Xi Jinping nos EUA: o 'príncipe' que perdeu tudo antes de se tornar o líder mais poderoso da China

23 de Set de 2026 - 19:00
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Xi Jinping nos EUA: o 'príncipe' que perdeu tudo antes de se tornar o líder mais poderoso da China
    • Author, Shawn Yuan e Jack Lau
    • Role, Unidade Global de China, Serviço Mundial da BBC
  • Published Há 18 minutos
  • Tempo de leitura: 8 min

O presidente da , , inicia nesta quarta-feira (23/9) em Washington sua primeira visita oficial aos depois de 11 anos.

Mas seu primeiro contato com o país ocorreu muito antes que ele se tornasse o líder .

Quatro décadas atrás, Xi era funcionário municipal no norte da China. Na época, ele visitou o meio-oeste americano, durante uma viagem de estudos.

Xi passou vários dias no Estado americano de Iowa, aprendendo sobre agricultura e visitando fazendas, hospedado com uma família local.

A imprensa estatal chinesa destacou sua estadia naquele lar e sua amizade com o então governador de Iowa, Terry Branstad. Ele se tornaria embaixador americano na China durante o governo , como forma de destacar os vínculos pessoais de Xi com os Estados Unidos.

Atualmente, as relações entre Washington e Pequim pouco têm a ver com as daquela época. Elas são marcadas pela concorrência entre as duas nações pela influência global, tarifas de importação recíprocas, controles tecnológicos e rivalidade militar.

Além disso, hoje com 73 anos, Xi está longe de ser aquele funcionário de baixo escalão. Ele lidera o governo chinês há quase 14 anos, tendo transformado o Partido Comunista e o papel do seu país no mundo.

O 'príncipe' que perdeu tudo

A vida de Xi teve um princípio privilegiado.

Ele nasceu em Pequim em 1953 e foi o sexto filho do revolucionário comunista Xi Zhonngxun (1913-2002), que colaborou para a . Seu pai chegou a ser alto dirigente do Partido Comunista e vice-primeiro-ministro.

Durante a infância, Xi Jinping frequentou escolas de elite e desfrutou de muitos privilégios fora do alcance da maioria das famílias chinesas. Mas a situação sofreu uma reviravolta quando a política se voltou contra sua família.

No início da , seu pai foi acusado de fazer parte de uma suposta "facção contra o partido". Ele acabou sendo expulso do Partido Comunista e enviado para trabalhar em uma fábrica no interior.

Como filho de uma pessoa considerada "contrarrevolucionária", Xi foi encaminhado à força para um programa de reeducação.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas

Atendendo ao chamado do então líder chinês (1893-1976) para que os jovens fossem para o campo aprender com os camponeses, Xi, com 15 anos de idade, foi transferido para uma zona rural, ao lado de milhões de estudantes procedentes das cidades.

Ao descrever a experiência em uma entrevista de 2004, ele recordou: "Todos no trem choravam. Eu era o único que sorria. Se não tivesse saído dali, teria chorado. Se tivesse ficado, nem mesmo sei se continuaria vivo".

Xi terminou na remota aldeia de Liangjiahe, na Província de Shaanxi, no oeste da China. Lá, ele viveu por sete anos em um yaodong, uma moradia escavada na ladeira de uma colina, onde realizou tarefas agrícolas, transportou esterco e cavou valas.

"Vegetais em conserva passaram a ser minha comida favorita", declarou ele, sobre esta etapa da vida. "Até hoje me lembro deles com carinho."

Xi contou que, inicialmente, ficou "assombrado" com a dureza do trabalho, enfrentou a fome e picadas de pulgas, mas encontrava algum alívio nas pausas para fumar antes do almoço.

Ascensão ao poder

Aos 22 anos, Xi deixou o campo para estudar engenharia química na Universidade Tsinghua, uma das instituições acadêmicas de maior prestígio da China.

Depois de se formar, ele trabalhou como funcionário local longe de Pequim, nas províncias litorâneas de Fujian e Zhejiang. Elas se tornaram algumas das regiões mais prósperas do país, após a abertura econômica da década de 1980.

Após a morte de Mao, a reabilitação política do seu pai ajudou Xi a ocupar cargos no governo central e nas Forças Armadas. Ele começou, então, a formar relações dentro do Partido Comunista.

Muitos desses funcionários passariam, mais tarde, a integrar seu círculo de confiança mais próximo.

Xi se casou em 1979 com sua primeira esposa, Ke Lingling, filha de um ex-embaixador chinês no Reino Unido. Mas o casamento terminou em divórcio três anos depois.

Um amigo comum o apresentou posteriormente à sua atual esposa, a cantora de música folclórica do Exército Peng Liyuan. Ela já era muito conhecida na China, graças às suas apresentações nos especiais de televisão do Ano Novo Lunar, acompanhados todos os anos por milhões de espectadores.

Para muitos chineses, durante as décadas de 1980 e 1990, Peng era mais conhecida que o funcionário provincial com quem se casou.

Peng acompanha Xi frequentemente nas suas viagens para o exterior, rompendo com a imagem discreta mantida tradicionalmente pelas primeiras-damas chinesas.

Sua única filha, Xi Mingze, nasceu em 1992. Sabe-se pouco sobre ela, exceto que estudou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Em 2007, após um breve período como dirigente máximo de Xangai, Xi ingressou no Comitê Permanente do Politburo, o principal órgão de tomada de decisões da China. E, cinco anos depois, ele sucedeu como líder do Partido Comunista.

Como dirigente máximo do país, Xi transformou o sistema político e econômico da China, de forma que poucos teriam imaginado.

A China de Xi

Durante quase 14 anos de Xi no poder, a China passou a se mostrar cada vez mais segura de si.

No plano internacional, Xi Jinping ampliou a presença global do país, com projetos como a , quando apresentou Pequim como defensor do chamado Sul Global.

Paralelamente, as relações entre a China e muitas democracias passaram a ser mais tensas, com o aumento das disputas no Mar do Sul da China, maior pressão sobre e a concorrência cada vez .

Mas o legado de Xi também é marcado por maior controle político dentro da China.

Sob sua liderança, Pequim depositou muito mais ênfase na segurança e na estabilidade política, aplicando medidas repressivas em regiões como Xinjiang, Tibete e Hong Kong.

Segundo seus partidários, estas medidas restauraram a ordem no país. Mas, para seus críticos, elas restringiram significativamente as liberdades civis.

Xi conseguiu impulsionar uma doutrina política que leva seu nome: o "Pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova era".

Seus dois predecessores — Hu Jintao e Jiang Zemin — não conseguiram incorporar suas ideias à composição ideológica oficial do Partido Comunista Chinês, como fez o atual presidente.

Xi também eliminou da Constituição o limite de mandatos presidenciais. Por isso, ele conseguiu permanecer no cargo por .

A imprensa estatal chinesa costuma apresentar o presidente como uma figura séria, mas Xi também demonstra ocasionalmente uma faceta mais relaxada.

Ele já comentou sua paixão pelo futebol, chegando a brincar com um primeiro-ministro tailandês sobre os maus resultados da seleção masculina chinesa.

Xi Jinping também já compartilhou uma cerveja com o ex-primeiro-ministro britânico David Cameron e chegou a brincar com um presidente da Coreia do Sul sobre a conveniência de verificar se os telefones Xiaomi fabricados na China teriam algum "truque de espionagem", antes de aceitá-los de presente.

Amigos ou rivais?

As relações de Xi com líderes estrangeiros atravessaram diferentes etapas, refletindo as mudanças de prioridades da política externa chinesa.

Nenhum líder estrangeiro mantém relação mais estreita com ele que o presidente da Rússia, .

Desde que Xi chegou ao poder, eles já se reuniram em mais de 40 ocasiões. O dirigente chinês chegou até a descrever Putin como seu "confidente mais próximo".

Já suas relações com o presidente americano, Donald Trump, são .

Trump iniciou uma guerra comercial com a China durante seu primeiro mandato. Mas ele falou frequentemente sobre Xi em termos elogiosos, chamando o líder chinês de amigo e destacando sua força política em várias ocasiões.

Com o primeiro-ministro da Índia, , Xi apostou inicialmente em uma intensa diplomacia pessoal.

Eles mantiveram encontros informais, para ressaltar a cooperação entre as duas potências asiáticas. Mas as levaram as relações bilaterais ao seu ponto mais baixo em décadas.

Diferentemente de outros líderes conhecidos pelo seu carisma pessoal ou sua capacidade de improvisação, Xi raramente coloca as relações individuais acima dos interesses do Estado.

O certo é que, durante esta semana em Washington, Xi não será mais o curioso funcionário local que percorreu as fazendas de Iowa quatro décadas atrás, mas sim uma das figuras políticas mais influentes do século 21.