Há espaço para sentir gratidão quando se está com câncer?

5 de Out de 2026 - 01:40
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Há espaço para sentir gratidão quando se está com câncer?

Há alguns anos, fui convidada por uma ONG que apoia mulheres com câncer de mama para conduzir uma roda de conversa sobre gratidão.

Embora esse seja um tema que estou acostumada a abordar, por fazer parte da minha vida e dos meus estudos há mais de 15 anos, confesso que, ao chegar ao local, fui tomada por um sentimento de desconforto e constrangimento.

Falar de gratidão para mulheres com câncer? Que ousadia! Parece até falta de sensibilidade, pensei.

Cuidadosamente, abri a conversa falando sobre o terreno fértil que pode ser criado quando nos conectamos aos pequenos e simples presentes da vida, mesmo diante de desafios que parecem intransponíveis.

Estudos no campo da psicologia positiva e da neurociência vêm demonstrando os efeitos da gratidão sobre a saúde emocional, os relacionamentos e o bem-estar. A questão é: como acessar essa emoção positiva em tempos difíceis?

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Uma avalanche de exemplos de gratidão

Para minha total surpresa, quando abri espaço para ouvir as mulheres e suas histórias, recebi uma avalanche de exemplos de gratidão.

Uma senhora contou o quanto se sentia grata pelo apoio que estava recebendo de suas filhas e o quanto a doença a havia aproximado da família. Outra relatou que, com o câncer, passou a se ouvir mais e, assim, a estar mais conectada com seus desejos reais e essenciais.

Em cada partilha, a emoção da gratidão se expandia, até ocupar toda a sala, transbordando sabedoria e resiliência.

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Certamente, nenhuma dessas mulheres escolheria ter essa doença. No entanto, elas aprenderam a navegar pelo mar revolto com o leme firme e o coração desperto.

Tempestades fazem parte, os desafios não são poucos, mas o que percebi é que elas aprenderam a se apoiar e a olhar para o que estavam vivendo com coragem e abertura, sem negar o medo, a tristeza ou as dificuldades.

+Leia também: O câncer me ensinou que eu não preciso dar conta de tudo

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O que a ciência das emoções positivas ensina

Essa forma de se posicionar diante da vida pode ser compreendida à luz dos estudos da psicóloga e pesquisadora norte-americana Barbara Fredrickson, referência mundial no estudo científico das emoções positivas e criadora da teoria “ampliar e construir”.

Barbara mostra que emoções positivas como gratidão, amor e esperança, entre outras, não eliminam a dor nem apagam as dificuldades, mas podem ampliar, ainda que por alguns instantes, nossa capacidade de perceber possibilidades, mobilizar recursos internos e buscar apoio.

Quando vivenciadas ao longo do tempo, essas emoções ajudam a construir recursos psicológicos, sociais e físicos que fortalecem a resiliência.

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Diante do câncer de mama, isso não significa, de forma alguma, manter-se positiva o tempo todo, mas reconhecer que pequenos momentos de afeto e conexão podem oferecer sustentação emocional para atravessar o medo, as incertezas e os desafios do tratamento.

Resiliência não nasce da negação da dor

A vida é uma caixa de surpresas e não podemos controlar todos os acontecimentos. O Outubro Rosa é um período para intensificar a conscientização sobre a prevenção e a detecção precoce do câncer de mama, mas também pode abrir espaço para conversarmos sobre resiliência.

Ela não nasce da negação da dor nem da obrigação de permanecer positiva. Constrói-se quando encontramos recursos para atravessar o que dói, nutrimos conexões que importam, recebemos apoio e permitimos que pequenos momentos de amor, esperança e gratidão também tenham lugar.

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Aquela roda de mulheres validou, com histórias reais, o que a ciência das emoções ensina: a gratidão não impede a tempestade nem acalma todas as ondas, mas pode nos ajudar a reconhecer, em meio ao mar revolto, aquilo que sustenta a vida.

*Deborah Dubner é psicóloga e escritora, especialista em Neurociência e Psicologia Positiva.

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