Como a nova direita que governa a América Latina se alinha a Trump diante dos olhos do mundo

26 de Set de 2026 - 16:20
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Como a nova direita que governa a América Latina se alinha a Trump diante dos olhos do mundo
    • Author, Gerardo Lissardy
    • Role, BBC News Mundo
  • Published Há 51 minutos
  • Tempo de leitura: 8 min

Talvez em outro momento da história, um presidente dos que falasse diante das sobre para defender seus interesses na , ou sobre conquistar um "espólio" em um de seus países, teria provocado rejeição de governos de esquerda e de direita da região.

Mas o presidente americano que diz essas coisas hoje é , e, em toda a América Latina, vários estão no poder e, longe de criticá-lo, se alinham a ele diante dos olhos do mundo.

Essa realidade política ficou evidente nesta semana em Nova York, durante a , onde Trump apresentou o poderio militar ativo dos EUA no hemisfério como uma conquista de seu governo, enquanto enfrenta desafios crescentes em outras partes do mundo.

Em seu discurso na ONU na terça-feira (22/9), ele citou a para prender o então presidente em janeiro e o controle que os EUA obtiveram de parte das do país, porque "ao vencedor cabe o espólio".

"Nossas ações na Venezuela são uma prova de que os EUA não permitirão mais que ameaças contra a América se estabeleçam em nenhum lugar do hemisfério ocidental", advertiu.

"E, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para proteger os interesses nacionais vitais dos EUA."

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Após o discurso, Trump ouviu elogios de presidentes latino-americanos.

"Permita-me parabenizá-lo, porque acho que o senhor bateu um recorde mundial: não acredito que tenha havido um presidente americano que tenha se reunido tantas vezes com presidentes do hemisfério ocidental", disse o a Trump em uma reunião do, horas mais tarde, em Nova York.

A afinidade dos governantes latino-americanos com o presidente dos EUA se manifesta sobretudo em temas de segurança, mas há indícios de que ela esteja se ampliando para outras áreas.

'Sendo duro'

O Escudo das Américas surgiu em março como uma coalizão de Washington com governos da região politicamente próximos para combater o crime organizado — embora o próprio Trump tenha dito na terça-feira, diante dos integrantes do grupo, que eles "talvez não saibam" o quanto essa aliança que ele lidera é importante.

O Chile, governado desde março pelo , aderiu naquele dia à aliança de 15 países, que declararam sua disposição de que Trump classificou como narcoterroristas na América Latina, entre eles o Primeiro Comando da Capital (PCC)

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Além dos EUA e do Chile, a declaração foi aprovada pelos governos da Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

"O crime organizado não respeita fronteiras, por isso estamos muito felizes em fazer parte desta coalizão. Aplaudimos sua liderança e sua iniciativa, presidente Trump", disse durante o encontro Keiko Fujimori, que assumiu a presidência do Peru em julho e também aderiu recentemente ao grupo.

"A única maneira de combater o crime é sendo duro", respondeu Trump.

"Vocês têm que ser muito duros. Talvez nem gostem disso, mas precisam ser: isso vai detê-lo rapidamente."

O presidente dos EUA ordenou que suas próprias forças militaresque, desde o ano passado, mataram mais de 220 pessoas em embarcações que supostamente transportavam drogas em águas do Caribe e do Pacífico, sem apresentar provas claras disso.

Um relator especial da ONU para direitos humanos afirmou em um relatório na segunda-feira (21/9) que esses ataques dos EUA "violam o direito internacional" e "plausivelmente constituem crimes contra a humanidade".

O autor do relatório, Ben Saul, também afirmou que o Escudo das Américas "prioriza uma resposta altamente centrada na segurança, sem compromissos explícitos com os direitos humanos e o direito internacional, nem com o enfrentamento das causas profundas do crime organizado, como a pobreza, a corrupção e a fragilidade do Estado".

São críticas também levantadas por outros especialistas, mas que foram deixadas de lado durante o encontro entre os EUA e seus aliados latino-americanos na terça-feira.

Em vez disso, Trump falou sobre as organizações de narcotráfico e sugeriu aos presidentes que fazem parte do grupo: "Nos digam quais são e nós as eliminaremos. Ou eliminem vocês mesmos; gosto ainda mais disso. Mas, se não conseguirem, faremos isso por vocês".

Nesse momento, os presentes na sala riram.

'Ambições hegemônicas'

Durante seu primeiro mandato, Trump ameaçou, em 2017, intervir militarmente na crise da Venezuela, mas isso provocou ampla rejeição, inclusive entre seus aliados na região.

"Nem a Colômbia nem a América Latina, do sul do Rio Grande à Patagônia, poderiam concordar. A América é um continente de paz", afirmou o então presidente colombiano, Juan Manuel Santos, após se reunir com o vice-presidente dos EUA na época, Mike Pence.

Outros governos conservadores que eram críticos do regime socialista de Maduro na Venezuela, como os do México e do Peru, também se opuseram à opção apresentada por Trump naquela ocasião.

Alguns analistas atribuíram aquelas reações às consequências deixadas pela longa história de intervenções dos EUA na América Latina, diretas ou encobertas, que em vários casos provocaram violência e abusos graves.

Mas, nos últimos anos, políticos de uma nova direita chegaram ao poder em países da região, com posições mais radicais do que as da direita tradicional e promessas de adotar políticas de linha dura contra a criminalidade.

Trump destacou na terça-feira, diante de seus aliados latino-americanos, que "houve uma grande mudança nos países, uma grande guinada para a direita", e se vangloriou de ter apoiado eleitoralmente alguns deles.

"Todos os que apoiei venceram. Como vocês sabem, acabamos de conseguir uma grande vitória na Colômbia", disse, em referência à vitória de Abelardo de la Espriella em junho, que enviou seu vice, José Manuel Restrepo, a Nova York.

O maior contraponto regional a Trump na Assembleia Geral da ONU, até agora, foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), que afirmou que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém".

A poucas semanas das eleições de outubro — que têm entre os candidatos Flávio Bolsonaro, representante dessa nova direita e simpatizante de Trump — , Lula alertou para o retorno da "interferência externa em processos eleitorais" durante o principal fórum da diplomacia global.

"Na América Latina e no Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inevitável, sobretudo em um contexto de recrudescimento das ambições hegemônicas", disse Lula, um dos poucos líderes de esquerda no poder atualmente na América do Sul.

O Brasil está fora do Escudo das Américas, mas em seu território estão dois dos grupos criminosos que a aliança quer sancionar: o Comando Vermelho e o PCC.

Quando Washington classificou as duas organizações como terroristas, em maio, o governo Lula recebeu a medida com desconfiança, por entender que ela poderia abrir caminho para intervenções militares dos EUA em território brasileiro.

'Uma só voz'

Embora o Escudo das Américas tenha como foco questões de segurança, Trump também mencionou, diante dos integrantes do grupo, a "enorme riqueza natural" dos países e pediu que evitem "que potências externas hostis se apoderem dela".

"Os recursos das Américas devem sempre pertencer aos povos das Américas. Os EUA estão dispostos a colaborar com vocês para alcançar esse objetivo", afirmou.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que a aliança oferece a oportunidade de "colaborar nas áreas econômica e diplomática para falar com uma só voz, em uníssono, sobre temas que (nos) unem".

E talvez um desses temas possa ser a inteligência artificial.

De fato, o presidente argentino, Javier Milei, defendeu durante a Assembleia Geral da ONU a posição de Trump contrária à regulamentação dessa tecnologia, mesmo diante dos alertas cada vez maiores de que ela representa sérios riscos para a humanidade.

"A inteligência artificial, ou superinteligência, como diz o presidente Donald Trump, pode multiplicar nossa produtividade em ordens de grandeza que ainda desconhecemos", afirmou Milei.

E acrescentou que o Ocidente deve liderar o desenvolvimento dessa tecnologia para torná-la compatível com os "valores fundamentais libertários".

"Nesse ponto", ressaltou, "compartilhamos plenamente a visão do presidente Trump".