Bolsa: apostas em opções em dólar indicam “movimento explosivo” após o 1º turno

Os volumes no mercado de opções do EWZ, principal ETF de Wall Street que replica o Ibovespa, dispararam desde agosto, acompanhando o maior interesse de investidores estrangeiros e locais pela Bolsa brasileira em meio à eleição presidencial. A maioria dos negócios tem sido de opções de compra, o que pode indicar otimismo com a Bolsa, especialmente depois que pesquisas eleitorais mostraram o candidato de oposição Flávio Bolsonaro, visto como mais favorável ao mercado, empatado tecnicamente e até à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno.
Dados da Options Analysis mostram que o total de opções de compra (calls) de EWZ em aberto chegou a 7 milhões no fim de setembro, mais que o dobro dos 3 milhões de julho. As opções de venda (puts) em aberto também subiram, para 2,2 milhões, ante 1,2 milhão em julho. A relação entre opções de venda e de compra, que mostra a proporção das apostas do mercado, caiu de 0,49 em agosto para 0,32 agora, reflexo do crescimento mais forte das calls.
Os maiores volumes em aberto estão nos vencimentos de 16 de outubro, 20 de novembro e 18 de dezembro, com 1,186 milhão, 3,756 milhões e 2,3 milhões de contratos, respectivamente. No vencimento de 20 de novembro, já depois do segundo turno, as opções de compra somam 3,134 milhões de contratos em aberto, ante 622 mil de venda.
Muitas dessas operações buscam garantir ganhos em caso de alta da Bolsa sem a necessidade de comprar o índice ou suas ações, estratégia comum entre fundos multimercados. Há também muitas operações estruturadas, que apostam tanto na alta quanto na queda do índice, o que exige cautela ao tomar o mercado de opções como indicativo para o mercado à vista.
Ainda assim, o grande número de opções de compra em aberto indica que o mercado aposta na alta da Bolsa, diz Luciano Souza, analista CNPI-T e operador de opções no Brasil e nos Estados Unidos. “Vejo nas operações em aberto que não é posição só direcional, o investidor pode estar comprado em uma ponta e vendido em outra, mas o mercado tem convexidade para cima“, avalia. “Mas existe uma proteção, o mercado não está indo seco, tanto que as maiores operações das últimas semanas têm sido muito de travas de alta”, diz.
Para ele, esse volume pode ter impacto no mercado à vista, já que quem vendeu a opção vai ter de cobrir a operação. “O dealer, o arbitrador que está vendendo a opção não quer ficar direcional, quer ganhar o spread da operação e, para neutralizar risco da posição, compra no mercado à vista e o mercado sobe”, explica Souza. Com a alta, o arbitrador precisa comprar cada vez mais para zerar o delta da posição, o que cria um efeito dominó. “Essa pernada do índice em agosto de 165 mil pontos para até 190 mil, muito dela veio pelo efeito de derivativos“, afirma.
Por isso, tecnicamente, haveria potencial para uma nova alta já no primeiro turno, caso a oposição apareça na frente. “O resultado do primeiro turno vai ser determinante pois, mesmo com a oposição não ganhando a eleição, se sair na frente, dependendo da margem, pode provocar um efeito muito positivo no mercado de renda variável no Brasil e até um movimento explosivo na Bolsa”, diz Souza.
Ele pondera, porém, que, se a expectativa for frustrada, pode haver um movimento corretivo mais agressivo. “E devemos lembrar que o mercado pode ir se ajustando à medida que se aproxima o evento, com os participantes cobrindo posições”, ressalta.
Interesse estrangeiro
Nos últimos três meses, o EWZ negociou muito mais que seu similar local, o BOVA11, aponta Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil. Segundo ele, o EWZ movimentou em média US$ 748 milhões por dia no período, enquanto o BOVA11, ETF de Ibovespa mais líquido, negociou R$ 592 milhões. “Está tendo um trade eleitoral muito grande de estrangeiros”, diz.
Praça destaca o dia 25 de agosto, quando, em meio a pesquisas que apontavam maiores chances de vitória de Flávio Bolsonaro, o volume de opções de compra de EWZ bateu 1,6 milhão de contratos, ante 61 mil de venda. Com isso, a relação entre puts e calls em volume negociado caiu para 0,04 naquele dia, ante média de 0,45.
Para ele, esse cenário corrobora uma tendência de alta da Bolsa. “O volume de negociação está ficando parecido com o que tivemos no início do ano quando teve grande entrada de capital estrangeiro na Bolsa, e mostra que tem interesse gringo grande nas eleições”, afirma.
Praça observa ainda que há muitas opções com preços de exercício acima do nível atual do Ibovespa, em 190 mil e 200 mil pontos. O patamar de 200 mil pontos virou referência depois que o JPMorgan citou um nível similar em caso de vitória da oposição. Ele ressalta, porém, que, apesar de o grande número de opções de compra indicar aposta de alta, há muitas operações estruturadas de compra e venda que podem reduzir a pressão sobre o mercado à vista.
A proporção de mais de três opções de compra para cada uma de venda mostra um mercado tentando, de certa forma, comprar uma assimetria mais positiva para o Ibovespa, diz Rodrigo Mello, sócio e gestor do fundo long-short da Tenax Capital. Além disso, a volatilidade subiu substancialmente desde agosto, o que aumenta o interesse por opções e por operações ligadas à volatilidade do índice, já que volatilidade maior encarece as opções e traz ganhos para gestores que se posicionaram antes. “Agora estamos no momento máximo de volatilidade já que em um mês pegamos o primeiro e o segundo turnos da eleição, ou seja, o evento completo”, explica.
O grande volume de posições compradas em opções pode gerar pressão maior no mercado em caso de evento inesperado, como uma vitória de Flávio Bolsonaro já no primeiro turno. “Se isso ocorrer, o que não é nosso cenário, pode ter uma corrida de volatilidade, e podemos ter formadores de mercado que ficaram mais vendidos tendo de cobrir posições”, aponta Mello.
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