Por que marcas patrocinam clubes da América Latina, mas não do Brasil?
O futebol brasileiro atrai milhões de torcedores e movimenta cifras bilionárias, mas ainda tem dificuldade para atrair marcas globais às camisas dos clubes. Um estudo do Ibope Repucom, intitulado Por que, “ainda”, não aqui?, analisa os patrocínios dos principais times da América Latina em 2026 e mostra diferenças entre o Brasil e seus vizinhos.
Enquanto empresas de setores como telecomunicações, aviação e automotivo patrocinam equipes de outros países da região, esses segmentos têm presença limitada nos uniformes da Série A brasileira.
Um dos principais entraves é o preço. Os valores cobrados pelos clubes brasileiros podem superar o orçamento de marketing de equipes tradicionais de países como Argentina, Colômbia e Chile. A concentração de patrocínios em casas de apostas também contribuiu para elevar os custos e ocupar espaços comerciais importantes.
Para Bruno Brum, CMO da Agência End to End, a dimensão da torcida brasileira precisa ser acompanhada de maior profissionalização, governança e indicadores de retorno para atrair multinacionais.
Renê Salviano, CEO da Heatmap, aponta outro fator: a exposição internacional. Segundo ele, os campeonatos brasileiros demoraram a alcançar outros países, ao contrário da Premier League, que desenvolveu uma estratégia internacional há décadas. Salviano também destaca o avanço dos patrocínios no futebol feminino brasileiro, que conta com sete patrocinadores oficiais, seis deles multinacionais.
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Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM, avalia que muitas marcas já investem no futebol nacional, mas preferem transmissões, competições e naming rights de estádios. A percepção de que negociar diretamente com clubes pode ser difícil, segundo ele, também cria barreiras.
O estudo aponta ainda que empresas brasileiras de setores como consórcios, saúde e varejo regional ocupam espaços nos uniformes por terem estratégias voltadas ao mercado doméstico. Para Moises Assayag, especialista em finanças no futebol, os clubes precisam apresentar projetos comerciais com objetivos claros, ativações e dados que comprovem o retorno do investimento.
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, reforça a necessidade de equipes comerciais mais estruturadas e profissionais especializados em marketing esportivo. Já Rafael Soares, especialista em gestão e marketing esportivo, vê a redução da dependência das casas de apostas como uma oportunidade para diversificar as fontes de receita.
Apesar dos obstáculos, o levantamento identifica sinais de mudança, principalmente com a chegada de montadoras de veículos elétricos e híbridos. Setores tradicionais em outros países latino-americanos, como aviação, telecomunicações e bebidas não alcoólicas, ainda têm espaço para crescer no futebol brasileiro.
Toninho Cecílio, diretor executivo de futebol e sócio-fundador da AdSports, destaca que o tamanho da torcida não deve ser o único critério para definir o valor de um patrocínio. Fernando Ferreira, executivo da FutPro Expo, também defende propostas que vão além da exposição na camisa, com conteúdo, experiências e métricas de desempenho.
Marcas que patrocinam clubes na América Latina, mas não aparecem na Série A brasileira
O levantamento do Ibope Repucom destaca empresas de diferentes setores que patrocinam clubes da região, mas não estão atualmente nos uniformes da Série A do Brasil:
Automotivo: Suzuki, Chery, JAC, MG, Howo e Mazda aparecem no México. Também há marcas como Hyundai, Kia, Jetour, GWM, DFSK e Fiat em outros mercados latino-americanos.
Financeiro: BBVA, presente no México e no Uruguai, além de Banco Pichincha, no Equador, Bank of Palestine, no Chile, e a seguradora de viagens TW.
Construção e acabamentos: Sodimac, no Chile, e Holcim, na Argentina, são exemplos de empresas com atuação no setor e presença no patrocínio esportivo regional.
Alimentação: KFC, no Equador, e Bimbo, no México, estão entre as marcas citadas.
Bebidas não alcoólicas: Gatorade, Powerade, Coca-Cola, Pepsi e Postobón patrocinam clubes em diferentes países da região.
Telecomunicações: Telcel, Claro, Movistar, Antel, Tigo e DirecTV mantêm presença no patrocínio esportivo latino-americano.
Bebidas alcoólicas: Corona e Tecate, no México; Águila, na Colômbia; Pilsener, no Equador; Paceña, na Bolívia; e Pilsen, no Paraguai, representam o setor.
Fitness: Smart Fit patrocina equipes no México, na Colômbia e no Chile. No Brasil, o estudo aponta presença restrita da categoria nos uniformes da Série A.
Aviação: Aerolíneas Estelar e Rutaca, na Venezuela; Viva, no México; Sky e JetSMART, no Peru; e Ecojet, na Bolívia, ilustram um segmento pouco explorado no futebol brasileiro.
Os dados reforçam que o desafio dos clubes brasileiros não é apenas atrair grandes empresas, mas oferecer parcerias comerciais capazes de justificar o investimento e gerar resultados para as marcas.
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