Willer Tomaz, Vorcaro e milícia: o que realmente pesa contra Flávio Bolsonaro
- Author, Mariana Schreiber
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Published Há 56 minutos
- Tempo de leitura: 11 min
O candidato a presidente e senador, , se tornou alvo de uma nova investigação no Supremo Tribunal Federal (STF).
O inquérito vai apurar suposto crime de lavagem de dinheiro que teria sido praticado em parceria com o , alvo de outra apuração por possível envolvimento no desvio de recursos do INSS — nesse outro caso, Flávio não é investigado.
A existência do novo inquérito contra o senador foi revelada no domingo (18/10) pelo jornal Estado de S. Paulo e confirmada pela BBC News Brasil. O caso foi sorteado para o gabinete de Alexandre de Moraes e corre em sigilo.
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O candidato do PL também é alvo de outra investigação que apura possíveis crimes no repasse de quase R$ 70 milhões pelo Banco Master para financiar o filme Dark Horse, em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os potenciais desdobramentos das duas investigações podem ser impactados caso Flávio vença a eleição.
O caminho natural após um inquérito é que seja arquivado, caso faltem provas, ou que seja apresentada uma denúncia criminal. No entanto, a Constituição Federal prevê que, durante o mandato, o presidente "não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções".
O seja, se eventuais crimes praticados não estiverem relacionados com o exercício da Presidência, não pode ser aberto um processo criminal, explica o criminalista João Pedro Pádua, professor de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF).
"É uma questão em aberto se o presidente pode ser investigado [por atos estranhos ao mandato]. Em tese, sim, mas a denúncia teria de esperar o fim do mandato para ser sequer recebida", ressalta.
O professor ressalta que a prescrição dos crimes investigados fica suspensa neste período — em tese, os casos seriam retomados após o fim do mandato presidencial.
Flávio disputa o segundo turno da eleição no domingo (25/10) contra o presidente . Segundo o , ambos estão tecnicamente empatados nas sondagens eleitorais.
Entenda melhor a seguir as duas investigações contra o Flávio no STF, as suspeitas de vínculos com milicianos e o que aconteceu com o caso da "rachadinha", que foi arquivado.
Willer Tomaz
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O novo inquérito vai apurar suposto crime de lavagem de dinheiro por Flávio e seu amigo advogado Willer Tomaz.
A investigação mira suspeitas envolvendo plataformas de pagamento digital e o setor de apostas no Rio de Janeiro, quando o Estado era governado pelo aliado de Flávio, Cláudio Castro (PL). O ex-governador também é alvo no inquérito.
A apuração tem origem na análise do celular de Willer Tomaz, apreendido no início de agosto em uma operação da Polícia Federal para apurar o possível envolvimento do advogado no esquema que desviou bilhões do INSS — Flávio não é alvo desse outro inquérito.
No relatório que embasa a abertura do inquérito, a PF diz que encontrou no material analisado "referências a festas, encontros e reuniões envolvendo ambos [Tomaz e Flávio]".
Há também registro de vínculo em uma conta bancária em nome da empresa Alcazar Holding, na qual Flávio era mencionado como "usuário master".
Ainda segundo o relatório, foi identificado um grande volume de transações entre diferentes empresas e casas de apostas.
Apenas uma conta bancária de Willer chegou a movimentar "aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025", destaca o relatório.
"Verificou-se que o volume diário de apostas realizado pelo investigado [Tomaz] alcança cifras milionárias, em patamar muito superior ao normalmente esperado para uma atividade de jogo recreativa", diz ainda a PF.
Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo e da TV Globo, a PF também suspeita que uma "sala secreta" encontrada em agosto — após uma denúncia anônima — no hangar usado por aviões de Willer Tomaz no aeroporto de Brasília teria sido usada para guardar dinheiro vivo.
Os investigadores identificaram ainda suspeitas de que uma empresa de meio de pagamento de Tomaz, a Pixs Cobrança (posteriormente denominada RioPag), teria sido favorecida no governo de Cláudio Castro, realizado em 2023, para vencer um edital da Loterj para processar os pagamentos dos apostadores às empresas de apostas autorizadas pela autarquia.
Ainda segundo a PF, outra empresa de Tomaz, a Rede Loto, foi a primeira a obter autorização da Loterj para explorar apostas esportivas de quota fixa, com prazo inicial de até cinco anos.
O relatório aponta ainda que a Cathedral, uma holding do ramo de apostas online de propriedade de Tomaz, pagou viagens internacionais para Flávio e sua família.
Flávio reconhece ser amigo próximo de Willer Tomaz. Já era sabido que o senador e sua família com frequência viajam ao exterior de jatinho com o advogado. Segundo reportagem do jornal O Globo de 18 de setembro, ambos fizeram cinco viagens internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025, para destinos como Estados Unidos, África do Sul e Europa. Procurado na ocasião, o senador não respondeu sobre quem custeou as viagens.
Em uma delas, o candidato do PL viajou com sua família da Flórida (EUA) a Brasília em janeiro do ano passado em um jatinho que pertencia a Tomaz em sociedade com uma empresa de Daniel Vorcaro, banqueiro que está preso acusado de fraudes bilionárias no Banco Master. O advogado também estava no voo.
A BBC News Brasil procurou a assessoria de Flávio Bolsonaro, mas não obteve retorno.
Em nota enviada ao Estado de S. Paulo no domingo, o senador negou estar sendo investigado no STF.
"Os autos que chegaram à Corte sequer foram convertidos em inquérito, não houve manifestação da Procuradoria-Geral da República ou qualquer decisão judicial a respeito. Noticiar como 'novo inquérito' o que não passa de um expediente recém-autuado, pendente de análise, distorce a realidade e induz o leitor a erro", disse.
Por meio de nota à BBC News Brasil, o escritório de Willer Tomaz criticou o vazamento de informações sigilosas a poucos dias da eleição e disse que "todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda".
"Não há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas", reforçou.
"O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado. A relação entre os dois é de amizade entre famílias, e amizade não é crime", disse ainda.
Já Cláudio Castro respondeu à BBC News Brasil por meio de sua assessoria. O ex-governador disse que é amigo de Tomaz e o conhece desde 2020, mas nega ilegalidades. Informou ainda que o advogado atuou em sua defesa em alguns processos de graça.
"Cláudio Castro afirma que não praticou qualquer ato ilícito, não recebeu vantagem indevida e nega qualquer relação entre sua amizade com Willer e decisões administrativas do Governo do Estado", afirmou também.
Caso Master
Flávio Bolsonaro é alvo de um inquérito da Polícia Federal que apura suposta lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes no financiamento do filme Dark Horse junto ao Banco Master.
O senador negociou diretamente com o então banqueiro Daniel Vorcaro um contrato de cerca de R$ 134 milhões para financiar o filme sobre a vida de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Cerca de metade do valor foi de fato pago, segundo a PF, até que os desembolsos foram interrompidos com a liquidação do Master em novembro de 2025, após o Banco Central detectar fraudes bilionárias.
A suspeita da PF é que parte dos recursos repassados tenha sido desviada para outra finalidade. Até o momento, a produtora do filme não detalhou como os quase R$ 70 milhões recebidos foram gastos.
O dinheiro não foi diretamente para a produtora, mas para um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro nega qualquer ilegalidade. "Eu estou falando de um pedido de um patrocínio privado para um filme privado, sem absolutamente nenhuma contrapartida", afirmou na sexta-feira (15/10), durante sabatina da TV Globo.
Os contatos do senador com Vorcaro começaram no final de 2024 e se estenderam até mesmo após sua primeira prisão, em 17 de novembro de 2025. O senador chegou a encontrar o banqueiro em dezembro daquele ano, em sua casa, quando ele estava em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica.
Segundo Flávio, o encontro serviu apenas para encerrar a relação e o financiamento do filme.
Vorcaro foi preso novamente em março. Ele é suspeito de liderar fraudes bilionárias à frente do banco, que envolveram depósitos de grandes fundos de pensão de servidores estaduais e municipais.
Um deles foi o Rioprevidência, dos servidores estaduais do Rio de Janeiro, na época governado pelo aliado de Flávio, Cláudio Castro (PL). O fundo aplicou R$ 3,69 bilhões no Master e amarga prejuízos com a operação.
O inquérito que investiga Flávio pelo filme Dark Horse tramita no gabinete do ministro do STF, André Mendonça.
As acusações de vínculos com milicianos
O senador já enfrenta há anos acusações de vínculos com milicianos, após empregar em seu antigo gabinete de deputado estadual no Rio de Janeiro parentes de Adriano da Nóbrega — capitão expulso da Polícia Militar em 2014 por envolvimento com o jogo do bicho e que, depois, foi acusado de atuar como miliciano e chefiar o Escritório do Crime, especializado em assassinatos por encomenda.
Sua mãe, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), até serem exoneradas em 2018, quando o escândalo da "rachadinha" veio à tona.
Elas são suspeitas de terem participado de um esquema em que pessoas contratadas para atuar no gabinete atuariam como funcionários fantasmas e devolveriam parte dos seus salários a Flávio Bolsonaro.
No caso mais recente ligando o senador a milícias, o jornal Estado de S. Paulo revelou em setembro que o gabinete do senador enviou, em 2024, emenda parlamentar no valor de R$ 199 mil para um suposto projeto esportivo no Rio de Janeiro após pedido do miliciano Robson Calixto, conhecido como "Peixe", que foi condenado em fevereiro no STF por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ).
De acordo com a reportagem, "as informações fazem parte de investigação da Polícia Federal deflagrada em julho deste ano para apurar desvios de emendas enviadas a entidades do Rio de Janeiro vinculadas ao ex-deputado Chiquinho Brazão e ao ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão, condenados pela morte de Marielle Franco".
Dentro dessa apuração, a Polícia Federal encontrou no celular de Calixto diálogos sobre a liberação da emenda entre ele e uma assessora de Flávio Bolsonaro, Maria de Fátima Bezerra Castro.
Em resposta ao jornal, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que os recursos foram destinados dentro da legislação vigente, sem comentar os diálogos de sua assessora com o miliciano.
"A emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei", diz a nota.
Rachadinha, o caso arquivado
Flávio Bolsonaro entrou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 2003 e cumpriu quatro mandatos. No último ano, em 2018, quando foi eleito senador e seu pai presidente, foi revelado o escândalo da rachadinha.
O caso veio à tona após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontar movimentação milionária na conta de Fabrício Queiroz, chefe de gabinete de Flávio na Alerj, incompatível com seu salário.
Depois, em 2020, Queiroz foi acusado na denúncia do Ministério Público de ser o operador de um esquema que recolhia parte do salário dos funcionários do antigo gabinete de Flávio em benefício do parlamentar, o que configuraria a chamada rachadinha.
Segundo a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam, no total, R$ 6,1 milhões, em valores da época. Desse montante, o Ministério Público afirma que ao menos R$ 2 milhões foram comprovadamente para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados à organização criminosa por meio de saques em espécie.
Entre as ações suspeitas estavam depósitos fracionados em dinheiro vivo feitos por Queiroz na conta do atual senador e de sua esposa que, segundo a denúncia, coincidiram com o vencimento de parcelas de financiamentos para adquirir dois imóveis no Rio de Janeiro.
Além disso, os promotores identificaram que Queiroz pagou com dinheiro vivo 169 boletos referentes a pagamentos da escola das filhas de Flávio Bolsonaro e do plano de saúde da família entre 2013 e 2018, somando R$ 247 mil, em valores da época.
Durante as investigações, Queiroz admitiu que recebia parte dos salários dos funcionários, mas disse fazer isso sem anuência de Flávio, o que não convenceu o Ministério Público. Na versão de sua defesa, os recursos eram usados para contratar informalmente outras pessoas para atuar em apoio à atuação parlamentar do então deputado estadual.
"Nunca teve início um processo criminal contra mim. Eu nunca respondi criminalmente por isso. Foram mais de 30 assessores meus que foram investigados, quebra de sigilo de 11 anos para trás. Essa devassa", disse Flávio Bolsonaro em abril, ao responder sobre as acusações em entrevista ao podcast Inteligência Ltda..
"O que o Queiroz tinha ali no gabinete, ele cuidava de uma parte da minha assessoria que trabalhava em rua, fazia panfletagem, fazia eventos e tal, e ele tinha autonomia sobre esse pessoal e ele fala que ele fazia isso", continuou, repetindo a versão de Queiroz de que o dinheiro que recebeu de funcionários do gabinete de Flávio não era "rachadinha", mas servia para ele contratar mais pessoas informalmente.
Para o filho mais velho de Bolsonaro, as denúncias eram perseguição política para atingir o governo do pai.
"Eu passei 16 anos da minha vida sem ter uma acusação de nada. Bastou o presidente se eleger que começam a aparecer as narrativas".
Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2019 pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, porém, foi paralisado por decisões judiciais sem que o mérito das acusações fosse julgado, após controvérsias em torno do foro privilegiado do senador e da legalidade das provas.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, anulou decisões da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro que permitiram a quebra de sigilo bancário e fiscal do parlamentar e de pessoas relacionadas a ele, porque considerou que a medida não foi devidamente fundamentada.
Já o STF anulou relatórios feitos pelo Coaf que embasaram a investigação e as provas decorrentes deles, porque entendeu que o órgão não poderia produzir relatórios de inteligência financeira contra suspeito que ainda não tenha sido incluído formalmente em procedimento investigatório.
Procurado pela BBC News Brasil em maio, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado após o ministro do STF Gilmar Mendes rejeitar um recurso pedindo a reabertura da investigação em fevereiro de 2025.