Adolescente lança livro de poemas e revela influência de Clarice Lispector: 'Nunca tinha experimentado nada parecido'

Adolescente lança livro de poemas e revela influência de Clarice Lispector Aos 14 anos, Leonardo Ciorlia encontrou na poesia uma forma de dizer justamente aquilo que, muitas vezes, parece impossível explicar. Aluno do 9º ano, o adolescente de Campinas (SP) começou a escrever poemas há cerca de dois anos e agora se prepara para lançar o primeiro livro, O Avesso de Nós, com 39 textos. A relação com a escrita, no entanto, começou muito antes. Filho e neto de leitores, Leonardo cresceu cercado por livros e conta que sempre teve acesso à leitura. Primeiro vieram às histórias que inventava, depois as músicas e, mais tarde, a poesia. Foi também pela leitura que ele encontrou uma das principais referências para sua escrita: a autora Clarice Lispector. O primeiro contato aconteceu por acaso, durante uma ida a uma livraria. “Eu comprei inicialmente não para eu ler, mas para a minha mãe. Só que aí eu não achei legal, eu me apaixonei! Falei: 'ossa, o que que é isso?'Porque eu nunca tinha experimentado nada parecido” , contou. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Depois disso, Leonardo passou a ler outras obras da autora e chegou a seis livros. A influência também entrou no próprio processo de criação: cinco poemas de "O Avesso de Nós" têm epígrafes de Clarice. 🤔O que é uma epígrafe? É uma frase ou pequeno trecho de autoria de outra pessoa, utilizado para inspirar ou introduzir uma ideia ou criar uma ligação de sentido com o texto. Segundo ele, mais do que servir como referência, a escritora mostrou que havia outras maneiras de transformar uma ideia ou sentimento em texto. Em alguns casos, uma frase lida em um livro de Clarice acabou levando a outra frase na cabeça de Leonardo e, depois, a um novo poema. “Foi uma porta mesmo que abriu”, resume. Cinco poemas de O Avesso de Nós têm epígrafes de Clarice Bianca Garutti / g1 Inspiração mora nos detalhes Mas a inspiração não vem apenas dos livros. Para Leonardo, uma flor no quintal de casa, a chuva, uma música ou até uma frase que aparece na cabeça durante a madrugada podem virar matéria-prima para um poema. Segundo o jovem poeta, o processo costuma começar de maneira inesperada. Um exemplo está no poema "Paredes". A ideia surgiu depois de uma conversa com o psicólogo, que contou ao adolescente a história de um paciente que sentia uma solidão difícil de explicar. Para descrever a sensação, o homem dizia imaginar que as paredes se aproximavam dele. A imagem ficou na cabeça de Leonardo e acabou virando poema. “Eu peguei essa metáfora das paredes fechando e escrevi o poema”, contou. A dificuldade de encontrar uma palavra exata para determinados sentimentos aparece em outros textos do livro. Para o adolescente, uma das possibilidades da poesia é justamente transformar algo abstrato em uma imagem que possa ser percebida pelo leitor. Hibiscos que serviram de inspiração para um dos poemas de Leonardo Bianca Garutti / g1 🌺Fora do abstrato, imagens concretas também viram inspiração. Apaixonado por flores, Leonardo conta que um hibisco no quintal do vizinho serviu de gancho para um dos textos que fecha o livro. “Tem uma flor ali no quintal que é um hibisco. Eu me apaixonei pelo hibisco, tanto que o poema que acaba o livro é sobre esse hibisco, e aí tem reflexões em torno dele”, contou. 📖 Um livro que começou sem a intenção de ser livro Antes de pensar em publicar um livro próprio, Leonardo já havia escrito dezenas de poemas. Um dos primeiro, "O Peso do Não Dito", foi o que abriu o seu olhar para a ideia de publicação. Segundo ele, a inspiração para o texto surgiu depois de um banho, enquanto ouvia música e pensava sobre aquilo que queria dizer, mas não conseguia colocar para fora. Na época, ele ainda não tinha certeza de que aquilo era, de fato, poesia. “Foi o primeiro que eu olhei e falei: nossa, são poemas, é isso que é um tal do poema que as pessoas falam.” A percepção foi mudando conforme ele continuou escrevendo. O adolescente passou a guardar os textos e, em determinado momento, percebeu que poderia fazer algo com eles. Leonardo na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, durante a sessão de autógrafo de seu primeiro poema publicado Arquivo pessoal A primeira experiência de publicação veio quando o jovem encontrou um edital e decidiu enviar "O Peso do Não Dito". A obra foi uma das selecionadas para participar de uma coletânea e deu a Leonardo a oportunidade de autografar o texto durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. A experiência foi importante para que ele percebesse que aqueles textos poderiam sair do papel e chegar a leitores. Depois disso, começou a reunir o que já havia escrito e percebeu que tinha material suficiente para uma publicação própria. “Eu comecei a reunir as coisas que eu tinha, reuni, e vi que dava um livro meu. Eu falei assim: é, agora é a hora mesmo de publicar.” A partir daí, Leonardo procurou editoras pelas redes sociais até encontrar uma que aceitasse publicar o projeto. O livro levou cerca de oito meses para ser construído e foi finalizado no fim de setembro de 2025. Agora a obra já disponível para a compra, no site da editora. Escrever também para entender o que sente Para o adolescente, a poesia também acabou se tornando uma maneira de organizar os próprios pensamentos e sentimentos. Segundo Leonardo, a escrita não segue uma rotina rígida. Ele explica que não precisa sentar todos os dias para produzir um poema. As ideias aparecem em momentos diferentes e, posteriormente, ele reúne os textos para entender o que pode surgir dali. Na rotina do 9º ano, a escrita também não é vista como uma obrigação. Pelo contrário: ele conta que os poemas ajudam quando está estressado ou com algum sentimento difícil de organizar. “Às vezes eu estou estressado, sentindo alguma coisa e não vou conseguir render. Aí eu acabo escrevendo um poema que alivia a minha tensão. Aí consigo fazer as coisas no meu dia a dia. Então, só me ajuda em tudo”, contou. O efeito aparece também em quem lê. Amigos e familiares acompanharam o processo e, segundo o jovem, alguns chegaram a se emocionar com os textos. Para Leonardo, o choro de um leitor pode ser uma forma de perceber que a emoção que ele tentou transmitir chegou ao outro lado. "É estranho, mas o choro é um apoio porque você vê que está conseguindo passar a mensagem que você quis passar. Quando você chorou escrevendo um poema, a outra pessoa também consegue chorar e sentir a mesma emoção", explicou o poeta. 'O Avesso de Nós' O próprio título do livro resume parte da intenção de Leonardo. Segundo ele "O Avesso de Nós" faz referência ao que existe no interior de cada pessoa e nem sempre é fácil de enxergar. O desejo do autor é que o leitor consiga se observar de uma maneira diferente ao passar pelas páginas. Mais do que contar uma história, ele quer provocar reconhecimento: fazer com que cada pessoa encontre sentimentos, pensamentos ou partes de si mesma nos poemas. "Eu queria que as pessoas, ao ler, conseguissem enxergar coisas em si mesmas, se alegrar com coisas em si mesmas, que a gente tem dificuldade de enxergar. Esse livro para mim foi um processo de me ajudar a enxergar coisas que eu não enxergava, me ajudar a sentir coisas que eu não sabia muito bem o que eram", disse. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região