Com Flávio à frente, Bolsa bate recorde e dólar cai. Mercado vê momento com otimismo

5 de Out de 2026 - 22:10
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Com Flávio à frente, Bolsa bate recorde e dólar cai. Mercado vê momento com otimismo

O desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da disputa presidencial neste domingo (4) animou analistas do mercado financeiro, que veem na eventual eleição do senador a chance de um governo mais responsável na área fiscal e mais favorável ao mercado.

Com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio surpreendeu a maior parte das pesquisas de intenção de voto, que colocavam Lula à frente numericamente, ainda que em empate técnico.

No pregão desta segunda-feira (5), primeiro após o resultado, o Ibovespa, que reúne as principais ações negociadas em bolsa no Brasil, atingiu a máxima histórica de 209.605 pontos, , ainda na primeira hora de negociação.

No fechamento diário, o avanço consolidado foi de 7,7%, aos 206.912 pontos.

O dólar comercial, por sua vez, recuou mais de 5% em relação ao real por volta de 10h40 e chegou a ser cotado a R$ 4,953. Ao fim do dia, fechou cotado a R$ 5,001, uma queda de 4,13%.

Os números refletem um otimismo do mercado com a possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro, que chega ao segundo turno como favorito. A essa expectativa, soma-se ainda a composição do Congresso, que, com os deputados federais e senadores eleitos no domingo (4), reforça uma guinada política mais à direita.

“Isso de fato cria uma nova expectativa no mercado financeiro, principalmente pelas possibilidades que se abrem em decorrência de uma maior austeridade fiscal do governo para os próximos anos, a depender da equipe econômica que ele vai ter junto consigo”, diz Gustavo Budziak, CFO da Quartzo Capital.

O analista explica que, embora Flávio não tenha experiência no Executivo, a expectativa é formada com base na experiência do governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que apresentou uma política econômica de maior austeridade fiscal.

“Quando o Lula estava na frente, não se via possibilidade de austeridade fiscal, de redução de taxas de juros futuras, ou seja, continuava tudo como antes. Quando eu vejo o Flávio na dianteira, vejo que pode-se desfazer um caminho inteiro pela frente, ou seja, destravar a política fiscal, que reduz taxa de juros, que incentiva o crescimento econômico, que, por sua vez, vai fazer com que o Brasil tenha maior fluxo de capitais internos e externos, assim como das operações bancárias que hoje estão atreladas ao dólar".

A percepção é a mesma entre analistas internacionais. “O resultado aumenta a probabilidade de uma orientação política mais favorável ao mercado, baseada na consolidação fiscal, na reforma econômica e em um alinhamento mais estreito com os EUA”, avalia o dinamarquês Thomas Haugaard, gerente de portfólio na Janus Henderson Investors, gestora global de fundos.

“O impacto imediato é claramente favorável aos ativos brasileiros, refletindo a maior probabilidade de consolidação fiscal e reformas estruturais”, completa.

Apesar disso, Budziak considera que a confirmação das expectativas do mercado ainda dependerá do que de fato a equipe econômica de um eventual governo Flávio Bolsonaro conseguirá entregar.

Eleição no Congresso também contribui para otimismo do mercado

O PL tornou-se o maior partido individual no Senado e deve ser o maior bloco na Câmara, enquanto a direita e a centro-direita em geral fortaleceram sua posição legislativa.

“Isso deve facilitar a formação de coalizões e a governabilidade sob a presidência de [Flávio] Bolsonaro, embora o sistema congressional fragmentado e transacional do Brasil continue sendo uma importante restrição”, diz o economista da Janus Henderson.

Haugaard comenta, por outro lado, que propostas fiscais detalhadas continuam limitadas, e nenhuma das campanhas forneceu, até o momento, clareza suficiente sobre o ritmo, a composição ou a implementação política do ajuste.

Para ele, há um forte potencial para o Brasil estabilizar sua classificação de crédito no caso de uma vitória de Flávio.

Budziak, da Quartzo Capital, explica que, se eventualmente Lula vencer o segundo turno das eleições, terá “uma enorme” dificuldade para governar. “Ele vai ter que fazer uma composição que vai tornar o Brasil ingovernável”.

“O Flávio ganhando, de fato ele vai conseguir destravar uma série de pautas econômicas, porque terá o apoio do Congresso Nacional para isso. Então ele tem muito mais facilidade em transitar qualquer tipo de reforma que ele queira ou de modificar alguma reforma que eventualmente já estava pautada.”

Eleição de Flávio pode favorecer queda mais forte na Selic, dizem analistas

Analistas do mercado vislumbram ainda a possibilidade de uma redução mais agressiva na taxa básica de juros pelo Banco Central (BC), a depender da confirmação de uma política fiscal mais austera do próximo governo.

A mediana de expectativas antes do primeiro turno era de uma Selic ao fim de 2027 na faixa dos 12%, de acordo com o relatório Focus, divulgado pelo BC nesta segunda-feira (5), com base em projeções de instituições financeiras até sexta-feira (2).

“Eu manteria viés de queda para a Selic e, neste momento, trabalharia com algo próximo de 11,5% no fim de 2027, abaixo dos 12% do consenso, mas condicionado às sinalizações fiscais após o segundo turno”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Para Lima, a nova composição do Congresso pode favorecer uma agenda de controle de gastos, mas não garante ajuste por si só. “Nenhuma força tem maioria suficiente para impor sozinha mudanças relevantes”, pondera.

Fluxo de investimento em empresas deve crescer, diz analista

Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, explica que uma Selic de 12% com uma variação do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,41%, como projetava o mercado até sexta-feira, é uma combinação que mantém o investidor bem remunerado em ativos de baixo risco.

“Se o pós-eleição reduzir a percepção de risco e permitir que a Selic termine 2027 perto de 11% a 11,5%, começa a mudar a relação entre risco e retorno para quem investe em empresas de crescimento”, ressalta. “O efeito pode aparecer antes na avaliação das empresas do que na economia real.”

“Imagine uma startup projetando gerar R$ 20 milhões de caixa daqui a cinco anos. Se a taxa usada pelo investidor para descontar esse valor cair de 20% para 18%, o valor presente desse mesmo fluxo sobe de aproximadamente R$ 8 milhões para R$ 8,7 milhões, quase 9%. Não significa que valuations subirão automaticamente 9%, mas mostra por que custo de capital é decisivo para venture capital [capital de risco]”

Segundo ele, o Congresso entra nessa conta porque estabilidade fiscal melhora a visibilidade de longo prazo. “Se 2027 combinar juros menores, mercado de capitais mais funcional e reabertura de M&A [fusões e aquisições], o ciclo pode melhorar antes mesmo de o PIB ganhar muita velocidade.”

BTG projeta valorização de até 45% em ações brasileiras

Analistas do BTG Pactual também consideram que uma vitória de Flávio no segundo turno deve gerar uma expectativa no mercado financeiro por “medidas mais decisivas para enfrentar os urgentes desequilíbrios fiscais do país, desencadeando uma alta”.

“Em nossa visão, caso [Flávio] Bolsonaro vença o segundo turno, as ações brasileiras poderiam retornar rapidamente à sua média histórica de 10 anos, o que implica um potencial de valorização entre 11% e 20% em reais”, diz trecho de relatório assinado pelos analistas Carlos Siqueira, Osni Carfi e Bruno Ferreira.

“Se o Ibovespa atingir um nível de um desvio padrão acima da média — cenário bastante possível —, a valorização poderia variar de 32% a 45%. Além disso, espera-se uma valorização do real, o que ampliaria os ganhos em dólares”.

Setores como varejo, incorporadoras de médio e alto padrão, empresas do mercado de capitais e companhias devem apresentar desempenho significativamente superior, segundo os analistas.