Por que ajuste fiscal do novo presidente do Chile leva a crise com desemprego recorde
- Author, Cecilia Barría
- Role, BBC News Mundo
- Published Há 21 minutos
- Tempo de leitura: 8 min
Falando para um grupo de empresários cristãos reunidos em um pequeno auditório, o ministro da Fazenda do , Jaime Quiroz, pediu que eles evitassem o pessimismo. Para isso, ele usou citações da Bíblia e também alguns números.
A mensagem era dirigida àqueles que o conhecem há muitos anos. Quiroz desenvolveu toda a sua carreira profissional como empresário no setor privado.
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"Não percam a calma, nem se desesperem", declarou ele em Santiago no início de outubro, após a publicação de uma série de indicadores fracos sobre a chilena.
Os investimentos produtivos, privados e públicos, apresentaram crescimento nulo no segundo trimestre deste ano, principalmente devido à queda da construção civil.
O desemprego atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos. E a demanda interna apresentou crescimento praticamente nulo.
O custo de vida no país aumentou em julho para 4,1%, com base nos últimos 12 meses. A alta foi impulsionada, em grande parte, pelo forte aumento do preço dos combustíveis. O Chile importa quase todo o petróleo que consome.
Já a mineração sofreu redução drástica. O país é o maior exportador de cobre do mundo.
Tudo isso ocorre no contexto de um plano de austeridade fiscal implementado pelo governo do presidente , de direita radical.
Ele , com a promessa de reativar os investimentos e o emprego. Agora, ele enfrenta um nível de desaprovação de mais de 60%, segundo pesquisas locais.
A paralisação econômica ficou em evidência devido à queda do PIB chileno em 0,5%, no primeiro trimestre do ano, e de 0,2% no segundo, em comparação com os mesmos períodos do ano passado.
Esta é a maior retração da economia do Chile desde a pandemia de covid-19.
O impacto dos preços dos combustíveis
Veja a intenção de voto no 2º turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Fim da Promoção Agregador de pesquisas
Poucos dias depois do início da , Kast assumiu a Presidência no Chile com sua própria , a fim de reduzir os gastos fiscais e levar adiante um plano de austeridade econômica que deveria impulsionar o crescimento da economia do país.
Mas o conflito no Oriente Médio fez o preço do barril de petróleo disparar.
Enquanto a maioria dos países procurava uma forma de controlar a situação, o governo chileno tomou a decisão de não intervir, deixando o custo dos combustíveis subir de acordo com o mercado.
Este episódio ficou conhecido como bencinazo ("gasolinaço", em português), causando manifestações nas ruas e indignação entre muitos cidadãos chilenos.
Com a transferência do choque petrolífero para os consumidores, o preço dos combustíveis não afetou apenas o bolso das famílias mais vulneráveis e das pequenas empresas.
A alta também foi amplificada em efeito cascata e transmitida para o restante da economia, causando aumento da inflação.
O governo que havia acabado de tomar posse tomou esta decisão considerando que "o custo fiscal de compensar a alta dos preços era excessivo e ameaçava debilitar seus esforços para reduzir o déficit fiscal", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o principal economista para as Américas do centro de estudos Economist Intelligence Unit, Nicolás Saldías.
"O custo político para o governo foi muito elevado, pois a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou", explica ele.
Esta decisão "afetou a confiança dos consumidores", segundo Joan Domene, economista-chefe para a América Latina da consultoria Oxford Economics.
O preço médio que os consumidores pagam pela gasolina na bomba, calculado com base na Região Metropolitana de Santiago (a mais povoada do país), aumentou em cerca de 30% desde os dias anteriores ao início da guerra no Irã até meados de outubro. Já o preço do diesel aumentou em mais de 40%.
Os especialistas concordam que, no próximo ano, poderá haver leve desaceleração dos preços globais da energia, embora marginal.
Esta projeção é atualizada constantemente. Mas, se este cenário se mantiver e não surgirem novos contratempos, é possível que surja "uma tendência para a recuperação da economia já no primeiro trimestre do ano que vem", segundo Domene.
A queda da produção mineral
A mineração, especialmente de cobre, é o principal produto de exportação do Chile e um dos setores mais importantes para o crescimento econômico do país.
Por isso, a queda da mineração em agosto foi tão negativa. O índice de redução foi de cerca de 17,4%, em termos anuais.
Esta queda levou a atividade mineradora chilena ao seu nível mais baixo das últimas três décadas.
O mês de agosto marcou o nível mínimo, mas a baixa produção de cobre vinha apresentando tendência negativa ao longo do ano. Acrescente-se a isso as interrupções operacionais nas minas e condições climáticas muito adversas, em julho e agosto.
No momento, as projeções indicam que a produção mineradora deverá aumentar no próximo ano, colaborando para a reativação econômica do país.
Mas uma das preocupações do setor é que a concentração de cobre nas rochas diminuiu, elevando os custos de produção e gerando incertezas.
A drástica queda da mineração em agosto levou o Banco Central chileno a reduzir as projeções de crescimento econômico deste ano, para o nível de 0,25% a 0,75%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também reduziu sua estimativa para 0,6%.
Se as estimativas se concretizarem, o Chile será um dos países com menor crescimento da América Latina em 2026. O único país com prognóstico inferior na região é a Bolívia.
Austeridade fiscal
Parte do debate no Chile se concentra em saber se a paralisação econômica é transitória ou se irá se prolongar ao longo do tempo.
Desde que Kast assumiu o poder, um dos seus principais focos no setor econômico tem sido a austeridade fiscal.
Suas medidas incluíram o corte de 3% do orçamento de todos os ministérios, uma controversa redução ou fechamento de programas considerados "ineficientes" pelo governo e a redução dos investimentos públicos diretos.
Neste sentido, Nicolás Saldías destaca que as políticas fiscais do governo chileno "também estão reduzindo o crescimento econômico".
O governo conseguiu reduzir o déficit, em parte, graças à redução dos gastos públicos, o que diminui a demanda da economia, segundo o economista.
Com a bandeira do ajuste fiscal nas mãos, o governo chileno apresentou a chamada "megarreforma", um pacote de medidas propostas para o Congresso. Elas foram apresentadas como estímulo ao crescimento econômico e aos investimentos.
Basicamente, o pacote inclui uma reforma tributária que, entre outros pontos, reduz progressivamente os impostos para as empresas, de 27% para cerca de 23%, e garante invariabilidade tributária a longo prazo para os grandes investimentos.
O Congresso aprovou a megarreforma, que foi sancionada pelo presidente Kast no início de outubro, após árduos debates. A questão é se a redução de impostos corporativos e os outros incentivos para investimentos produzirão crescimento e empregos em níveis suficientes para compensar a queda da arrecadação fiscal.
Enquanto as medidas começam a ser implementadas e à luz dos indicadores existentes no momento, Joan Domene defende que o próximo ano deve trazer "uma reversão de muitos dos fatores causadores de incertezas".
O economista para a América Latina da Bloomberg Intelligence, Felipe Hernández, é da mesma opinião.
Para ele, se as reformas forem implementadas e cumprirem efetivamente as previsões do governo, como esperam as empresas, "poderemos começar a observar efeitos positivos na economia no próximo ano".
Dificuldades para a população
Atualmente, o Congresso chileno está discutindo a Lei Orçamentária para 2027. Ela contempla um crescimento real dos gastos públicos de apenas 1,5%, um objetivo considerado austero em comparação com os governos anteriores.
A oposição vem questionando duramente este projeto. Ela denuncia que a proposta afeta dezenas de programas sociais que beneficiam pessoas vulneráveis, mas que o governo considera que não atingem os seus objetivos.
Em meio a esta situação, grande parte da população está frustrada com o desempenho econômico do país, segundo as pesquisas.
Com a alta da inflação e o desemprego em máximos históricos, muitos cidadãos enfrentam dificuldades na sua vida diária.
O consumo geral das famílias chilenas cresce lentamente e o Índice de Vendas de Supermercados fechou agosto em queda de 1,2% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.
Algumas semanas atrás, o governo anunciou um plano de emprego de cerca de US$ 1,3 trilhão (cerca de R$ 6,5 trilhões). O objetivo é criar mais de 100 mil postos de trabalho entre 2026 e 2027, acelerando obras públicas e oferecendo subsídios às empresas, para incentivar contratações.
Este tipo de plano não fazia parte da política de austeridade adotada pelo governo chileno, quando assumiu o poder em março. Mas, frente às circunstâncias, se o anúncio for cumprido, poderá dar oxigênio à economia do país.