Quem são os vencedores e os derrotados das eleições

5 de Out de 2026 - 01:20
 0  0
Quem são os vencedores e os derrotados das eleições
    • Author,
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Published Há 5 minutos
  • Tempo de leitura: 8 min

O presidente iniciará nesta segunda-feira (5/10) a disputa pela Presidência

Confirmando as projeções feitas por diversos especialistas ao longo dessas eleições, o pleito deste domingo foi o mais apertado desde a redemocratização. Somente 2,2 milhões de votos separam , que ficou em primeiro lugar, de Lula.

Por outro lado, o resultado contrariou , que apontaram Lula à frente no primeiro turno com pequena vantagem.

Para o cientista político Murillo Aragão, da Arko Advice, a "onda azul" a favor de Flávio era esperada. "Há uma tendência histórica de os candidatos de esquerda aparecerem melhor nas pesquisas", afirma.

"Com o resultado dos demais candidatos, cerca de dois terços devem migrar para Flávio. Ele se torna o favorito, salvo se vier uma bomba atômica. Mas mesmo uma bomba teria um efeito limitado."

O resultado só será conhecido no dia 25 de outubro, quando ocorrerá o segundo turno. Mas a BBC News Brasil conversou com especialistas para entender quem são os grandes vencedores e perdedores deste domingo. E como eles se posicionarão no xadrez eleitoral das próximas semanas.

  • Há 58 minutos
  • Há 2 horas
  • Há 9 minutos

VENCEDORES

Jair Bolsonaro

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), embora preso e inelegível, é um dos grandes vencedores deste primeiro turno.

Desde o início, Bolsonaro defendeu a candidatura do filho mais velho, em meio a que envolvia os outros filhos, a mulher, Michelle Bolsonaro, e o governador de São Paulo reeleito neste domingo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Fim da Promoção da eleição 2026

"O Jair sai como um dos vitoriosos, porque se confirmando a vitória do filho, que ele bancou a candidatura, que muitos acharam que não ia decolar, abre-se a oportunidade da anistia", afirma Aragão.

Para além de Flávio, Carlos Bolsonaro (PL) foi eleito senador por Santa Catarina, e Michelle (PL), pelo Distrito Federal. Jair Renan, o filho mais novo do ex-presidente, elegeu-se deputado federal por Santa Catarina.

Desde o ano passado as pesquisas já mostravam que Jair Bolsonaro para disputar com Lula a Presidência. Preso e inelegível, seu herdeiro direto teria grande potencial.

Ao longo dos meses, até que o nome de Flávio fosse oficialmente lançado pelo PL, disputas e brigas públicas entre a família confirmaram a tensão em torno de quem herdaria esse legado.

Em julho, cumprindo prisão domiciliar, dizendo que Flávio era seu porta-voz e pedindo que as diferenças fossem deixadas de lado.

"Saudoso do contato com o povo, ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para o futuro de todos nós. O momento é de arregaçar as mangas e deixar de lado possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro", escreve o ex-presidente.

"Meu porta-voz no qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e prosperidade", completou Bolsonaro, no documento, que foi lido por Flávio nas redes sociais.

A carta se tornou pública no dia seguinte à deflagração de uma investigação da Polícia Federal (PF) que tinha como alvo o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

Os investigadores apuraram supostas irregularidades na indicação de emendas parlamentares.

Segundo a Polícia Federal (PF), ele teria influenciado a destinação de recursos públicos mesmo sem exercer mandato no Congresso Nacional. Na época, especialistas disseram que a carta do ex-presidente era também uma tentativa de desviar o foco das notícias.

PL e Valdemar Costa Neto

O Partido Liberal (PL), sigla de todo o clã Bolsonaro, é apontado pelos especialistas como outro grande vencedor deste domingo.

Não só pela ida de Flávio para o segundo turno, mas também "pelo tamanho da bancada que elegeu no Senado, e, ao que parece, na Câmara dos Deputados também", afirma Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A sigla elegeu 19 senadores, totalizando, com os parlamentares que permanecem na Casa, 28 representantes. E também deve seguir com a maior bancada na Câmara dos Deputados, o que pode levá-la à Presidência da Casa.

Até o fechamento desta reportagem, os resultados da Câmara ainda não estavam totalmente consolidados.

Essa bancada pode viabilizar a aprovação da anistia ao ex-presidente, uma bandeira levantada por muitos dos candidatos deste pleito.

"A direita, como campo político, é uma grande vitoriosa", diz Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria. "Está com o líder preso, tentou interrupção democrática e ainda assim retomou o prestígio e conseguiu voltar com mais força."

"O grande vencedor é o PL, que tem uma bancada grande. A direita vai ficar mais forte no Senado, com a esquerda mais fraca", afirma Aragão.

Para ele, além da direita estar ainda mais forte no Congresso, a coordenação política de Lula joga contra o petista. "[Lula]Teve que apelar ao Supremo e teve até que pedir auxílio para [o ministro Alexandre de] Moraes, para reestabelecer relações com [Davi] Alcolumbre. Se ele for reeleito, o histórico do último mandato é muito ruim e aponta para um Senado mais hostil", diz.

O PL também amealhou a maior quantidade de votos para um único candidato. Na verdade, dois: Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) e sagraram-se como os primeiros deputados a bater a marca em toda a história da Câmara.

"Nikolas teve impacto pela habilidade dele em operar as redes sociais. Ele é um opinion maker, um influenciador. O que fez ele ter essa votação extraordinária é que ele é quem mais bem trabalha as redes sociais", explica Aragão. "É uma vitória pessoal, mas não é uma vitória politica, no sentido de que não será muito diferente dos outros [na Câmara]. O grande vencedor é o PL, que tem uma bancada grande."

Jacqueline Teixeira, professora do Departamento de Sociologia da UnB, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), lembra que o PL emplacou candidaturas expressivas entre as mulheres também. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas pelo Distrito Federal, e Carolina de Toni por Santa Catarina são três exemplos.

"O PL realmente pode ser compreendido como, dos partidos, o mais vencedor. O partido tem disputado o Nordeste, tendo uma votação expressiva em vários nomes na região", diz ela.

"E mesmo que no segundo turno Flávio não vença, o PL mantém a sua vitória e a sua conquista porque consegue, de alguma maneira, desenhar um cenário nacional tanto de Legislativo quanto de Executivos estaduais, com uma pressão signficativa, independentemente do governo federal, e nessa pressão consegue pautar projetos e ideias."

Já Rafael Cortez opina que Valdemar Costa Neto, presidente da sigla, é um dos vitoriosos também, já que "apostou no bolsonarismo como sobrevivência política e acertou."

Governadores do PT no Nordeste

Historicamente o grande bastião do PT, o Nordeste vem dando menos força ao partido nos últimos anos nas eleições estaduais.

A região foi a única na qual Lula ficou em primeiro lugar neste primeiro turno, mas a votação não foi suficiente para segurar o presidente na liderança no âmbito nacional.

Sobraram, no entanto, as "joias da coroa": no Piauí, Rafael Fonteles foi o governador reeleito com o maior percentua de votos do país. E no Ceará e na Bahia, o PT reelegeu Elmano Freitas e Jerônimo Rodrigues, respectivamente.

Nos demais Estados da região, a sigla sequer chegou ao segundo turno.

PERDEDORES

Campanha de Lula e o PT

Desde que se tornou presidente pela primeira vez, em 2002, esta é a primeira vez que Lula fica em segundo lugar no primeiro turno, certamente um alerta vermelho para a campanha do petista.

Mesmo lançando mão de um pacote de medidas às vésperas do pleito, como o reajuste do Bolsa Família e a promessa da distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, o presidente patinou nas pesquisas.

Nem mesmo a foi capaz de mudar o jogo que, inclusive, terminou pior para Lula do que a maioria das pesquisas apontava.

A aprovação de seu governo ficou inerte, subindo pouco do começo do ano para cá, assim como o percentual de intenções de voto.

"A esquerda é uma derrotada porque a campanha foi ruim, foi feita para quem vota no PT, com o Lula arrogante, autoritário, debochado, irônico demais. Ele nunca fez um aceno consistente, sempre deu a presença de Geraldo Alckmin como a concessão dele para o centro, nunca fez nada mais concreto para o eleitor do centro", diz Aragão.

Para Marco Teixeira, o jogo também é desfavorável para o futuro do partido, já que essa é, em tese, a última eleição da qual Lula participa na disputa para a Presidência.

"O que será do PT sem Lula e o que será do bolsonarismo sem o antipetismo? Será que o bolsonarismo sobrevive sem o antipetismo?", questiona Teixeira.

Gilberto Kassab, Eduardo Paes e o PSD

Há dois anos, no primeiro turno das eleições municipais, A sigla desbancou o MDB e levou o maior número de prefeituras.

Agora, a história mudou. A sigla e seu presidente-fundador estão entre os maiores perdedores da eleição deste domingo.

"Gilberto Kassab quis ser vice do Tarcísio [de Freitas] e não conseguiu, perdeu o vice do Tarcísio para o MDB, virou vice do [Ronaldo] Caiado [que ficou em 5º lugar] e viu o PSD sofrer várias derrotas, inclusive a maior delas [foi a] do Ratinho Jr. no Paraná", resume Marco Teixeira, da FGV.

"Ele montou toda uma estratégia para ser uma grande liderança política e acabou se enfraquecendo num PSD completamente fragmentado. Resta agora o segundo turno no Rio de Janeiro com Eduardo Paes, que de franco favorito passou a ser azarão."

Para Rafael Cortez, a derrota de Kassab personifica a derrota do centrão, que perdeu lugar para a direita radical. No Congresso, a sigla elegeu somente dois senadores, com Lucas Barreto, pelo Amapá, e Júlio César, pelo Piauí.

Alexandre de Moraes e o STF

Esta campanha ao Senado foi pautada pela discussão sobre o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

"Considerando a crise do STF, isso mobilizou e garantiu que mais candidaturas à direita se concretizassem no Senado", afirma Jacqueline Teixeira.

Na escalada de tensão da direita radical com a Corte, cujo auge foi o pedido de prisão de Jair Bolsonaro determinado por Alexandre de Moraes, a expulsão de ministros foi a bandeira de muitos dos candidatos.

Nesse contexto, o fato de o PL aumentar sua bancada para 28 senadores já pode ser interpretado como uma derrota ao ministro e para o Supremo de maneira geral, segundo Rafael Cortez.

"A bancada do PL foi toda eleita com uma pauta anti-Supremo", diz ele.

Aragão, no entanto, pondera que a eleição de uma bancada maior do PL não significa que um impeachment será fácil.

"O impeachment dos ministros não será fácil no Senado. Primeiro porque o STF tem bala na agulha. Tem muitos políticos investigados", afirma.

"O Senado é refém do STF e o STF é refém do Senado. O Supremo pode dizer que essas regras não valem mais. Vai ser complicado e a crise constitucional que vem sendo constante deverá ser ainda pior."