Filha de Regina Casé, Benedita estreia no cinema em filme sobre surdez

28 de Set de 2026 - 23:50
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Filha de Regina Casé, Benedita estreia no cinema em filme sobre surdez

Quando soube que tinha sido aprovada nos testes para interpretar uma advogada com perda auditiva, a atriz Benedita Casé Zerbini, de 37 anos, correu para contar a novidade para a mãe, Regina Casé, de 72.

Diante da notícia, Regina, em vez de parabenizar a filha, encheu a moça de perguntas: “Teste? Pra quê? Protagonista? Do que você está falando?”. Benedita estava falando do filme 90 Decibéis, que estreia na TV Globo nesta segunda, 28 de setembro.

“Cheguei até a Benedita através do José Luiz Villamarim. O supervisor artístico do filme a indicou numa das primeiras reuniões que tivemos”, relata o diretor Fellipe Barbosa.

“Havia uma preocupação de que ela não correspondesse à personagem, que descobre a surdez progressiva, por já ter nascido surda. Após o teste, porém, não houve mais dúvidas: tinha que ser ela, e a Júlia Spadaccini apoiou muito essa decisão. Benedita é uma grande atriz”.

Júlia Spadaccini é a roteirista de 90 Decibéis. A exemplo de Ana, a personagem interpretada por Zerbini, ela também tem perda de audição progressiva bilateral. Júlia começou a perder a audição aos 19 anos. Hoje, aos 48, usa aparelhos nos dois ouvidos.

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Não é a primeira vez, porém, que Benedita interpreta um texto dela. As duas trabalharam juntas no monólogo Surda, dirigido por Débora Lamm. O espetáculo esteve em cartaz no Rio de Janeiro, entre 9 de maio e 28 de junho.

“Benedita entra em cena e ilumina o palco. Não tem uma pessoa que saia do teatro e não comente a força de sua atuação. O mais incrível é que ela nunca havia pisado em um palco. No filme, acontece a mesma coisa. Ela enche a tela. Parece uma veterana”, elogia Júlia.

Além de escrever roteiros de filmes e séries, como Loucas Pra Casar e Segunda Chamada, Júlia também é psicóloga. “Me ajuda a construir o perfil dos meus personagens”, explica.

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Medicamentos ototóxicos

Em sua estreia no cinema, Benedita Casé Zerbini interpreta uma advogada que enfrenta a perda progressiva de audição. Apesar de ser bem-sucedida na profissão, é demitida do escritório onde trabalha. Por essa razão, precisa recomeçar do zero em outro lugar.

“A minha história é diferente da dela. Convivo com a surdez desde pequena. Recebi o diagnóstico por volta dos três anos de idade e coloquei os aparelhos auditivos aos quatro”, recorda.

Filha da atriz Regina Casé e do artista Luiz Zerbini, Benedita nasceu ouvinte. Mas, ainda bebê, teve pneumonia severa. Por causa do uso abusivo de antibióticos ototóxicos, sofreu perda auditiva. A ototoxicidade é, segundo o otorrino Fernando Balsalobre, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), uma das causas de perda auditiva em crianças.

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“Alguns remédios são potencialmente ototóxicos. Em geral, suas bulas contém essa informação. O médico deve considerar esse risco e indicar outros tratamentos”, explica Balsalobre.

“Diuréticos, quimioterápicos e antimaláricos também podem ser ototóxicos. A tendência é que, nestes casos, a perda de audição seja irreversível. Suspender a medicação pode, eventualmente, frear o dano causado e, algumas vezes, resgatar a audição perdida”.

Apuros maternos

Antes de trabalhar como atriz e de estrear no espetáculo teatral Surda, Benedita estudou design gráfico. De tanto ouvir que não conseguiria falar com todo mundo, estar em um set de filmagens ou se comunicar o tempo inteiro, acabou acreditando nisso.

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“Toda pessoa com deficiência já sofreu discriminação. Não tem para onde correr. A gente sente olhares, sabe? Tinha medo de trabalhar com comunicação porque acreditava nas narrativas que outras pessoas constroem sobre a gente”, avalia.

“Por um tempo, achei que seria melhor ficar atrás de um computador. De certa forma, isso me protegia de ter que me expor. Depois, entendi que estava errada. Eu gostava mesmo era de gente!”.

Se há diferença entre atriz e personagem, há também semelhança. As duas, por exemplo, são mães: Ana de Theo (Bernardo Thalhofer) e Benedita de Brás, filho dela com o fotógrafo João Pedro Januário.

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“Teve cena que me tocou por falar de coisas que vivi. Quando a criança se machuca e você não escuta e, depois, ainda sente culpa. Ou quando rola dificuldade de conversar sobre certos assuntos por achar que ele, talvez, não consiga entender”, cita Benedita.

Inclusão: longe do ideal

A roteirista Júlia Spadaccini também já passou por incontáveis perrengues. “A maior dificuldade é, de modo geral, a invisibilidade das deficiências. A inclusão está longe do ideal”, protesta.

Outro dia, ela tentou assistir a um desenho dublado com o filho e não entendeu uma só palavra. Aplicativo de legenda em celular, explica, não ajuda em nada. “Imagina ter que olhar para a tela do cinema e para o celular ao mesmo tempo? Impossível!”, lamenta.

No caso dela, a luta é pela legenda em filmes brasileiros e dublados. Além de outras reivindicações, como a falta de representatividade de pessoas com deficiência no teatro, no cinema e na TV.

“Apesar de a inclusão não ser um favor e, sim, um direito, não é prioridade em lugar nenhum. Ou seja: minha maior dificuldade não é a deficiência em si. A minha maior dificuldade é a falta de inclusão e de letramento social”, desabafa Júlia.

Grupo de sete pessoas sorrindo, vestindo camisetas azuis claras com crachás. Dois homens em cadeiras de rodas, uma mulher com muleta, uma mulher de baixa estatura, e três pessoas em pé. Ao fundo, um ambiente de escritório com divisórias e mesas. No chão, piso tátil azul.
Cerca de 85% do elenco do filme 90 decibéis é formado por atores com deficiênciaDivulgação/Divulgação
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