As tensões e incertezas que envolvem discurso de Lula na ONU
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- e
- Author,
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
- Published Há 58 minutos
- Tempo de leitura: 7 min
O presidente chega à Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira (22/09) em um momento particularmente delicado da : a duas semanas das eleições brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma nova rodada de sanções do governo contra autoridades brasileiras.
Não há uma reunião bilateral entre Lula e Trump prevista na agenda. Até agora, nenhum dos dois governos apresentou um pedido formal para um encontro, segundo informações obtidas pela BBC News Brasil.
Mas uma conversa informal não está descartada. Como ocorre tradicionalmente desde 1955, do debate geral da ONU. Trump, como presidente do país anfitrião, falará logo depois. A disposição da agenda cria a possibilidade de que os dois se encontrem nos corredores do evento, como ocorreu no ano passado.
O próprio presidente já antecipou durante a campanha que gostaria de falar com Trump em Nova York e pedir que ele não interfira nas eleições brasileiras.
"Na ONU eu sou primeiro a falar, depois que eu falo fala o Trump. Ele vai estar atrás de mim olhando eu falar e depois eu vou ficar olhando ele falar. Eu vou falar, 'ou baixinho', ele é mais alto que eu, 'eu vou dizer: eu não me meto nas eleições americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano, você foi eleito e eu respeito o resultado das eleições. Por favor, não mexa com filho da dona Lindu porque eu gosto de todo mundo, de respeitar e gosto de ser respeitado", disse Lula em um ato de campanha em Porto Alegre na semana passada.
A BBC News Brasil vai transmitir ao vivo o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, com cobertura pelo site e pelo
O que esperar da fala de Lula?
Segundo a versão mais recente do discurso, o presidente brasileiro não deve mencionar Trump nominalmente — ao menos não em tom de crítica.
A devem ocupar posição de destaque, segundo membros do governo e diplomatas envolvidos no planejamento. O presidente também pretende defender o multilateralismo e mudanças na estrutura da ONU, além de abordar as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a situação em Gaza.
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Outro assunto que ganhou importância nos últimos dias é o . A expectativa é que Lula defenda a cooperação internacional no enfrentamento às facções, mas preserve a ideia de que políticas de segurança dentro do território brasileiro devem respeitar a soberania do país.
O tema ganhou uma dimensão especialmente sensível na relação com Washington após o governo Trump classificar as organizações brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas, elevando as preocupações do Planalto com eventuais iniciativas americanas que possam ser interpretadas como interferência em assuntos domésticos.
Nas relações comerciais, Lula deverá criticar a imposição unilateral de barreiras tarifárias, sem necessariamente transformar a fala em um ataque direto ao governo americano.
A intenção, segundo pessoas familiarizadas com as discussões, é encontrar um equilíbrio: Lula quer apresentar uma defesa enfática da autonomia brasileira, mas evitar um confronto que prejudique a tentativa de melhorar as relações com Washington.
Esse cálculo ganhou uma dimensão adicional com a proximidade das eleições. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, apenas 12 dias depois do discurso de Lula na ONU.
Analistas avaliam que é praticamente impossível separar completamente o pronunciamento internacional da campanha doméstica, ainda que o governo sustente que a fala não terá caráter eleitoral.
Para Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, um confronto direto com Trump traria poucos ganhos diplomáticos ao Brasil. Ao mesmo tempo, o momento eleitoral impede que o presidente brasileiro pense apenas na repercussão internacional de suas palavras.
"Um confronto direto com Trump teria pouco benefício diplomático para o Brasil. Ao mesmo tempo, Lula chega à ONU a poucos dias das eleições, então o público doméstico tem um peso grande neste discurso. Eu esperaria uma defesa bastante clara da soberania e da democracia, mas não necessariamente com uma fala nominal contra Washington", afirma.
Mas segundo a especialista, a busca de Lula por uma relação funcional com Trump e a defesa da soberania brasileira diante do eleitorado não são necessariamente estratégias excludentes.
"Lula pode buscar uma relação pessoal funcional com Trump e, ao mesmo tempo, enfatizar perante o eleitorado brasileiro que existem limites claros para essa aproximação", diz ela. "O cálculo é evitar uma escalada que prejudique interesses econômicos e diplomáticos brasileiros, mas sem dar a impressão internamente de que o Brasil está cedendo."
Um encontro informal?
É também sob essa lógica que ganha importância a possibilidade de um encontro entre os dois presidentes nos bastidores da ONU.
Para Andreza Aruska, em um evento altamente coreografado como a Assembleia Geral, mesmo encontros aparentemente casuais dificilmente podem ser considerados inteiramente espontâneos.
"Um encontro rápido não produziria necessariamente resultados concretos imediatos, mas teria importância como sinal de que os canais de diálogo permanecem abertos", diz a professora de Estudos Brasileiros e Latino-Americanos da King's College.
Segundo fontes no Planalto, apesar de uma reunião oficial não estar prevista, se o governo sentir que há brecha para uma conversa mais longa, não há óbice para que isso aconteça.
Já nos bastidores, o governo Lula vem procurando caminhos alternativos para se aproximar do presidente americano, diante do entrave atual nas negociações.
A avaliação de integrantes do governo brasileiro é de que a interlocução tradicional com o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, encontra obstáculos políticos, particularmente diante da atuação de aliados de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos [leia mais adiante].
Segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil, uma das estratégias alternativas adotada pelo governo brasileiro atualmente é recorrer a empresários que tenham acesso direto a Trump.
Entre os nomes que tiveram contato com o presidente americano nos últimos meses estão o empresário Joesley Batista, da JBS, e o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. O governo evita, porém, identificar publicamente quem estaria participando de contatos em seu nome.
O risco de novas sanções contra ministros do STF
Há ainda outro elemento de incerteza: a possibilidade de o governo Trump anunciar novas medidas contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) durante a passagem de Lula por Nova York.
A 17 dias da eleição presidencial, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro — filho do ex-presidente e irmão do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) — e o empresário Paulo Figueiredo , responsável pelas relações internacionais do país.
A dupla aproveitou a viagem para fazer pressão para que o governo Trump retome sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e também estenda as medidas aos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes.
Em julho do ano passado, , que pune estrangeiros por graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.
O magistrado, seus familiares e outros integrantes do STF também tiveram seus vistos suspensos.
Também em 2025, em agosto, servidores públicos federais que participaram da implementação do programa Mais Médicos, criado em 2013, foram atingidos pela revogação de vistos.
Posteriormente, foi a vez do então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, terem seus vistos suspensos. O episódio impactou, inclusive, a passagem de Lula por Nova York para discursar na sessão passada da Assembleia Geral da ONU.
Enquanto Lewandowski recebeu um novo visto especificamente para integrar a comitiva de Lula para o evento, Padilha desistiu da viagem após o governo americano lhe conceder apenas um visto com fortes restrições de circulação.
Dentro do governo brasileiro, existe a expectativa de que ministros do Supremo Tribunal Federal possam ser novamente alvo de sanções americanas.
O principal nome em torno do qual se concentram as preocupações é o de Alexandre de Moraes.
O governo brasileiro ainda avalia como responderá caso Washington anuncie novas punições durante a visita de Lula.
Para Andreza Aruska, da King's College, uma nova ofensiva americana contra autoridades pode ter um impacto negativo para o governo Trump e seus aliados no Brasil.
"Existe esse risco para o governo Trump, porque interferência externa pode alimentar uma reação de defesa da soberania nacional e oferecer a Lula um enquadramento politicamente útil. Isso já apareceu no debate sobre as tarifas", opina a analista.
Aruska ressalta, porém, que o efeito não é necessariamente unidirecional. "Quando Trump amplia a pressão para temas como segurança pública e crime organizado, ele toca numa área em que o governo Lula também enfrenta críticas domésticas", diz.
"Portanto, a mesma intervenção externa pode fortalecer o discurso de soberania de Lula e, simultaneamente, recolocar na agenda temas potencialmente desfavoráveis ao governo."
Tarifaço continua na mesa
Mesmo que Lula e Trump não conversem em Nova York, a negociação entre os dois governos terá um novo capítulo poucos dias depois.
Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, representantes brasileiros e americanos deverão discutir as tarifas durante uma reunião de ministros da área de comércio e indústria do G20 em Milwaukee, no Estado americano de Wisconsin.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, deverá se reunir com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. O chanceler Mauro Vieira também deve participar da viagem.
Será a primeira reunião presencial entre os responsáveis pelas negociações desde a retomada formal das conversas. As equipes técnicas dos dois países vêm trocando documentos, mas Elias Rosa afirmou que ainda não há um esboço de acordo.
Segundo fontes do governo brasileiro ouvidas pela BBC News Brasil, Brasília não espera uma reversão ampla das tarifas nessa rodada. A aposta mais realista é conseguir aumentar a lista de produtos brasileiros que ficam fora das sobretaxas.
Mesmo um avanço limitado seria interpretado internamente como um sinal de que a estratégia de manter o diálogo com Trump começa a produzir resultados.