Stanford Prison Experiment: saiba como foi o experimento que testou os efeitos psicológicos da vida prisional em estudantes universitários

23 de Out de 2026 - 08:50
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Stanford Prison Experiment: saiba como foi o experimento que testou os efeitos psicológicos da vida prisional em estudantes universitários

Você seria preso por vontade própria, sem ter cometido nenhum crime? Essa é a pergunta que 24 voluntários precisaram fazer a si mesmos antes de se inscreverem para um estudo universitário realizado na Califórnia em 1971.

O Stanford Prison Experiment, idealizado pelo psicólogo americano Philip Zimbardo, observou quais os efeitos psicológicos derivados do sistema prisional americano, seja na figura de um detento ou de um guarda. Para isso, a equipe de Zimbardo, com a ajuda de pessoas especializadas, montou uma prisão simulada para avaliar o comportamento dos participantes.

O complexo foi construído em um corredor do Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford. As portas das salas e laboratórios foram substituídas por estruturas fortificadas com barras de aço e grades, e o corredor se tornou o “pátio”, onde os detentos podiam andar, comer e fazer exercícios fora da cela. Se fossem levados a qualquer outro lugar, eles eram vendados, para não saberem como sair da prisão.

O ambiente também era ausente de janelas ou relógios, e os participantes eram monitorados por meio de câmeras instaladas nas celas.

Como os detentos se vestiam?

Após serem levados em carros de polícia para dentro do complexo, os detentos recebiam um uniforme semelhante a uma bata, que eles precisavam usar o tempo todo sem roupa íntima. Na frente e nas costas da peça estava estampado o número de identificação da prisão.

Já no tornozelo direito de cada detento havia uma corrente pesada, parafusada e usada o tempo todo. Eles usavam sandálias de borracha e cobriam o cabelo com uma touca feita de uma meia de náilon, que substituía o processo de raspar a cabeça. 

A equipe que idealizou o experimento explicou que os prisioneiros reais não usam batas, mas sentem-se controlados e, às vezes, humilhados. O objetivo era produzir efeitos semelhantes, e, de fato, assim que alguns dos prisioneiros vestiram esses uniformes, começaram a andar, sentar e se comportar de maneira diferente.

A corrente no pé, também incomum na maioria das prisões, era usada para lembrar os detentos da opressão do ambiente em que viviam. Mesmo dormindo, eles não conseguiam escapar da atmosfera opressiva. Quando se viravam, a corrente batia no outro pé, acordando-o e lembrando-o de que ainda estava preso, sem poder escapar nem mesmo durante os sonhos. 

Preparação dos guardas

Segundo o site oficial do experimento, os guardas não receberam treinamento específico sobre como exercer a função. Em vez disso, eles tinham liberdade, dentro de certos limites, para fazer o que considerassem necessário para manter a lei e a ordem na prisão e para inspirar respeito entre os prisioneiros.

Três guardas trabalhavam em cada um dos três turnos de oito horas, enquanto três prisioneiros ocupavam cada uma das três celas vazias 24 horas por dia. Os guardas e prisioneiros restantes dos 24 voluntários estavam de prontidão, caso fossem necessários.

Às 2h30 da manhã, os prisioneiros eram rudemente despertados do sono por apitos estridentes para a primeira de muitas “contagens”. As contagens serviam para familiarizar os prisioneiros com seus números. Já as punições contavam principalmente com flexões, o que, de início, os psicólogos acharam “infantil”. Mas essa punição vinha acompanhada de pisões nas costas ou de ordens para que os detentos sentassem em cima durante o ato.

Rebelião dos detentos

No segundo dia do experimento, os detentos tiraram as meias de nylon da cabeça, arrancaram os números de identificação e construíram uma barricada nas celas, encostando suas camas na porta. Para conter a revolta, os guardas pediram reforços e usaram um extintor de incêndio para afastar os detentos.

Como consequência, eles também invadiram as celas, despiram os prisioneiros, retiraram as camas, forçaram os líderes da rebelião a ficarem em confinamento solitário e, de modo geral, começaram a assediar e intimidar os detentos.

Para aqueles que se comportassem, alguns privilégios seriam concedidos, como comer comida especial na presença dos outros prisioneiros que haviam perdido temporariamente o privilégio de se alimentar. O efeito disso foi quebrar a solidariedade entre os prisioneiros.

Até mesmo ir ao banheiro tornou-se um privilégio que um guarda podia conceder ou negar a seu bel-prazer. De fato, após o toque de recolher noturno às 22h, os prisioneiros eram frequentemente forçados a urinar ou defecar em um balde deixado em suas celas.

Ocasionalmente, os guardas não permitiam que os prisioneiros esvaziassem esses baldes, e logo a prisão começou a cheirar a urina e fezes – agravando ainda mais a qualidade degradante do ambiente.

Após uma sessão de visitas com familiares dos detentos, um boato se espalhou. De acordo com a equipe, um prisioneiro libertado por problemas de saúde iria reunir um grupo de amigos e invadir o presídio para libertar os demais. No fim, a fuga era apenas um boato, mas os guardas estavam preparados para a ira dos detentos. 

Frustrados pelo esforço inútil, eles intensificaram visivelmente o nível de assédio, aumentando a humilhação a que os prisioneiros eram submetidos, forçando-os a realizar trabalhos humilhantes, como limpar vasos sanitários com as próprias mãos. Os guardas obrigavam os prisioneiros a fazer flexões, polichinelos, qualquer coisa que lhes viesse à cabeça, e aumentaram a duração das sessões para várias horas.

Resultados do experimento

Planejado para durar de 1 a 2 meses, o experimento foi encerrado no 6.º dia, devido aos abusos e ao sofrimento psicológico. Conforme relatado pela equipe do Dr. Zimbardo, os detentos estavam desintegrados, tanto como grupo quanto individualmente.

Não havia mais nenhuma unidade grupal, apenas um bando de indivíduos isolados se agarrando à vida, muito parecido com prisioneiros de guerra ou pacientes psiquiátricos hospitalizados. Os guardas haviam conquistado o controle total da prisão e exigiam a obediência cega de cada prisioneiro.

Dois meses após o estudo, o detento 416, que ficou em confinamento solitário por várias horas, relatou a própria experiência com relação ao experimento.

“Comecei a sentir que estava perdendo minha identidade, que a pessoa que eu chamava de “Clay”, a pessoa que me colocou neste lugar, a pessoa que se voluntariou para entrar nesta prisão – porque era uma prisão para mim; ainda é uma prisão para mim”, afirmou o detento.

“Não a considero um experimento ou uma simulação, porque era uma prisão administrada por psicólogos em vez de administrada pelo Estado. Comecei a sentir que essa identidade, a pessoa que eu era e que havia decidido ir para a prisão, estava distante de mim – estava remota, até que finalmente eu não era mais isso, eu era 416. Eu era realmente o meu número”, completou.

O objetivo principal do experimento, segundo Zimbardo e o restante da equipe, era mudar as instituições para que promovessem valores humanos. Infelizmente, nos anos seguintes, as condições prisionais e as políticas correcionais nos Estados Unidos se tornaram ainda mais punitivas e destrutivas. A piora das condições resultou da politização do sistema prisional, com políticos competindo para ver quem é o mais rigoroso com o crime.

Esse ano, a Netflix lançou uma releitura moderna do estudo, em que 30 pessoas permanecem em uma prisão real por duas semanas, e as mudanças na dinâmica de poder expõem do que elas são capazes.

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