Como o Escudo das Américas de Trump pode atuar contra facções no Brasil em um eventual governo Flávio
O senador Flávio Bolsonaro (PL) prometeu, caso seja eleito presidente, incluir o Brasil no Escudo das Américas, aliança criada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para combater o narcotráfico e o crime organizado na América Latina.
Flávio enfrentará Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial, em 25 de outubro.
A entrada brasileira no "Escudo" de Trump abriria espaço para ampliar a cooperação com Washington no combate a facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), dois grupos criminosos que já estão sob a mira da Casa Branca.
Flávio fez a promessa sobre a participação do Brasil na aliança no início deste mês, durante uma conversa com o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella. Na ocasião, o candidato do PL falou sobre a necessidade de troca de informações entre os países membros da aliança para localizar criminosos e facilitar a prisão de integrantes das facções que atuam fora do Brasil.
O que é o Escudo das Américas
O Escudo das Américas foi lançado por Trump em março deste ano. No mês passado, os Estados Unidos e outros 14 países integrantes da aliança assinaram uma declaração conjunta para coordenar ações contra 24 organizações criminosas das Américas. A lista inclui o PCC, o Comando Vermelho e cartéis que atuam no México, na Colômbia e em outros países da região.
O documento prevê que os países participantes possam compartilhar informações de inteligência, utilizar tecnologias de segurança, treinar agentes e coordenar ações contra organizações criminosas. Também estabelece a intenção de aplicar sanções financeiras, congelar bens e restringir vistos de integrantes e financiadores desses grupos, respeitando a legislação de cada país.
Participação do Brasil aumentaria integração operacional contra facções
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, a entrada do Brasil na aliança poderia facilitar o trabalho das autoridades no rastreamento de lideranças das facções, na identificação de rotas do tráfico e no combate à lavagem de dinheiro. À Gazeta do Povo, ele lembrou que o PCC e o Comando Vermelho já atuam além das fronteiras brasileiras e que os Estados Unidos possuem recursos de inteligência e investigação que poderiam ser utilizados nessa cooperação.
“O Brasil já possui instrumentos de colaboração com autoridades americanas, mas a participação na aliança poderia conferir maior prioridade política, continuidade institucional e integração operacional a essas iniciativas”, afirmou Galvão.
Em junho, o governo Trump passou a classificar oficialmente o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A decisão ocorreu dias depois de Flávio visitar Trump na Casa Branca e afirmar que havia solicitado a medida ao presidente americano. A classificação permite que as autoridades dos EUA utilizem instrumentos específicos da legislação antiterrorismo para investigar e punir pessoas que forneçam apoio material às facções, além de bloquear recursos sujeitos à jurisdição americana.
Flávio tem dito durante sua campanha que, se for eleito, vai trabalhar para que o Brasil também passe a classificar o PCC, o Comando Vermelho e outras facções criminosas como organizações terroristas.
Claudia Rocha Piccin, especialista em Direito Penal e Processo Penal e professora da Universidade Positivo, explica que a mudança pretendida por Flávio dependeria da aprovação de uma nova lei pelo Congresso Nacional. Atualmente, segundo observou a analista, a legislação brasileira exige motivações específicas para caracterizar o terrorismo, como xenofobia e preconceito de raça, cor, etnia ou religião.
Segundo a jurista, caso a proposta seja aprovada, os crimes enquadrados na Lei Antiterrorismo passam a ser investigados pela Polícia Federal e julgados pela Justiça Federal. A mudança também poderia facilitar a cooperação com Washington e reduzir eventuais divergências de enquadramento, já que os dois países usariam uma classificação jurídica semelhante para essas organizações.
EUA já anunciaram sanções contra brasileiros por envolvimento com o PCC
Em julho, o Departamento do Tesouro americano anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas instaladas no Brasil e uma companhia portuguesa por envolvimento em uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Segundo o governo americano, o esquema operava entre São Paulo e a Flórida e havia movimentado mais de US$ 30 milhões obtidos com atividades criminosas nos Estados Unidos.
As investigações apontaram que os responsáveis utilizavam empresas e criptomoedas para enviar recursos ao Brasil. A operação contou com a participação do FBI e do Departamento de Justiça americano. As sanções determinaram o bloqueio dos bens dos envolvidos que estivessem sob jurisdição dos Estados Unidos e proibiram determinadas transações com pessoas e instituições americanas.
O caso mostra como Washington já consegue atingir as estruturas financeiras das facções, mesmo sem o Brasil fazer parte do Escudo das Américas.
Marco Aurélio da Silva, consultor de empresas em negócios internacionais e professor dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha, avalia que a entrada brasileira no Escudo de Trump poderia ampliar esse tipo de ação e permitir uma atuação conjunta contra as rotas utilizadas pelas facções.
Segundo ele, o Brasil poderia participar de operações coordenadas com outros países, incluindo o monitoramento de áreas da Amazônia e de regiões de fronteira por onde passam drogas, armas e recursos utilizados pelas organizações criminosas. A cooperação também poderia alcançar empresas e bens vinculados ao PCC e ao Comando Vermelho em outros países da América Latina.
Para Marco Aurélio, na aliança, o Brasil poderia aplicar um “sufocamento logístico e financeiro do crime organizado”, por meio de ações coordenadas entre os países participantes.
Cooperação militar também está entre as possibilidades
A cooperação militar no combate ao crime é outra frente que pode entrar nas negociações entre um eventual governo brasileiro sob Flávio e a Casa Branca. Trump vem ampliando a participação das Forças Armadas dos Estados Unidos em operações contra o narcotráfico na América Latina. O Equador, por exemplo, já realizou algumas operações desse tipo.
Em março, militares americanos e equatorianos iniciaram operações conjuntas contra organizações criminosas classificadas por ambos os países como terroristas. O anúncio foi feito pelo Comando Sul dos Estados Unidos, responsável pelas operações militares americanas na América Central, na América do Sul e no Caribe.
Outra ação ocorreu em agosto, quando militares americanos interceptaram uma embarcação utilizada para abastecer traficantes em águas internacionais do Pacífico. A operação foi realizada em coordenação com o governo equatoriano. Segundo o Comando Sul, o barco prestava apoio logístico aos Los Choneros, organização criminosa que atua no Equador. Militares americanos abordaram a embarcação, retiraram seus ocupantes e depois afundaram o barco. Os ocupantes foram encaminhados às autoridades equatorianas.
No Brasil, Marco Aurélio considera que uma eventual parceria militar com os EUA poderia envolver principalmente equipamentos de vigilância, troca de informações e ações para impedir a circulação de drogas e armas pelas fronteiras. Entre as ações citadas pelo especialista estão “varreduras por drones ou aeronaves de vigilância americanas nas regiões de fronteira e calha amazônica”, além de operações coordenadas para interceptar carregamentos do narcotráfico.
Ele também mencionou o fornecimento de informações obtidas por satélites, o monitoramento de comunicações e a atuação de agências americanas, como a DEA, em investigações sobre o tráfico internacional de drogas. O apoio poderia envolver ainda equipamentos, treinamento de agentes brasileiros e a presença de profissionais americanos em atividades de assessoria.
O Paraguai, que também faz parte do Escudo das Américas, aprovou, em março deste ano, uma lei que ratificou um acordo firmado por Assunção e os EUA, em dezembro de 2025, para regulamentar a presença temporária de militares e funcionários civis americanos no país.
O acordo estabelece regras para a participação desses profissionais em treinamentos, exercícios militares, missões humanitárias e outras atividades acertadas entre os dois governos. Também permite que militares americanos usem uniformes e portem armas durante suas atividades oficiais, nas condições previstas no documento. O texto ainda concede imunidades ao pessoal americano e autoriza os Estados Unidos a exercer jurisdição penal sobre seus integrantes em território paraguaio. A medida foi aprovada poucos dias depois de o presidente paraguaio, Santiago Peña, participar do lançamento do Escudo das Américas, em 7 de março.
No Brasil, a presença de militares estrangeiros em território nacional é regulada pela Constituição e pela Lei Complementar nº 90, de 1997. A legislação permite ao presidente autorizar determinadas atividades, como treinamentos e missões de apoio logístico, mas exige aprovação do Congresso Nacional para outras hipóteses de entrada e permanência de forças estrangeiras.
Eduardo Galvão explicou à reportagem que as autorizações previstas na legislação brasileira não dariam a um eventual governo Flávio liberdade para permitir operações militares americanas contra facções dentro do país. Segundo ele, há uma diferença entre receber apoio dos Estados Unidos em atividades de inteligência e treinamento e permitir que tropas estrangeiras participem diretamente de operações armadas em território brasileiro.
“Também existe uma dimensão institucional relevante. As Forças Armadas brasileiras possuem uma tradição de defesa da soberania nacional, e qualquer proposta de atuação militar estrangeira provavelmente exigiria uma discussão cuidadosa sobre comando, responsabilidades e limites operacionais. A cooperação pode ser aprofundada de maneira significativa sem que o Brasil transfira a outro país a autoridade sobre operações realizadas em seu território”, acrescentou o analista.
A presença militar americana na região está aumentando. Nesta quarta-feira (14), o jornal The New York Times revelou que o governo Trump começou a enviar um contingente de cerca de 600 militares para a América Latina. Os primeiros militares estão sendo deslocados para um centro de treinamento no Panamá e também deverão realizar exercícios com forças locais na Colômbia e em Honduras. Segundo o jornal, parte deles poderá apoiar unidades de operações especiais americanas que atuam no combate ao narcotráfico.
O Pentágono também transferiu drones MQ-9 Reaper da África para países da América do Sul, como Colômbia e o Equador, onde serão utilizados em operações de vigilância e combate a organizações criminosas. No Equador, dois MQ-9 Reaper já estão sendo utilizados em operações de vigilância contra o narcotráfico. O ministro da Defesa equatoriano, Gian Carlo Loffredo, confirmou no início deste mês que as aeronaves já estavam operando no país. Os equipamentos permitem acompanhar a movimentação de pessoas, veículos e embarcações, inclusive durante a noite, e serão empregados no reforço da vigilância da fronteira com a Colômbia.
Cooperação com o Escudo pode alcançar líderes das facções em outros países
Com o Escudo das Américas, o Brasil poderia buscar uma articulação mais ampla com os países participantes da aliança em investigações que envolvam integrantes de facções do país com atividades em diferentes partes do continente.
Essa cooperação poderia facilitar a localização e a prisão de integrantes e até lideranças do PCC e do Comando Vermelho que vivem escondidos em países vizinhos, além de permitir uma troca mais frequente de informações entre as autoridades responsáveis pelas investigações.
“Uma cooperação mais estruturada poderia facilitar a identificação de lideranças, fornecedores, rotas de tráfico e redes de financiamento, além de contribuir para a localização e prisão de integrantes dessas organizações que atuam no exterior”, afirmou Galvão.
Os Estados Unidos já ajudaram outros países latino-americanos em operações para capturar chefes do narcotráfico. Um desses casos ocorreu no Equador, em junho de 2025, quando forças de segurança do país prenderam José Adolfo Macías Villamar, conhecido como "Fito", líder da organização criminosa Los Choneros. Ele estava escondido em um compartimento subterrâneo de uma residência na província de Manabí, depois de passar mais de um ano foragido.
Em março deste ano, o Comando Sul dos Estados Unidos revelou que havia fornecido informações de inteligência consideradas fundamentais para localizar e prender Fito. A participação americana foi confirmada em um relatório apresentado ao Congresso dos EUA, embora o documento não tenha detalhado quais informações foram compartilhadas com as autoridades equatorianas.
Na Colômbia, forças militares e policiais colombianas, em coordenação com a agência antidrogas dos Estados Unidos (DEA), prenderam um dos chefes do narcotráfico do Clã do Golfo, conhecido como "Ñato" ou "Cachaco", em uma região rural do município de Turbo, no departamento de Antioquia. O criminoso era procurado pela Justiça americana por suspeita de envolvimento no envio de cocaína para a América Central e a América do Norte. O Comando Sul dos Estados Unidos divulgou a captura do criminoso em 29 de setembro e apresentou a operação como parte das ações da coalizão contra os cartéis. A prisão contou com o uso de drones fornecidos pelos Estados Unidos, que ajudaram as forças colombianas a localizar o criminoso em uma área rural.
No Peru, outra operação ligada ao Escudo das Américas resultou na prisão de nove equatorianos suspeitos de integrar o grupo criminoso Los Tiguerones Trux. A ação foi realizada pela polícia peruana com apoio do FBI, na região de Trujillo. Após as prisões, o embaixador americano no país, Bernie Navarro, destacou publicamente a cooperação como exemplo da atuação do Escudo das Américas.