Benito di Paula tratava câncer de próstata há um ano; entenda a evolução da doença
O cantor, compositor e pianista Benito di Paula morreu neste domingo, 18, aos 84 anos, na cidade de São Paulo, devido a complicações de um câncer de próstata que o artista tratava há cerca de um ano.
Autor de sucessos como Retalhos de Cetim e Charlie Brown, Benito tinha o piano como marca registrada e entrou para a história do samba e da música brasileira.
O câncer de próstata é o segundo tipo de tumor mais frequente entre os homens brasileiros, atrás apenas do câncer de pele não melanoma.
Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 77.920 novos casos no país. A idade é um dos principais fatores de risco, e a incidência e a mortalidade aumentam significativamente a partir dos 60 anos.
Qual a história natural do câncer de próstata?
Aninhada logo abaixo da bexiga e à frente do reto, a próstata é a glândula responsável por produzir parte do líquido que compõe o sêmen. O câncer surge quando suas células passam a se multiplicar de maneira descontrolada.
Na fase inicial, o tumor costuma estar restrito à próstata e, muitas vezes, cresce lentamente, sem provocar sintomas. Nessa janela, a doença tem altas taxas de cura por meio de cirurgia ou radioterapia.
Aliás, em alguns casos de baixo risco, é possível apenas acompanhar a evolução com exames periódicos, sem iniciar imediatamente uma intervenção.
À medida que avança, porém, o tumor pode ultrapassar os limites da próstata e invadir tecidos próximos, como as vesículas seminais, glândulas responsáveis por produzir boa parte do sêmen.
Em situações mais graves, células cancerosas podem se espalhar pela corrente sanguínea ou pelos vasos linfáticos e atingir outras partes do corpo — o processo conhecido como metástase.
“É comum que a doença permaneça localizada por meses ou anos antes de avançar para estruturas próximas e, posteriormente, desenvolver metástases”, explica André Bacellar, oncologista da Oncoclínicas.
Apesar disso, mesmo quando a doença ultrapassa os limites da próstata, ainda há possibilidade de tratamento com intenção curativa. Por isso, o termo “avançado” não significa necessariamente que o câncer seja incurável.
“Com os avanços tecnológicos, tanto na cirurgia quanto na radioterapia, também é possível adaptar a abordagem às características de cada caso, aumentando as chances de sucesso”, diz Bacellar.
O prognóstico (isto é, a evolução da doença), portanto, varia conforme a extensão da invasão e a agressividade do tumor. “Quando a doença é descoberta em sua fase inicial, o prognóstico costuma ser muito bom”, reforça o médico.
O que acontece quando o câncer se espalha
De modo geral, o câncer de próstata costuma evoluir lentamente, explica Denis Leonardo Jardim, oncologista clínico do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas.
“Em muitos casos, podem transcorrer de 10 a 20 anos entre o surgimento da lesão na próstata e o desenvolvimento de estágios mais avançados”, detalha.
Essa estimativa, no entanto, não vale para todos os pacientes, visto que o comportamento da doença é muito individual.
“Existem tumores indolentes, que não chegam a representar uma ameaça à vida do homem, enquanto outros são agressivos e podem produzir metástases em poucos anos”, explica o médico.
Quando ocorre a metástase, o destino mais frequente do câncer de próstata costuma ser os ossos. Além disso, a doença pode alcançar os linfonodos (as “ínguas”, estruturas em formato de feijão que fazem parte do sistema imunológico) e outros órgãos.
Nessa fase, as manifestações da doença dependem da localização e da extensão das lesões. Entre os sintomas, o comprometimento dos ossos pode provocar dor persistente e aumentar o risco de fraturas.
À medida que o quadro se agrava, o paciente pode encarar anemia, perda severa de peso, fadiga e dificuldade para andar. Por sua vez, a obstrução do fluxo urinário, típica do quadro, também pode prejudicar os rins.
Como é feito o tratamento
O arsenal de ataque para a fase metastática baseia-se na terapia para bloqueio da produção de hormônios masculinos, que corta o “combustível” do tumor, muitas vezes associada à quimioterapia e terapia-alvo.
Embora a cura seja menos provável quando há disseminação para órgãos distantes da próstata, muitos pacientes conseguem controlar a doença, mantendo o tumor em rédea curta, por longos períodos.
Segundo a American Cancer Society, com base em dados dos Estados Unidos, a sobrevida relativa em cinco anos após o diagnóstico do câncer se aproxima de 100% para a maioria dos homens diagnosticados com câncer de próstata ainda localizado.
Quando a doença já apresenta disseminação para órgãos distantes, esse indicador cai para cerca de 37%.
Nesse caso, o objetivo muda do cenário curativo para um cenário de controle, segundo Jardim.
“O objetivo é frear a progressão, fazer a doença regredir, aliviar sintomas, preservar qualidade de vida e prolongar a sobrevida. Mesmo sem cura, é uma doença muito controlável e tratável atualmente”, diz.
Para o câncer não passar despercebido
O grande desafio do câncer de próstata é o seu caráter furtivo. Quer dizer, logo no ínicio, ele não dói, não sangra e não incomoda. Além disso, quando os sintomas finalmente aparecem, se confundem facilmente com a hiperplasia benigna, o inchaço natural da glândula decorrente do envelhecimento.
Por isso isso, os especialistas recomendam a realização de exames como o PSA e do toque retal. Uma vez encontradas alterações, acende-se a luz amarela para a realização de uma biópsia, teste que fornece o diagnóstico mais preciso.
A recomendação para fazer os exames de próstata depende do perfil de risco de cada indivíduo. Para homens sem sintomas ou histórico familiar, a avaliação costuma ser indicada a partir dos 50 anos.
Já para homens negros ou que possuem parentes de primeiro grau com histórico da doença, a orientação é iniciar aos 45 anos.
Além disso, ao notar sinais de alerta da doença, o urologista deve ser consultado imediatamente, independentemente da idade.
Entre os sinais que merecem avaliação estão dificuldade para urinar, redução da força do jato urinário, necessidade de urinar com mais frequência e presença de sangue na urina.
Em fases avançadas, pode haver dor óssea e outras manifestações relacionadas à disseminação do tumor.