áreas urbanas.
Aneel cobra mesmos indicadores de todas as permissionárias
Como atuam em regiões com poucos consumidores e grandes distâncias entre as propriedades, as cooperativas permissionárias estão sujeitas a regras específicas de cálculo tarifário. Há, por exemplo, uma subvenção da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para compensar o impacto da baixa densidade de carga dessas áreas e evitar que esse custo recaia de forma desproporcional sobre os consumidores.
Por isso, a Aneel pede cautela nas comparações tarifárias. Em nota, a agência afirmou que elas devem "considerar as especificidades operacionais, econômicas e regulatórias de cada caso concreto", e não apenas o fato de a distribuidora ser permissionária ou cooperativa.
Todas, porém, seguem os mesmos indicadores de continuidade do fornecimento, como duração e frequência das interrupções, e estão sujeitas à fiscalização do desempenho.
Líderes absolutas em satisfação
A relação de proximidade com o consumidor/cooperado se reflete na avaliação. No Índice Aneel de Satisfação do Consumidor (IASC) de 2025, divulgado em março, sete cooperativas ficaram entre as primeiras posições, e nove das dez melhores do ranking são cooperativas.
A tendência vem de longe. Segundo a Aneel, as permissionárias têm apresentado, de forma consistente, satisfação superior à das concessionárias na série de 2016 a 2025. Em 2025, a média das permissionárias foi de 71,19 pontos, contra 64,88 das concessionárias, uma diferença de mais de seis pontos.
A agência lembra que não há um único motivo para isso. Contam o perfil dos mercados atendidos, a proximidade com os usuários, a relação com as comunidades locais, a qualidade do atendimento e o desempenho operacional.
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