'Bela e poderosa': por que todos nós precisamos da gordura corporal
- Author, Melissa Hogenboom
- Role, BBC Future
- Published Há 21 minutos
- Tempo de leitura: 9 min
A gordura é algo indesejado há anos.
A cultura das dietas nos manda queimá-la. Algumas empresas alimentícias nos vendem produtos com baixo teor de gordura. E os fóruns de levantamento de peso compartilham dicas sobre como ter o mínimo de gordura corporal possível.
Basta passar alguns instantes nas para encontrar conselhos sobre como ficar "com o corpo definido", ou seja, com um físico vigoroso e músculos extremamente bem definidos.
Neste ano, os especialistas passaram a se preocupar com o ressurgimento da tendência à . Em alguns casos, ela é alimentada pela popularidade das .
O excesso de gordura traz preocupações de saúde e pode levar à . Mas ter pouca gordura também não faz bem. Ter como objetivo eliminar totalmente a gordura pode ser biológica e socialmente prejudicial, segundo diversos especialistas.
"Precisamos amar nossa gordura", afirma a endocrinologista e professora de medicina Elif Oral, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. "Ela desempenha uma função biológica muito importante."
Mas de quanta gordura precisamos? E por que ter pouca gordura pode nos fazer mal?
- 23 agosto 2026
- 26 julho 2026
- 9 junho 2026
Por que a gordura corporal é importante
De forma geral, existem dois tipos diferentes de gordura: a gordura alimentar e a gordura corporal.
Fim da Promoção da eleição 2026
A gordura alimentar é aquela que você ingere na alimentação. A gordura corporal é a forma encontrada pela natureza para armazenar a energia de que você não precisa.
Quando você come uma refeição, as gorduras alimentares, os carboidratos e as proteínas do alimento são decompostos em blocos de construção simples, que o seu corpo pode usar como combustível. Os carboidratos se transformam em glicose, as proteínas se tornam aminoácidos e as gorduras assumem a forma de ácidos graxos.
Se você comer frequentemente mais calorias do que consome, as células de gordura (conhecidas como adipócitos) . Com isso, elas aumentam de tamanho.
Mas, em vez de permanecerem passivamente no corpo, sabemos, agora, que a gordura corporal é um que regula as funções do corpo.
Como na história de Cachinhos Dourados e os três ursos, o nosso corpo funciona melhor quando tudo está "na medida certa". A escassez e os grandes excessos são prejudiciais para a nossa saúde.
Podemos pensar na nossa gordura corporal como um cofre de armazenamento especializado, que absorve os nutrientes quando há energia demais e os libera apenas quando eles são necessários, explica o professor de pesquisa clínica e experimental do tecido adiposo Mikael Ryden, do Instituto Karolinska, na Suécia.
A gordura é um sistema que em períodos de escassez alimentar.
Outro papel importante é a comunicação.
As que dizem ao resto do corpo quanta energia nós temos e até que ponto estamos satisfeitos. O mais estudado desses hormônios é a , segundo Elif Oral.
"A leptina informa ao cérebro que há armazenamento de energia suficiente e, com isso, o cérebro pode quase relaxar", explica ela.
Este processo permite que o corpo se concentre em processos biológicos importantes, como a reprodução e o combate a infecções. Mas, sem a leptina, o cérebro começa a se preocupar com a quantidade de , fazendo com que as funções essenciais comecem a perder prioridade.
A gordura corporal também é importante para preservar o calor do corpo.
A gordura branca armazena o excesso de energia, mas também age como camada de isolamento. Paralelamente, a gordura contém células especializadas que queimam energia para produzir calor, o que ajuda o corpo a manter sua temperatura.
O que acontece quando temos pouca gordura?
As consequências à saúde de ter gordura demais são . Elas incluem o maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, certos tipos de câncer e osteoartrite. Mas ter muito pouca gordura também não é bom.
A queda da gordura corporal para níveis muito baixos, devido à severa restrição de calorias, pode causar efeitos profundos para a nossa saúde e fisiologia, explica a estudante de pós-graduação Jessica Maung, pesquisadora de doenças metabólicas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
"Ter muito pouco tecido adiposo gera perturbações das funções do corpo e dos órgãos", explica ela.
Quando o corpo tem pouca gordura, ele reage tentando . Basicamente, o corpo entra em modo de inanição.
Com isso, os sistemas começam a se desligar, incluindo nossa função imunológica. E, sem ter reservas, o corpo começa a decompor músculos e a construção e os reparos dos ossos .
Este processo resulta em fragilidade e aumento do , segundo o professor de medicina metabólica Fredrik Karpe, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
"Esta não é uma situação saudável", segundo ele, especialmente porque deixa o corpo sem reservas para enfrentar infecções sérias ou outras emergências médicas.
Ter pouca gordura também pode afetar os hormônios e a saúde reprodutiva.
Em homens que ficam extremamente magros por se alimentarem de forma cronicamente insuficiente, a , bem como os níveis de energia e o desempenho físico. E algumas mulheres atletas com muito pouca gordura corporal vivenciam irregularidade ou interrupção da menstruação.
Diversos estudos associaram o excesso de peso na meia-idade e entre os idosos a no caso de doenças críticas.
As pessoas com obesidade são mais propensas a sofrer de doenças cardiovasculares, por exemplo, mas a sua probabilidade de morrer devido a elas é menor do que entre os indivíduos mais magros. Este fenômeno é conhecido como .
Uma camada de reservas de gordura aparentemente eventos cardíacos sérios, AVCs e outras doenças agudas, segundo Elif Oral.
Em casos extremos, ter pouca gordura pode gerar graves consequências ou ser fatal. A condição de saúde mental conhecida como , por exemplo, pode gerar danos permanentes aos órgãos ou até a morte.
De quanta gordura realmente precisamos?
É surpreendentemente difícil avaliar a quantidade de gordura que temos no corpo. E também , pois as necessidades variam para cada indivíduo.
Mas, , os homens adultos saudáveis costumam ter cerca de 10-20% de gordura corporal. Já as mulheres adultas saudáveis tendem a ter cerca de 20-29% e as pessoas que vivem com obesidade costumam ter gordura corporal acima de 30%.
Em termos de qual seria o ideal, "é muito difícil definir exatamente uma faixa", segundo Ryden. "Ela pode variar entre as pessoas, de acordo com o sexo e a etnia."
Entre os atletas, a quantidade típica de gordura corporal tende a ser mais baixa.
Nos seus estudos, a pesquisadora do desempenho esportivo Tamara Hew-Butler, da Universidade Estadual Wayne em Detroit, nos Estados Unidos, e seus colegas examinaram . Para isso, eles usaram um scanner Dexa, que mede a composição do corpo, incluindo a gordura interna.
"Os que já encontramos em atletas foram de 10% em um homem e 16% em uma mulher", afirma ela.
Alguns dos participantes ficaram surpresos com este resultado, segundo Hew-Butler, pois os atletas do estudo se exercitavam regularmente. Eles acreditavam que sua gordura corporal fosse entre 1% e 2%.
O local onde você armazena a gordura também é importante. A gordura visceral, também conhecida como abdominal, é especialmente prejudicial em quantidades excessivas.
Ao contrário da gordura que fica sob a pele, a gordura visceral envolve órgãos internos vitais e libera substâncias inflamatórias, que e interferem com a insulina. Com isso, ela dificulta o controle do açúcar do sangue pelo corpo, aumentando o risco de diabetes tipo 2.
Como medir a gordura
Existem algumas formas de medir a quantidade de gordura corporal.
As avaliações mais detalhadas vêm dos scanners corporais completos Dexa. Eles conseguem diferenciar a gordura do corpo, a massa muscular magra e a massa óssea. Mas é necessário utilizar equipamentos especializados, que podem ser caros.
Um teste doméstico popular é o teste de dobra da pele. Ele envolve a medição da espessura da camada de gordura logo abaixo da pele, pressionando-a com um par de pinças especialmente projetado para esta função.
Mas só consegue medir a espessura de dobras de gordura em partes específicas do corpo. A gordura visceral não pode ser medida diretamente desta forma.
E os testes de dobra da pele não são particularmente precisos e podem fornecer números baixos e ilusórios.
Outra opção doméstica é o uso de balanças inteligentes. Elas enviando uma corrente elétrica baixa através do corpo, para estimar a massa de gordura.
Mas as leituras são influenciadas pela quantidade de fluido que temos no nosso corpo. Por isso, elas não são consideradas precisas para medir os níveis de gordura. E também não conseguem dizer onde ela está armazenada, nem diferenciar entre a gordura abdominal e os demais tipos.
Na verdade, tentar medir os níveis de gordura em detalhes para manter o corpo saudável. Mas existem duas medições que podem ajudar a manter o peso saudável e acompanhar onde a gordura está sendo armazenada.
Uma fita métrica pode ajudar a oferecer uma visão rápida. A mede a quantidade de gordura abdominal central em relação à altura.
Depois de medir a circunferência da cintura, você pode usar uma para descobrir esta razão. Uma faixa saudável é entre cerca de .
A razão entre a cintura e os quadris também pode fornecer uma boa indicação. Para obter este número, meça a cintura na altura do umbigo e divida pela medida da parte mais larga dos seus quadris, ou use uma .
Medidas acima de 0,90 para os homens e 0,85 para as mulheres são consideradas altas, pois o excesso de gordura em torno da cintura é um indicador de .
O índice de massa corporal (IMC) a gordura corporal, pois não consegue diferenciar entre o teor de gordura e de músculos do corpo. Por isso, pessoas com grande percentual de músculos e muito pouca gordura podem ter IMC alto.
Você pode desejar acompanhar mais de perto sua durante o envelhecimento. Nossa massa de gordura tende a aumentar, enquanto os níveis de músculos e ossos diminuem.
Como este processo pode causar prejuízos à saúde, é importante comer bem, fazer exercícios e praticar .
Mas precisamos aprender a valorizar as importantes funções da gordura, que são muitas, sem ficarmos obcecados por objetivos extremos em relação à sua quantidade. O importante é ter a quantidade certa, sem lutar para reduzi-la ao máximo possível.
Como diz Elif Oral, "acreditamos que a gordura é bela e poderosa".
Melissa Hogenboom é repórter de saúde da BBC e autora dos livros ("Provedoras", em tradução livre) e The Motherhood Complex ("O complexo da maternidade"). Sua conta no Instagram é .
Leia a (em inglês) no site .