Após reações à proibição de bets, governo prepara auxílio de R$ 20 bilhões para clubes
A reação de clubes e torcedores à proibição das bets levou a gestão Lula a preparar às pressas um auxílio bilionário aos times. Isso porque a Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lulada Silva (PT) nove dias antes do primeiro turno das eleições, pode derrubar uma das principais fontes de receita de no mínimo 14 dos 20 clubes da Série A.
Nos dias pós-proibição, clubes têm apontado insegurança jurídica em relação à forma como o governo conduziu o veto e alegado risco de prejuízos e insolvência.
Já entre torcedores, grupos de diversas agremiações levaram o debate à campanha. Nas redes sociais, torcedores de diferentes clubes passaram a relacionar a medida às eleições. A expressão "Mudei meu voto" também passou a circular em publicações críticas à decisão do governo.
Para conter as manifestações críticas às vésperas das eleições, o Planalto costura uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para os clubes a ser financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O governo agendou para esta terça-feira (29) uma reunião com representantes de clubes de futebol que deve definir os detalhes do auxílio.
Clubes apontam insegurança jurídica e falam em "terra quase arrasada"
No Flamengo, o presidente Luiz Eduardo Baptista estimou perdas entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões no orçamento do próximo ano. O Fluminense alertou para seis meses de estoque de camisas com a marca do patrocinador e defendeu um período de transição.
O Corinthians falou em "terra quase arrasada" e pediu ao menos 90 dias antes de o veto entrar em vigor para os clubes reestruturarem seus planejamentos. No Vila Nova, atual líder da Série B, o vice-presidente financeiro Hugo Jorge Bravo previu atrasos de salários e cortes drásticos.
Em nota oficial, o Flamengo lembrou que empresas pagaram para operar legalmente, com fiscalização e tributação. Aperfeiçoar regras, diz o clube, é diferente de desmontá-las. O Fluminense acrescentou que o mercado regulado gerou bilhões em tributos para esporte, seguridade social, segurança pública, educação e saúde.
Presidenciáveis criticam maneira como Lula proibiu bets
Adversários de Lula na corrida à presidência da República criticaram o que classificaram como "oportunismo eleitoral" da medida, mas evitaram se opor à proibição das bets. O veto às empresas de apostas online é uma pauta popular, apoiada por cerca de 75% da população, segundo pesquisa da AtlasIntel divulgada na semana passada.
"Eu falo que bet é a cocaína digital. Viciou todo mundo, destruiu famílias e endividou o brasileiro — e por que ele não cancelou logo depois, quando viu que o mal já estava acontecendo? É na véspera de eleição que ele está fazendo isso", questionou Romeu Zema (Novo) neste domingo (27).
"A decisão foi oportunista, mas realmente isso [as bets] vem, sem dúvida alguma, destruindo a sociedade brasileira", disse Ronaldo Caiado (PSD).
Renan Santos (Missão) apostou na caducidade da medida: "Essa MP vai caducar, porque o Congresso é todo comprado pelas bets. Volta tudo ao normal. É só uma medida eleitoreira do Lula para fingir que se preocupa com brasileiros que estão se endividando e ficando viciados em bets."
Já Flávio Bolsonaro (PL) chamou a proibição de "fraude eleitoral".
Bets recorrem ao STF contra proibição: "efeitos irreversíveis"
O Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), principal associação do setor, protocolou nesta segunda-feira (28) pedido de urgência no Supremo Tribunal Federal para suspender a MP do governo. A entidade argumenta que a proibição pode provocar "efeitos irreversíveis" antes mesmo da análise do Congresso, que tem 120 dias para aprovar ou rejeitar a medida.
O IBJR invoca princípios de liberdade econômica, concorrência e segurança jurídica. Diz que a proibição gera "deterioração" da confiança no ambiente de negócios, já que as empresas do setor fizeram investimentos, pagaram impostos e contrataram funcionários.
"Frustra os direitos adquiridos das operadoras que, de boa-fé, acreditaram nas promessas regulatórias do Estado", afirma o texto, em referência à lei de 2023 que concedeu licenças de cinco anos às empresas autorizadas.
A associação acusa o governo de agir de forma unilateral e sem critério técnico, além de retirar atribuições do Congresso na definição de políticas públicas.
Bets são responsáveis por até 73% das receitas de marketing de clubes
Segundo levantamento do Centro Universitário de Brasília (CEUB), 32 dos 60 times das três primeiras divisões têm patrocínio de bets: 14 na Série A, 11 na Série B e sete na Série C. Na elite, só seis clubes não exibiam a marca de apostas — Athletico Paranaense, Bahia, Coritiba, Red Bull Bragantino, Mirassol e Internacional.
As plataformas pagaram R$ 1,143 bilhão aos 20 maiores clubes em 2025, cerca de 34% da receita de marketing desses times, com picos de 73% no São Paulo, segundo a Sports Value.
O veto, entretanto, atinge um futebol já endividado: os clubes da Série A têm R$ 17,3 bilhões em dívidas, 15% a mais do que no ano anterior, segundo levantamento feito pela Convocados Gestão e Futebol e pela Outfield.
Posicionamento do governo
A Gazeta do Povo pediu posicionamento à Secretaria de Comunicação do governo federal, assim como ao Ministério da Fazenda e ao BNDES, com questionamentos sobre o auxílio aos clubes. Até a publicação, os órgãos não haviam respondido aos questionamentos.