Como regimes autoritários estão terceirizando assassinatos para organizações criminosas
Regimes autoritários que assassinam diretamente adversários políticos no exterior não são novidade: basta lembrar da execução do ex-líder comunista soviético Leon Trótski por um agente espanhol da NKVD (antecessora da KGB), crime ocorrido em 1940 na Cidade do México sob encomenda do então ditador Josef Stálin.
Um fenômeno mais recente, porém, são governos repressores encomendarem assassinatos de desafetos em outros países a organizações criminosas.
Um relatório divulgado este mês pelo think tank americano Soufan Center afirmou que Irã, Rússia e Índia estiveram envolvidos em pelo menos 12 assassinatos ou tentativas com o uso de organizações criminosas nos últimos dez anos.
“O modelo ‘antigo’ — no qual Estados financiavam e orientavam grupos terroristas para promover objetivos geopolíticos — está dando lugar a uma ‘nova’ arquitetura: Estados que recorrem cada vez mais a redes do crime organizado para realizar assassinatos, sabotagem e operações encobertas de influência”, escreveu a autora do estudo, Jessica Davis, presidente da consultoria Insight Threat Intelligence, pesquisadora de pós-doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Calgary e pesquisadora sênior visitante no Soufan Center.
“Essa mudança não é inédita do ponto de vista histórico (Estados há muito utilizam criminosos para todo tipo de operação encoberta), mas marca uma adaptação distinta ao cenário de contraterrorismo do pós-11 de Setembro”, afirmou Davis.
O relatório apontou que o Irã cometeu pelo menos cinco assassinatos desde 2011 encomendados a redes criminosas, como a Zindashti e a Foxtrot, tendo como alvos dissidentes e críticos do regime islâmico na Europa e na América do Norte.
A primeira organização citada é liderada pelo traficante de drogas iraniano Naji Ibrahim Sharifi-Zindashti, que foi alvo de sanções dos EUA, do Reino Unido, do Canadá e da União Europeia por recrutar criminosos para assassinar ou planejar a execução de dissidentes iranianos.
Já a Foxtrot, organização criminosa transnacional sediada na Suécia, e seu líder, Rawa Majid, foram alvos de sanções dos Estados Unidos em 2025, devido ao seu envolvimento em planos para atacar alvos judaicos e israelenses na Europa a mando do regime do Irã, incluindo uma tentativa frustrada de ataque à Embaixada de Israel em Estocolmo, em janeiro de 2024.
A respeito da Rússia, Davis destacou que “o uso de organizações criminosas amplia suas capacidades existentes de operações encobertas, sem substituir a atuação direta de seus serviços de inteligência na execução de muitas dessas operações”.
O governo da Índia, país que ainda é uma democracia, mas está ficando progressivamente mais autoritário sob o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, esteve envolvido em pelo menos quatro casos desde 2023.
A polícia do Canadá prendeu em 2024 quatro homens suspeitos de envolvimento no assassinato do líder separatista sique Hardeep Singh Nijjar, crime ocorrido no país norte-americano em junho de 2023 e que Ottawa atribuiu ao governo da Índia.
Nijjar foi morto a tiros no lado de fora de um templo em Surrey, cidade localizada na província canadense da Colúmbia Britânica. Ele apoiava a criação de um país independente sique, o Calistão, na região do estado indiano do Punjab, e havia sido classificado como terrorista por Nova Délhi.
O episódio gerou uma crise diplomática entre os governos do Canadá e da Índia, que levou à expulsão de diplomatas dos dois lados.
As autoridades canadenses atribuíram o crime às agências de inteligência indianas, com participação do grupo do gângster indiano Lawrence Bishnoi. Em julho deste ano, Bishnoi, que está preso na Índia desde 2015, e associados a ele foram indiciados nos Estados Unidos pela morte de Nijjar e outros crimes.
O Canadá designou a gangue de Bishnoi como grupo terrorista no ano passado. Os quatro presos pelo assassinato de Nijjar aguardam julgamento.
Regime de Maduro contratou Tren de Aragua para matar opositor no Chile
Na América Latina, um caso recente de grande repercussão envolveu o regime do então ditador venezuelano Nicolás Maduro, capturado em uma operação militar dos Estados Unidos em janeiro deste ano.
Uma investigação de um telejornal da emissora colombiana Caracol há dois anos apontou que um grupo de ex-militares e opositores ao chavismo se reuniu em Cúcuta, cidade da Colômbia na fronteira com a Venezuela, em dezembro de 2023, para planejar uma operação para derrubar Maduro.
Porém, a contrainteligência militar venezuelana havia se infiltrado no grupo e se aliou à guerrilha colombiana Exército de Libertação Nacional (ELN) e ao grupo criminoso venezuelano Tren de Aragua para sequestrar os dissidentes.
O ex-capitão Angelo Heredia foi capturado pelo ELN e entregue à ditadura chavista na Venezuela; o líder estudantil Pablo Parada, visado pelo chavismo, escapou por não ter conseguido chegar à reunião; e o terceiro alvo foi o ex-tenente Ronald Ojeda, que conseguiu fugir para o Chile, porém, em fevereiro de 2024, foi assassinado pelo Tren de Aragua naquele país.
Em entrevista neste mês à Caracol, o promotor chileno Héctor Barros, que investiga o caso, afirmou que o ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela, Diosdado Cabello, aliado de Maduro que permanece na cúpula chavista no regime da ditadora interina Delcy Rodríguez, teria sido o responsável por contratar o Tren de Aragua para sequestrar e matar Ojeda.
Barros afirmou que a promotoria chilena solicitou aos Estados Unidos que Maduro, que está preso em Nova York, seja ouvido sobre o caso.
“De acordo com as declarações e as mensagens de WhatsApp a que tivemos acesso, quem encomendou a ação foi Diosdado Cabello, sendo ele também quem, por fim, negociou com a organização Tren de Aragua”, disse o promotor.
Jessica Davis afirmou no seu relatório que a tática de terceirização de assassinatos para grupos criminosos por parte de regimes autoritários representa um desafio para quem investiga tais casos.
“As ferramentas de contraterrorismo são calibradas para [enfrentar] atores não estatais motivados ideologicamente, enquanto as ferramentas de combate ao crime visam atividades impulsionadas pelo lucro. Nenhuma delas foi concebida para lidar com a interseção dessas áreas com objetivos geopolíticos mais amplos”, afirmou a pesquisadora.
“O que se faz necessário são estruturas integradas que articulem inteligência sigilosa, inteligência financeira, aplicação de sanções e investigações criminais”, destacou Davis.