A batalha de Flávio e Lula pelo voto grisalho: por que eleitores 70+ podem decidir eleição para presidente

22 de Out de 2026 - 07:10
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A batalha de Flávio e Lula pelo voto grisalho: por que eleitores 70+ podem decidir eleição para presidente
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    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
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Quase metade dos eleitores com 70 anos ou mais aptos a votar não compareceu às urnas no de 2026.

A abstenção foi de 49,1% nessa faixa etária, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — a maior entre todas as idades.

Embora o índice represente uma queda em relação aos 58,8% registrados em 2022, permanece muito acima da média nacional de 21,08%.

Em números absolutos, esse percentual representa ainda mais de 8 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas — ou quase quatro vezes mais a diferença de votos entre e no primeiro turno, .

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Diferentemente da maioria do eleitorado, os não são obrigados a votar. Ou seja, além de buscar conquistar sua preferência, as campanhas precisam convencer esse grupo de que vale a pena sair de casa e comparecer às urnas.

O tamanho desse eleitorado também ajuda a explicar por que ele se tornou um centro de atenções diante do que .

O número de eleitores com 70 anos ou mais passou de 14,9 milhões, em 2022, para 17,2 milhões neste ano. Juntos, eles representam mais de 10% do eleitorado brasileiro — um contingente equivalente a quase toda a população dos Países Baixos.

Para a cientista política Mayra Goulart, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada, trata-se possivelmente do grupo mais estratégico desta reta final de campanha.

"É nessa faixa etária que a gente observa o maior nível de abstenção [proporcional] e, portanto, uma vez que a gente está falando de uma margem estreita de votos, pode ser determinante para um ou outro candidato", afirma.

Segundo ela, em uma eleição disputada voto a voto, a mobilização dos idosos tem potencial para produzir efeitos tão relevantes quanto a conquista de novos eleitores.

"São 17 milhões de pessoas que podem mudar o curso da eleição", resume ainda Cléa Klouri, fundadora do Movimento Voto 70+, uma iniciativa apartidária da sociedade civil que defende a participação política dos idosos.

'Levanta a bunda e vai votar'

Veja a intenção de voto no 2º turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim da Promoção Agregador de pesquisas

A disputa atual pelo voto grisalho envolve dois focos diferentes, segundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil: conquistar a preferência de quem ainda não decidiu em quem votar e mobilizar aqueles que já têm um candidato, mas podem optar por não comparecer.

Para a campanha de Lula, isso se traduziu inicialmente na divulgação, logo após o primeiro turno, de uma cartilha com orientações para apoiadores que pretendem conversar com idosos.

"Ouça mais do que fale. Ninguém muda de ideia levando sermão", afirma o documento, que sugere ainda questionar e relembrar os idosos sobre experiências pessoais positivas durante os governos Lula.

A cartilha se refere aos idosos como "Geração Lula", — em alusão à idade do próprio presidente, que tem 80 anos: "Você já viu o Brasil ser injusto e lutou por um Brasil melhor. Sabe a diferença na pele. Agora essa memória pode virar futuro. Para você e para as pessoas que você ama".

Há ainda orientações sobre como ajudar na hora da votação. "Consulte o local de votação para eles, ajude a separar o documento, planeje a carona ou combine de ir junto até a urna."

Para Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa e que já atuou como coordenadora de comunicação e estratégia de campanhas eleitorais, o objetivo da equipe do petista é resgatar uma memória positiva que parte dos eleitores mais velhos têm em relação aos primeiros governos Lula.

"Muitos eleitores têm uma boa memória dos dois primeiros governos Lula, tanto que ele saiu com 80% de aprovação. O problema maior é mesmo o terceiro mandato e a polarização atual", diz a especialista.

O petista também tem feito apelos diretos para que pessoas com 70 anos ou mais compareçam às urnas, usando frases como "levanta a bunda e vai votar".

"O Brasil não parou porque você fez 70 anos. E as suas necessidades não pararam, porque você tem filhos, neto, bisnetos, então vá votar pelo Brasil que você quer para os seus filhos e seus netos", disse ainda, nos minutos finais de uma entrevista ao Flow Podcast.

Mas a campanha de Lula também investe em críticas diretas ao seu oponente e acusações contra o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo relatos, o foco é investir no medo de perda de programas sociais.

"Votar nos Bolsonaro é votar na quadrilha que assaltou a Previdência Social", disse o petista em comício no Recife em setembro.

A própria cartilha apresenta sugestões de linhas de críticas a Flávio — a maior parte delas envolvendo o governo do pai do senador. São elas: atuação na pandemia de covid-19, condução da Previdência e valor do salário mínimo, cortes na Farmácia Popular, liberação de armas para a população, escândalo do INSS, mudanças de versões ditas por Flávio no caso do Banco Master, cortes nos gastos públicos anunciados pelo presidenciável e investigação contra o candidato do PL pela Polícia Federal pelo caso do filme Dark Horse.

"Bolsonaro elevou a idade mínima e acabou com a aposentadoria por tempo de contribuição. E acabou com a valorização do salário mínimo. A aposentadoria passou a valer menos", diz a cartilha.

"Temas como aposentadoria e saúde pública são importantes, principalmente para o segmento desse eleitorado que está aposentado e depende do fruto da sua aposentadoria pública", afirma Mayra Goulart, da UFRJ.

A cientista política observa ainda que os idosos constituem um segmento com hábitos de consumo de informação diferentes dos eleitores mais jovens, o que exige estratégias específicas de mobilização.

"Talvez a comunicação por meios digitais tenha menor efetividade. Esse eleitor ainda precisa de campanhas de TV e rádio, que ainda têm bastante efetividade nesse eleitorado", diz.

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'Não caia em fake news'

A campanha de Flávio Bolsonaro também lançou sua própria plataforma voltada à terceira idade, chamada "70 Mais".

Entre as medidas apresentadas, estão a simplificação dos processos do INSS para reduzir o tempo de espera por benefícios, o reforço dos mecanismos de controle contra descontos indevidos nas aposentadorias e a entrega de medicamentos em casa para idosos, pessoas com deficiência e pacientes com doenças crônicas.

O plano também prevê iniciativas de apoio a cuidadores, atendimento domiciliar e adaptação de residências para torná-las mais seguras. "O nosso lugar sempre foi ao lado de quem trabalhou a vida inteira", diz o programa.

Nas redes sociais, a campanha de Flávio investe em vídeos de convocação às urnas e em responder às críticas feitas por Lula, desmentindo algumas das informações divulgadas por apoiadores do adversário.

A esposa do senador, , é parte importante da estratégia de comunicação com os eleitores idosos.

"Estou impressionada com a quantidade de informações falsas que estão circulando na internet. Vários idosos têm recebido mensagens dizendo que o Flávio vai acabar com as aposentadorias. É inacreditável. Essa não é a proposta que ele tem apresentado", diz Fernanda em um vídeo direcionado ao público mais velho.

"A Farmácia Popular não vai acabar. Flávio Bolsonaro sabe a importância desse programa para milhões de brasileiros e ele está dando a sua palavra para o povo de que vai trabalhar para que ninguém fique sem os medicamentos que precisa", diz a esposa de Flávio, que é dentista, em outra peça da campanha que exibe imagens de idosos geradas por inteligência artificial.

Após o segundo turno, Flávio ainda prometeu reajustar aposentadorias acima da inflação. "Não caia nessa fake news do ‌PT dizendo que eu vou acabar com o reajuste à aposentadoria", disse o senador.

"Pelo contrário, minha avó é professora aposentada do Estado. Eu sei da dificuldade que ela tem de fazer compra no final do mês, tenho que ajudar ela de vez em quando, meus irmãos têm que ajudar a minha avó e meu avô de vez em quando, porque os dois são aposentados."

Quando o assunto são os ataques ao adversário, Flávio associa com frequência o governo Lula às irregularidades envolvendo descontos em benefícios previdenciários.

No primeiro ato oficial de campanha, em Copacabana, em agosto, as , foram um dos focos do ato.

Flávio associou Lula e seu filho, conhecido como Lulinha, ao escândalo. O senador ainda citou seu vice, Alfredo Gaspar (PL), dizendo que ele foi vítima de fake news por atuação na CPI que apurou o caso. "A corrupção e o roubo do INSS chegaram dentro do gabinete do presidente da República", disse.

Quem tem vantagem entre os idosos?

Resultados do Datafolha divulgados em 15 de outubro indicam Lula com 49% das intenções de voto entre eleitores acima de 60 anos, contra 41% de Flávio Bolsonaro, na pesquisa espontânea.

Já pesquisa Quaest de 14 de outubro sugere que o petista tem 48% das intenções de voto entre os idosos, enquanto o senador aparece com 42%.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o petista tende a largar de uma posição mais favorável nesse segmento, embora ressalvem que os idosos estão longe de formar um bloco homogêneo.

Para o cientista político Jairo Pimentel, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), parte dessa vantagem pode estar ligada à memória dos primeiros governos Lula e à trajetória histórica de uma geração que acompanhou eventos como a ditadura militar, a redemocratização e as grandes transformações sociais das últimas décadas.

"O bolsonarismo tende a fazer muita apologia em relação à ditadura militar, e essa possibilidade de quebra de regime pode afastar os eleitores", opina.

"Além disso, estamos falando de um eleitorado que estava economicamente ativo durante os primeiros governos do Lula, a partir de 2002, quando o país teve crescimento econômico."

Para a professora Mayra Goulart, uma parcela dos idosos tende a se identificar com propostas associadas à ampliação de serviços públicos e da proteção social, o que poderia favorecer Lula entre o grupo.

"Esse eleitorado tende a votar no Lula, assim como todo eleitorado que não faz parte da população economicamente ativa e que depende de políticas públicas, uma vez que identifica no presidente e na correlação de forças que o ampara um posicionamento mais favorável à ideia de um Estado forte e de bem-estar social, enquanto Flávio Bolsonaro defende uma posição mais fiscalista, de redução do papel do Estado", explica.

Já Cila Schulman, do Ideia, destaca que o eleitorado idoso abriga perfis sociais, econômicos e ideológicos muito distintos, o que dificulta generalizações. Segundo ela, apesar da vantagem captada pelas pesquisas, não existe entre os maiores de 70 anos a mesma uniformidade de comportamento eleitoral observada em alguns outros grupos sociodemográficos.

"Interessa a ambas as campanhas combater a abstenção entre esse grupo, mas, para o Lula, isso é vital", diz a estrategista.

"A abstenção tende a se concentrar mais no eleitorado de baixa escolaridade e baixa renda, o que já afeta mais a campanha dele."

Flávio terminou o primeiro turno desta eleição em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de 1,87 ponto percentual, ou cerca de 2,2 milhões de votos.

Para o segundo turno, o sugere que o senador está um ponto à frente do petista nas intenções de voto registradas nas sondagens divulgadas até esta quarta-feira (21/10).

Por que tantos idosos deixam de votar?

Embora o voto seja facultativo após os 70 anos, especialistas afirmam que a elevada abstenção não pode ser explicada apenas pela ausência de obrigatoriedade.

Uma pesquisa do Movimento Voto 70+ identificou três perfis principais entre idosos que não pretendiam votar ou estavam indecisos sobre comparecer às urnas antes do primeiro turno: aqueles que acreditam que seu voto não faz diferença; os que avaliam que o resultado da eleição já não terá impacto relevante sobre suas vidas; e aqueles que gostariam de votar, mas enfrentam dificuldades de mobilidade ou logística.

Segundo Cléa Klouri, fundadora do Movimento Voto 70+, muitos idosos encontram obstáculos que vão desde problemas de saúde até a dependência de familiares para se deslocar até os locais de votação.

Ela afirma também que há um sentimento recorrente de invisibilidade política entre parte dessa população. "Muitos não se sentem estimulados a participar ou sentem que o seu voto não tem importância", diz.

"Há ainda uma desilusão política. Pensam 'bom, se não fazem muita questão de desenvolver alguma coisa para mim, não têm uma política pública mais transparente para mim, então também não fazem questão do meu voto'."

Para Jairo Pimentel, da FESPSP, existe ainda uma percepção difundida entre alguns eleitores de que, após décadas comparecendo às urnas, eles já cumpriram seu dever cívico.

Segundo ele, muitos encaram a facultatividade do voto como uma espécie de "aposentadoria eleitoral", especialmente em um momento marcado por desgaste político e polarização intensa.

Uma disputa que vai além de 2026

Para os especialistas, o interesse crescente das campanhas pelos eleitores mais velhos é apenas um reflexo de uma transformação demográfica mais ampla.

O número de idosos vem crescendo rapidamente no Brasil, e a tendência é que sua participação no eleitorado continue aumentando nas próximas décadas.

Isso deve ampliar a pressão para que governos apresentem respostas para desafios relacionados à previdência, saúde, cuidados de longa duração, moradia, acessibilidade e inclusão social.

Para Cléa Klouri, o país ainda não se preparou adequadamente para essa transição. "O Brasil está envelhecendo rapidamente e está envelhecendo pobre", afirma.

Segundo ela, o envelhecimento deixou de ser uma questão restrita à Previdência e passou a afetar praticamente todas as áreas da vida social e econômica.

"A expectativa de vida hoje é de quase 100 anos, ou seja, as pessoas que têm mais de 70 anos hoje ainda vão viver aí mais 20, 25 anos. É muito importante que elas continuem ativas e participando."

*Gráfico por Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil.