Relatório do Senado dos EUA revela como criptomoedas ajudam o Irã a driblar sanções

28 de Set de 2026 - 21:40
 0  0
Relatório do Senado dos EUA revela como criptomoedas ajudam o Irã a driblar sanções

Uma investigação conduzida por senadores dos Estados Unidos revelou nesta segunda-feira (28) como redes ligadas ao regime do Irã vêm utilizando criptomoedas atreladas ao dólar para movimentar recursos fora do sistema bancário tradicional, contornar sanções internacionais e financiar organizações aliadas no Oriente Médio.

O levantamento da Subcomissão Permanente de Investigações do Senado analisou dados de transações de 846 carteiras de criptomoedas que haviam sido sancionadas ou alvo de medidas de apreensão por autoridades americanas e israelenses devido a vínculos com o Irã e organizações apoiadas por Teerã.

Segundo o relatório, 84% dessas carteiras fizeram transações exclusivamente ou quase exclusivamente em USDT, uma criptomoeda emitida pela empresa Tether cujo valor acompanha o dólar americano. Os investigadores afirmam que o ativo se tornou uma importante ferramenta da rede financeira paralela utilizada pelo regime iraniano.

Diferentemente de criptomoedas como o bitcoin, cujo preço pode sofrer grandes oscilações, o USDT é uma chamada stablecoin: cada unidade busca manter valor equivalente a US$ 1. Isso permite transferir valores digitalmente entre países mantendo uma referência em dólar, sem depender diretamente de uma transferência bancária internacional tradicional.

Para o Irã, submetido a amplas restrições financeiras dos Estados Unidos, esse tipo de operação abre uma alternativa para movimentar recursos para dentro e para fora do país. O relatório aponta que as transações também foram utilizadas em operações relacionadas ao Banco Central iraniano e em esforços para sustentar a moeda do país diante das sanções.

Rede também alcança Hezbollah e compra de equipamentos militares

Os investigadores afirmam que a mesma estrutura de pagamentos conecta interesses do regime iraniano a organizações apoiadas por Teerã, incluindo o Hezbollah.

O levantamento encontrou ainda evidências de que redes financeiras baseadas em criptomoedas foram utilizadas em operações relacionadas à compra e venda de drones e outros equipamentos militares.

Richard Blumenthal, senador democrata e principal representante de seu partido na Subcomissão Permanente de Investigações, afirmou que o levantamento mostra que o USDT se tornou parte importante do que chamou de “sistema bancário paralelo” do Irã.

O parlamentar encaminhou as conclusões ao Departamento do Tesouro e ao Departamento de Justiça e pediu que as duas pastas do governo do presidente Donald Trump investiguem as práticas da Tether relacionadas ao combate à lavagem de dinheiro e ao cumprimento das sanções americanas.

O relatório também critica a empresa por, segundo os investigadores, não ter bloqueado de maneira suficientemente rápida algumas carteiras associadas a atividades ilícitas. Os democratas da subcomissão afirmam que, antes de 2024, a Tether não congelava de forma abrangente e consistente endereços identificados por autoridades de combate ao terrorismo.

Tether diz ter bloqueado quase US$ 550 milhões ligados ao Irã

A Tether contestou a ideia de que sua criptomoeda funcione como um porto seguro para organizações sancionadas e divulgou nesta segunda-feira dados sobre sua cooperação com autoridades americanas.

A empresa afirmou ter ajudado a congelar aproximadamente US$ 550 milhões em USDT mantidos em carteiras identificadas pelas autoridades dos Estados Unidos como relacionadas ao Banco Central iraniano e a redes usadas para contornar sanções somente em 2026. Em abril, segundo a empresa, mais de US$ 344 milhões foram bloqueados em dois endereços após informações fornecidas por autoridades americanas. No dia seguinte, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) vinculou formalmente os endereços ao Banco Central do Irã.

Em julho, outros mais de US$ 130 milhões foram congelados em quatro carteiras identificadas pelo Tesouro americano.

O presidente-executivo da Tether, Paolo Ardoino, afirmou que as transações realizadas em blockchains públicas podem ser rastreadas e que a companhia consegue bloquear recursos quando recebe informações consideradas confiáveis das autoridades.

“A Tether tem demonstrado consistentemente que o USDT não é um porto seguro para atores sancionados, organizações terroristas ou redes criminosas”, afirmou Ardoino.

EUA intensificaram ofensiva contra criptomoedas usadas pelo regime

As conclusões do Senado aparecem em meio a uma ofensiva do governo americano contra estruturas digitais utilizadas pelo regime iraniano para movimentar dinheiro. Em junho, o Departamento do Tesouro sancionou a Nobitex, maior plataforma iraniana de negociação de ativos digitais. Segundo o governo americano, a empresa processou mais da metade de todas as entradas de ativos digitais no Irã em 2025 e participou de operações associadas à Guarda Revolucionária, à evasão de sanções e ao Banco Central iraniano.

Em agosto, o Tesouro voltou a atingir plataformas digitais que, segundo Washington, eram utilizadas pelo regime para lavar bilhões de dólares, manter acesso clandestino ao sistema financeiro internacional e apoiar a Guarda Revolucionária. A ofensiva avançou novamente neste mês. No dia 17, o Tesouro sancionou a plataforma iraniana BitBank e afirmou que uma rede comandada pelo financista Babak Zanjani havia utilizado estruturas de ativos digitais para transferir centenas de milhões de dólares em bitcoin à Guarda Revolucionária.