Tarcísio reforça peso para liderar direita e oposição a Lula no Brasil
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial abre espaço para uma reorganização da direita, em meio à qual o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), desponta como um dos nomes com potencial para liderar a oposição nos próximos anos. A depender desse desempenho, ele até cogita voos mais altos, conforme respondeu nesta quarta-feira (28), pela primeira vez nesses termos, sobre uma eventual disputa presidencial.
Além de cogitar uma candidatura ao Planalto em 2030, Tarcísio fez movimentos para se distanciar de Flávio ao se posicionar sobre a contestação do resultado das eleições e a saída do senador do Brasil. Soou como aceno a uma direita menos ligada à família Bolsonaro para cercar a esquerda nos próximos quatro anos.
Na avaliação de lideranças partidárias ouvidas pela Gazeta do Povo após o resultado das urnas do último domingo (25), Tarcísio reúne mandato, força eleitoral e proximidade com dirigentes de partidos que já o consideravam uma alternativa para disputar o Palácio do Planalto.
Reeleito no primeiro turno com quase 63% dos votos, o governador terá mais quatro anos à frente do maior colégio eleitoral do país. A derrota de Flávio para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu a disputa presidencial com 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% do senador, também abre uma discussão sobre a sucessão das lideranças da direita e a capacidade do clã Bolsonaro de manter a unidade do campo conservador.
Na avaliação de integrantes do partido de Tarcísio, o fato de Flávio não ter mandato a partir de 2027 e a manutenção da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro podem reduzir a capacidade do grupo de se manter à frente da articulação de toda a direita. Apesar disso, a influência política da família Bolsonaro continua sendo apontada como um fator relevante para a oposição, que precisará conciliar a força eleitoral do bolsonarismo com os interesses de partidos de centro e direita.
“Não é possível prever hoje quem disputará a Presidência em 2030. Quatro anos são uma eternidade na política. Mas é difícil olhar para aquele palco e não perceber que estamos diante de um personagem com potencial para permanecer no centro da política nacional”, avalia o cientista político Elias Tavares.
Tarcísio acompanhou a apuração do segundo turno ao lado de Flávio, em Brasília, mas não participou da declaração pública em que o senador chegou a anunciar que recorreria à Justiça para pedir a anulação do resultado da eleição. Na terça-feira (27), o governador reconheceu a vitória de Lula, mas criticou a condução do processo eleitoral em vídeo publicado nas redes sociais.
A derrota de Flávio não encerra a influência do grupo político de Jair Bolsonaro. Parlamentares do PL ouvidos pela Gazeta do Povo evitaram falar abertamente sobre o futuro de Tarcísio após o resultado eleitoral. Para esse grupo, a eleição demonstrou a força política do governador, mas ainda é cedo para antecipar a próxima disputa presidencial.
Força em São Paulo pode ajudar projeto nacional do governador
A projeção nacional de Tarcísio foi reforçada pelo resultado das eleições em São Paulo e pela atuação na campanha presidencial de Flávio. Além de vencer no primeiro turno, o governador triunfou em 99% dos municípios paulistas e recebeu 14,5 milhões de votos, a maior votação de um candidato ao governo estadual em primeiro turno na história de São Paulo.
A coligação de dez partidos liderada por Tarcísio também conquistou a maioria das cadeiras paulistas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. O resultado consolidou a posição dele no estado e ampliou o peso político de um governador que já era citado por lideranças empresariais, do mercado financeiro e de partidos como alternativa para enfrentar Lula.
Após a vitória em São Paulo, Tarcísio intensificou as articulações em favor de Flávio nas semanas que antecederam o segundo turno. No dia seguinte, foi a Brasília para costurar apoios de Republicanos, MDB, Podemos, além do ex-presidenciável Ronaldo Caiado.
Ao longo do segundo turno, participou de 12 eventos com o candidato do PL, incluindo um ato na Avenida Paulista, em 18 de outubro. Segundo pessoas próximas ouvidas pela reportagem da Gazeta do Povo, a atuação teve dois objetivos: ajudar a ampliar a coalizão em torno de Flávio e reforçar a imagem de Tarcísio como articulador nacional, de olho nas eleições de 2030.
A avaliação entre esses aliados é de que a proximidade com dirigentes partidários pode facilitar o diálogo com diferentes setores da oposição, embora a formação de uma eventual candidatura presidencial dependa de negociações que ainda não estão na mesa. "O governador Tarcísio é a grande estrela do nosso partido", avaliou o deputado Marcos Pereira (SP), presidente nacional do Republicanos.
Ainda durante a campanha presidencial deste ano, Tarcísio recebeu sinalizações do próprio Flávio de que contaria com o apoio dele daqui a quatro anos. “Sem dúvida alguma, o Tarcísio é um dos grandes quadros que nós temos na centro-direita”, disse o senador em setembro, ao ser perguntado sobre a próxima disputa.
Tarcísio foca em novo mandato e reorganização do governo paulista
Enquanto parte da oposição já discute o futuro nacional do governador, Tarcísio deve concentrar esforços na montagem do próximo governo estadual, que começa em janeiro de 2027. Segundo auxiliares, o governador pretende retomar nos próximos dias o foco na administração paulista e definir mudanças na equipe para o segundo mandato.
Uma das saídas esperadas é a do secretário estadual da Saúde, Eleuses Paiva (PSD), que comunicou ao governador que deixará o cargo. Entre os nomes cotados para substituí-lo estão o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Luiz Carlos Zamarco, e o secretário-adjunto da pasta estadual, Maurício Serpa.
A composição do novo secretariado também poderá refletir a reorganização das alianças políticas. O MDB deve ganhar espaço na administração estadual após integrantes do grupo do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, participarem diretamente da coordenação da campanha de reeleição de Tarcísio. Já o PSD, do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, poderá perder espaço, segundo avaliações internas do governo paulista.
Direita terá que discutir sucessão
"Em algum momento, a direita terá de enfrentar a questão da sucessão, e Tarcísio conquistou projeção nacional, o que inevitavelmente também nos faz olhar para 2030”, afirmou Tavares.
Apesar de Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro estarem sem mandatos eletivos a partir de 2027, a família terá representação no Senado a partir de fevereiro, com Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, e Carlos Bolsonaro, eleito senador por Santa Catarina. A ex-primeira-dama chegou a ser cotada para ocupar a vice-presidência em uma eventual chapa encabeçada por Tarcísio, mas a composição para este ano não se concretizou.
Em julho, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, havia afirmado que Jair Bolsonaro preferia que Michelle adquirisse experiência em um mandato parlamentar antes de disputar um cargo no Executivo. “Bolsonaro não quer Michelle em cargo executivo até ter um mandato para adquirir mais experiência, falou para mim no passado”, declarou.
Valdemar também contou que havia sugerido ao ex-presidente que Michelle disputasse o governo do Distrito Federal, mas Bolsonaro teria discordado da ideia. Sobre a possibilidade de ela ocupar a vice-presidência, o dirigente afirmou: “De vice, ela poderia até sair, na minha opinião. Não sei na de Bolsonaro. De vice. Se fosse o Tarcísio, seria a chapa ideal, o pessoal falava. Entendeu que tinha de ser o Flávio.”