Vizinhos do Brasil se aproximam de Trump e desafiam plano regional de Lula

30 de Set de 2026 - 04:50
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Vizinhos do Brasil se aproximam de Trump e desafiam plano regional de Lula

A América do Sul atravessa um momento de mudança na distribuição de forças. De um lado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta manter uma agenda de integração baseada em diálogo entre vizinhos, infraestrutura e cooperação, sem alinhamento automático a grandes potências.De outro, governos da região aprofundam relações de segurança e comércio com os Estados Unidos de Donald Trump.A divisão ficou mais evidente nesta semana, quando 14 países latinos que integram o chamado Escudo das Américas aderiram a uma declaração conjunta para combater 24 organizações classificadas pelos Estados Unidos como “narcoterroristas”.A lista inclui o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), facções brasileiras designadas como organizações terroristas estrangeiras pelo governo norte-americano.O Brasil ficou fora da articulação.O movimento ocorre em paralelo a uma ampliação da presença de Washington na América do Sul, com novos recursos para parceiros regionais, maior cooperação militar e de inteligência e esforços para aproximar governos que compartilham a agenda de segurança defendida por Trump.Para Brasília, o desafio é manter canais de diálogo com países que, mesmo sob governos ideologicamente diferentes do brasileiro, continuam sendo fundamentais para os interesses estratégicos de ambas as partes.Plano de Lula para a regiãoEm maio de 2023, Lula reuniu presidentes sul-americanos em Brasília, que aprovaram o Consenso de Brasília para retomar a coordenação regional em áreas como infraestrutura, segurança, saúde e economia.Uma das iniciativas foi a criação das Rotas de Integração e Desenvolvimento Sul-Americano, com cinco corredores ligando estados brasileiros a países vizinhos e aos portos do Pacífico.A estratégia busca ampliar a integração econômica e criar alternativas logísticas para o comércio com a Ásia.Vizinhos seguem caminhos diferentesA Argentina de Javier Milei é um dos exemplos mais claros de aproximação política com o republicano.O argentino mantém uma relação estreita com o republicano e defende maior abertura econômica e aproximação com os Estados Unidos. Buenos Aires também discute uma flexibilização das regras do Mercosul para permitir negociações comerciais individuais, posição que entra em tensão com a defesa brasileira da atuação conjunta do bloco.A divergência não é apenas econômica. Milei e Lula protagonizaram episódios de forte atrito político desde o início do governo argentino, mas a relação entre os dois países não foi interrompida.O Metrópoles apurou com fontes do Planalto que Brasília acompanha a aproximação dos governos vizinhos com Washington, mas não considera que a mudança de orientação política desses países determine automaticamente um afastamento do Brasil.A avaliação é que Lula procura manter abertas as relações com governos de diferentes correntes ideológicas e concentrar a cooperação em temas concretos, como infraestrutura, segurança pública, energia e segurança de fronteiras.A ideia, segundo essa avaliação, é não transformar a disputa de influência entre Brasil e Estados Unidos em uma disputa ideológica pela América do Sul.3 imagensFechar modal.1 de 3Lula e Trump em encontro na Casa BrancaRicardo Stuckert/Presidência da República2 de 3Carla Sena/Arte Metrópoles3 de 3Ricardo Stuckert/PRSegurança aproxima governos de WashingtonA aproximação de governos vizinhos com os Estados Unidos avançou na área de segurança com o Escudo das Américas, liderado por Washington e integrado por 19 países. Brasil e México estão fora.Após pedido de Trump, 14 integrantes anunciaram uma ação conjunta contra 24 organizações, incluindo PCC e CV. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru estão entre os sul-americanos participantes.Lula defende cooperação internacional contra o crime organizado, mas rejeita presença militar estrangeira no Brasil. A movimentação ocorre em meio à ampliação da atuação dos EUA na região, com US$ 52 milhões redirecionados para Colômbia, Equador, Peru e Panamá e previsão de envio de drones ao Comando Sul.Para o professor Maurício Fronzaglia, da Universidade Mackenzie, o movimento também está ligado à disputa entre EUA e China. Segundo ele, Washington busca recuperar espaço na região, enquanto Pequim ampliou sua presença comercial.Nas últimas décadas, a China se consolidou como um dos principais parceiros comerciais de países sul-americanos, incluindo Brasil e Argentina. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos procuram ampliar sua presença em setores considerados estratégicos no Hemisfério Ocidental.Na avaliação palaciana ouvida pelo Metrópoles, o combate ao crime organizado é apenas uma das dimensões da estratégia americana para a região. A fonte também cita interesses relacionados à China, energia e minerais críticos.Dimensão eleitoralA disputa por influência regional também passou a se cruzar com o cenário eleitoral brasileiro.O presidente norte-americano chegou a afirmar que todos os candidatos que ele apoiou em eleições na América Latina foram vitoriosos.Dias antes, em discurso na ONU, Lula resumiu a posição brasileira: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Leia também MundoCom drones e mais orçamento, EUA reforça ação militar na América do Sul BrasilEscudo das Américas: Planalto vê estratégia dos EUA por controle na região MundoTrump diz que todos os candidatos que apoiou na América Latina venceram MundoApós pedido de Trump, 14 países classificam PCC e CV como terroristas Pragmatismo de BrasíliaConforme o apurado pelo Metrópoles, o governo avalia que o Brasil não deve interpretar a aproximação dos vizinhos com Trump como uma perda automática de influência. A avaliação é que países da região continuam dependendo do Brasil em diferentes áreas e que essa interdependência pode ser usada por Brasília para manter sua capacidade de articulação.A estratégia, portanto, seria pragmática: negociar com governos de direita, centro ou esquerda sempre que houver interesses comuns.Infraestrutura, energia, comércio, segurança de fronteiras e combate ao crime organizado aparecem como áreas em que Brasília pretende preservar a cooperação.Essa lógica também explica a manutenção do diálogo com a Argentina de Milei, apesar das divergências entre os presidentes.Para Fronzaglia, o Mercosul nasceu justamente da compreensão de que a integração poderia ampliar o peso dos países da região diante do mercado internacional e, ao mesmo tempo, reduzir tensões históricas entre Brasil e Argentina.O professor observa, contudo, que o ambiente internacional mudou desde a criação do bloco, com o aumento da competição entre grandes potências e a maior presença econômica da China.A avaliação do governo, então, é que Brasília não pretende escolher entre manter influência regional e dialogar com governos próximos de Trump. A estratégia é justamente tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo.