Por que ajuste fiscal do novo presidente do Chile leva a crise com desemprego recorde

20 de Out de 2026 - 16:20
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Por que ajuste fiscal do novo presidente do Chile leva a crise com desemprego recorde
    • Author, Cecilia Barría
    • Role, BBC News Mundo
  • Published Há 21 minutos
  • Tempo de leitura: 8 min

Falando para um grupo de empresários cristãos reunidos em um pequeno auditório, o ministro da Fazenda do , Jaime Quiroz, pediu que eles evitassem o pessimismo. Para isso, ele usou citações da Bíblia e também alguns números.

A mensagem era dirigida àqueles que o conhecem há muitos anos. Quiroz desenvolveu toda a sua carreira profissional como empresário no setor privado.

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"Não percam a calma, nem se desesperem", declarou ele em Santiago no início de outubro, após a publicação de uma série de indicadores fracos sobre a chilena.

Os investimentos produtivos, privados e públicos, apresentaram crescimento nulo no segundo trimestre deste ano, principalmente devido à queda da construção civil.

O desemprego atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos. E a demanda interna apresentou crescimento praticamente nulo.

O custo de vida no país aumentou em julho para 4,1%, com base nos últimos 12 meses. A alta foi impulsionada, em grande parte, pelo forte aumento do preço dos combustíveis. O Chile importa quase todo o petróleo que consome.

Já a mineração sofreu redução drástica. O país é o maior exportador de cobre do mundo.

Tudo isso ocorre no contexto de um plano de austeridade fiscal implementado pelo governo do presidente , de direita radical.

Ele , com a promessa de reativar os investimentos e o emprego. Agora, ele enfrenta um nível de desaprovação de mais de 60%, segundo pesquisas locais.

A paralisação econômica ficou em evidência devido à queda do PIB chileno em 0,5%, no primeiro trimestre do ano, e de 0,2% no segundo, em comparação com os mesmos períodos do ano passado.

Esta é a maior retração da economia do Chile desde a pandemia de covid-19.

O impacto dos preços dos combustíveis

Veja a intenção de voto no 2º turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim da Promoção Agregador de pesquisas

Poucos dias depois do início da , Kast assumiu a Presidência no Chile com sua própria , a fim de reduzir os gastos fiscais e levar adiante um plano de austeridade econômica que deveria impulsionar o crescimento da economia do país.

Mas o conflito no Oriente Médio fez o preço do barril de petróleo disparar.

Enquanto a maioria dos países procurava uma forma de controlar a situação, o governo chileno tomou a decisão de não intervir, deixando o custo dos combustíveis subir de acordo com o mercado.

Este episódio ficou conhecido como bencinazo ("gasolinaço", em português), causando manifestações nas ruas e indignação entre muitos cidadãos chilenos.

Com a transferência do choque petrolífero para os consumidores, o preço dos combustíveis não afetou apenas o bolso das famílias mais vulneráveis e das pequenas empresas.

A alta também foi amplificada em efeito cascata e transmitida para o restante da economia, causando aumento da inflação.

O governo que havia acabado de tomar posse tomou esta decisão considerando que "o custo fiscal de compensar a alta dos preços era excessivo e ameaçava debilitar seus esforços para reduzir o déficit fiscal", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o principal economista para as Américas do centro de estudos Economist Intelligence Unit, Nicolás Saldías.

"O custo político para o governo foi muito elevado, pois a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou", explica ele.

Esta decisão "afetou a confiança dos consumidores", segundo Joan Domene, economista-chefe para a América Latina da consultoria Oxford Economics.

O preço médio que os consumidores pagam pela gasolina na bomba, calculado com base na Região Metropolitana de Santiago (a mais povoada do país), aumentou em cerca de 30% desde os dias anteriores ao início da guerra no Irã até meados de outubro. Já o preço do diesel aumentou em mais de 40%.

Os especialistas concordam que, no próximo ano, poderá haver leve desaceleração dos preços globais da energia, embora marginal.

Esta projeção é atualizada constantemente. Mas, se este cenário se mantiver e não surgirem novos contratempos, é possível que surja "uma tendência para a recuperação da economia já no primeiro trimestre do ano que vem", segundo Domene.

A queda da produção mineral

A mineração, especialmente de cobre, é o principal produto de exportação do Chile e um dos setores mais importantes para o crescimento econômico do país.

Por isso, a queda da mineração em agosto foi tão negativa. O índice de redução foi de cerca de 17,4%, em termos anuais.

Esta queda levou a atividade mineradora chilena ao seu nível mais baixo das últimas três décadas.

O mês de agosto marcou o nível mínimo, mas a baixa produção de cobre vinha apresentando tendência negativa ao longo do ano. Acrescente-se a isso as interrupções operacionais nas minas e condições climáticas muito adversas, em julho e agosto.

No momento, as projeções indicam que a produção mineradora deverá aumentar no próximo ano, colaborando para a reativação econômica do país.

Mas uma das preocupações do setor é que a concentração de cobre nas rochas diminuiu, elevando os custos de produção e gerando incertezas.

A drástica queda da mineração em agosto levou o Banco Central chileno a reduzir as projeções de crescimento econômico deste ano, para o nível de 0,25% a 0,75%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também reduziu sua estimativa para 0,6%.

Se as estimativas se concretizarem, o Chile será um dos países com menor crescimento da América Latina em 2026. O único país com prognóstico inferior na região é a Bolívia.

Austeridade fiscal

Parte do debate no Chile se concentra em saber se a paralisação econômica é transitória ou se irá se prolongar ao longo do tempo.

Desde que Kast assumiu o poder, um dos seus principais focos no setor econômico tem sido a austeridade fiscal.

Suas medidas incluíram o corte de 3% do orçamento de todos os ministérios, uma controversa redução ou fechamento de programas considerados "ineficientes" pelo governo e a redução dos investimentos públicos diretos.

Neste sentido, Nicolás Saldías destaca que as políticas fiscais do governo chileno "também estão reduzindo o crescimento econômico".

O governo conseguiu reduzir o déficit, em parte, graças à redução dos gastos públicos, o que diminui a demanda da economia, segundo o economista.

Com a bandeira do ajuste fiscal nas mãos, o governo chileno apresentou a chamada "megarreforma", um pacote de medidas propostas para o Congresso. Elas foram apresentadas como estímulo ao crescimento econômico e aos investimentos.

Basicamente, o pacote inclui uma reforma tributária que, entre outros pontos, reduz progressivamente os impostos para as empresas, de 27% para cerca de 23%, e garante invariabilidade tributária a longo prazo para os grandes investimentos.

O Congresso aprovou a megarreforma, que foi sancionada pelo presidente Kast no início de outubro, após árduos debates. A questão é se a redução de impostos corporativos e os outros incentivos para investimentos produzirão crescimento e empregos em níveis suficientes para compensar a queda da arrecadação fiscal.

Enquanto as medidas começam a ser implementadas e à luz dos indicadores existentes no momento, Joan Domene defende que o próximo ano deve trazer "uma reversão de muitos dos fatores causadores de incertezas".

O economista para a América Latina da Bloomberg Intelligence, Felipe Hernández, é da mesma opinião.

Para ele, se as reformas forem implementadas e cumprirem efetivamente as previsões do governo, como esperam as empresas, "poderemos começar a observar efeitos positivos na economia no próximo ano".

Dificuldades para a população

Atualmente, o Congresso chileno está discutindo a Lei Orçamentária para 2027. Ela contempla um crescimento real dos gastos públicos de apenas 1,5%, um objetivo considerado austero em comparação com os governos anteriores.

A oposição vem questionando duramente este projeto. Ela denuncia que a proposta afeta dezenas de programas sociais que beneficiam pessoas vulneráveis, mas que o governo considera que não atingem os seus objetivos.

Em meio a esta situação, grande parte da população está frustrada com o desempenho econômico do país, segundo as pesquisas.

Com a alta da inflação e o desemprego em máximos históricos, muitos cidadãos enfrentam dificuldades na sua vida diária.

O consumo geral das famílias chilenas cresce lentamente e o Índice de Vendas de Supermercados fechou agosto em queda de 1,2% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.

Algumas semanas atrás, o governo anunciou um plano de emprego de cerca de US$ 1,3 trilhão (cerca de R$ 6,5 trilhões). O objetivo é criar mais de 100 mil postos de trabalho entre 2026 e 2027, acelerando obras públicas e oferecendo subsídios às empresas, para incentivar contratações.

Este tipo de plano não fazia parte da política de austeridade adotada pelo governo chileno, quando assumiu o poder em março. Mas, frente às circunstâncias, se o anúncio for cumprido, poderá dar oxigênio à economia do país.