Republicanos se voltam contra Pete Hegseth após derrota nas Midterms
O presidente dos EUA, Donald Trump, pode ter tomado a decisão de iniciar a guerra contra o Irã, que impactou negativamente o apoio dos eleitores do Partido Republicano e resultou na derrota nas eleições de Meio de Mandato.
Mas essas perdas históricas estão acelerando a busca por um culpado: o secretário de Defesa, Pete Hegseth. E a Câmara dos Representantes pode votar, já na próxima semana, o impeachment do chefe do Pentágono.
Muitos legisladores e aliados republicanos, alarmados com o resultado eleitoral de terça-feira (3), estão agindo rapidamente para atribuir a culpa pelos resultados a Hegseth. Nos bastidores, argumentam que ele desempenhou um papel fundamental ao convencer Trump a atacar o Irã sem uma estratégia de saída — e sem qualquer plano para lidar com as inevitáveis consequências políticas.
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Essa ofensiva ocorre apesar de estrategistas republicanos da Câmara e do Senado reconhecerem, em conversas privadas, que os problemas do partido vão muito além da guerra — tendo provocado perdas de uma magnitude não vista desde 2008, que levarão anos para serem revertidas. Por enquanto, no entanto, os líderes partidários — e grande parte de seus correligionários — não estão dispostos a culpar Trump diretamente por seus infortúnios.
Mesmo entre os republicanos da Câmara que sobreviveram ao resultado de terça-feira, não há qualquer expectativa de que rompam com o presidente, restando ainda dois anos de seu mandato. Contudo, essa lealdade não se estende a Hegseth, que fez poucos amigos no Capitólio desde que assumiu o comando do Pentágono.
Espera-se que os republicanos da Câmara votem, em poucos dias, uma moção de repúdio direta ao secretário de Defesa.
O deputado Thomas Massie, do Kentucky — conhecido por sua oposição a Trump —, disse à CNN que pretende solicitar uma votação para o impeachment de Hegseth assim que o Congresso retomar os trabalhos na próxima semana; várias fontes republicanas afirmam acreditar que a medida será aprovada.
Hegseth, um entusiasta declarado da guerra, superestimou a capacidade dos EUA de vencer o conflito de forma rápida e fácil, argumentaram vários republicanos à CNN — explicando, sob condição de anonimato, por que muitos em seu partido estão agora se voltando contra o secretário de Defesa.
Eles o acusam de continuar defendendo uma escalada do conflito, apesar de não haver sinais de que os bombardeios contínuos tenham aproximado o Irã de uma rendição.
O conflito se transformou, desde então, em um atoleiro, disseram eles, mantendo os EUA envolvidos no Oriente Médio por tempo indeterminado, agravando a crise de custo de vida e desencadeando uma revolta dos eleitores — nas eleições de Meio de Mandato — contra o Partido Republicano.
Nesta quarta-feira (4), o vice-presidente americano JD Vance divulgou uma declaração extraordinária afirmando que “o motivo de termos perdido é a guerra”, embora não tenha atribuído culpa específica pelo conflito.
“Uma mudança de rumo está começando” em relação à guerra e a Hegseth, disse um ex-alto funcionário do Pentágono.
“Este tem sido, primordialmente, um esforço conduzido pelo Departamento de Defesa, já que optaram por uma ação militar para resolver uma questão de política externa”, acrescentou.
Ainda assim, apesar dos esforços ao seu redor para aumentar a pressão sobre Hegseth, a confiança de Trump em seu secretário de Defesa permanece inabalada — mesmo com o presidente continuando a consultar aliados sobre o desempenho dele, relataram à CNN vários funcionários da Casa Branca.
Trump tem uma simpatia pessoal por Hegseth e disse a seus assessores que acredita que ele deve reagir contra as tentativas de destituí-lo ou de iniciar investigações sobre suas decisões.
“Há apenas dois dias, o presidente estava com ele e disse: ‘Você é o meu melhor homem. Você é o melhor que eu tenho’”, contou um dos funcionários.
Trump também pode sentir uma necessidade adicional de manter Hegseth no cargo caso decida prosseguir com novos ataques contra o Irã, afirmou à CNN outra fonte a par do pensamento do presidente — especialmente porque a nova maioria democrata no Senado provavelmente dificultará os esforços da administração para confirmar novas nomeações para o gabinete.
Questionado nesta quarta-feira sobre a permanência de Hegseth no cargo, Trump defendeu o esforço de guerra e negou qualquer plano de demiti-lo, afirmando que, em sua visão, o secretário de Defesa está “fazendo um trabalho muito bom”.
“Se eu tivesse que fazer tudo de novo, faria novamente”, disse Trump sobre sua decisão de entrar em guerra.
A Casa Branca também criticou a possibilidade de investigações democratas sobre o Pentágono; a porta-voz Lauren Bis declarou que, “se os democratas optarem por conduzir investigações farsescas e promover políticas de esquerda radical, estarão escolhendo trabalhar contra o povo americano”.
Mas alguns republicanos acreditam que pode ser apenas uma questão de tempo até que Trump procure alguém para culpar pelas derrotas nas eleições de Meio de Mandato, e veem Hegseth como um alvo óbvio.
“Se o presidente leva a sério a ideia de que alguém deve assumir a responsabilidade por isso, esse alguém é Pete Hegseth”, disse um republicano próximo à Casa Branca, referindo-se à dura derrota eleitoral.
“Desde o início, Pete tem sido desonesto ou incorreto — e nenhuma das duas coisas é aceitável — no que diz respeito a cronogramas, metas e objetivos”, afirmou.
Trump ainda não sinalizou planos de demitir nenhum alto funcionário. Contudo, após a pesada derrota do Partido Republicano nas eleições de Meio de Mandato, aliados e assessores esperam, de modo geral, que ele acabe promovendo algum nível de mudança dentro da administração.
No círculo de Trump, alguns viram na provável tentativa de impeachment de Hegseth uma justificativa adicional para torná-lo o “bode expiatório” após uma reprovação constrangedora à presidência de Trump — argumentando que, de qualquer forma, ele inevitavelmente se tornará um alvo central da ira dos democratas por causa da guerra.
Hegseth, por sua vez, tem demonstrado determinação quanto à sua capacidade de resistir à onda de escrutínio parlamentar que se avizinha.
Embora ele tenha, por vezes, discutido suas possíveis ambições futuras com aliados — incluindo uma eventual candidatura a um cargo público no Tennessee —, pessoas próximas a Trump não acreditam que esse seja um objetivo imediato dele, segundo fontes a par das discussões.
(Paralelamente, alguns republicanos no Congresso manifestam, em conversas privadas, desconforto com a possibilidade de Hegseth integrar o Legislativo.)
Logo após a divulgação dos resultados das eleições na terça-feira, uma pessoa próxima a Hegseth afirmou à CNN que o secretário de Defesa de Trump espera permanecer no cargo e está preparado para enfrentar uma tentativa de impeachment.
Hegseth também comunicou à Casa Branca que está pronto para assumir a responsabilidade por todas as decisões políticas e ações tomadas pelo Pentágono, segundo a fonte. Ele acredita estar bem preparado para defender essas medidas em audiências públicas — que provavelmente se tornarão acaloradas caso os democratas as promovam após assumirem o controle do Congresso em janeiro.
Em um comunicado, o principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, afirmou que Hegseth “não recuará nem se deixará intimidar por políticos que buscam obter vantagens partidárias ou iniciar investigações infundadas onde não houve qualquer irregularidade”.
“Continuaremos a implementar a agenda do presidente Trump no Departamento de Guerra — apesar das ameaças de ‘caças às bruxas’ por parte dos democratas — e o secretário Hegseth está 100% comprometido em liderar o Departamento até o fim do mandato do presidente Trump”, declarou Parnell.
No entanto, à medida que o escrutínio do Congresso se intensifica, assessores e aliados de Trump questionam por quanto tempo a determinação de Hegseth poderá perdurar.
Mesmo antes de terça-feira, diversos funcionários da Casa Branca, membros da estrutura política do presidente e aliados de Trump reconheciam, com franqueza, que a guerra com o Irã representava — na visão deles — o seu maior ponto vulnerável nas eleições de meio de mandato. E Hegseth, um dos maiores defensores de uma ação militar no Irã, está intrinsecamente ligado a esse ônus, acrescentaram.
“Acho que ele provavelmente sabe que sua situação é insustentável, mas gostaria de uma saída dramática o suficiente para que ela lhe sirva de trampolim para uma candidatura à presidência dos EUA”, disse um funcionário do governo.
Para os céticos em relação à guerra sem prazo definido que o governo trava no Irã, conseguir a saída de Hegseth do Pentágono representaria uma vitória fundamental — mas seria apenas o primeiro passo em um esforço mais amplo para encerrar o conflito.
Afinal, observou Massie, Trump continuou defendendo a continuidade da guerra no Irã, independentemente do preço político e econômico a ser pago internamente.
“Não se perde uma eleição de forma tão desastrosa por causa de uma única questão”, disse Massie.
“Tudo isso era perfeitamente evitável, bastava que tivessem se libertado da devoção quase sectária a Donald Trump”, concluiu.
Como funciona o sistema eleitoral dos Estados Unidos para as Midterms?