Setembro Amarelo: como ajudar alguém que está passando por um momento difícil

25 de Set de 2026 - 19:30
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Setembro Amarelo: como ajudar alguém que está passando por um momento difícil

Uma análise publicada no ano passado no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry reuniu dados de diferentes países e mostrou que 14% dos adolescentes de 12 a 17 anos entrevistados haviam pensado sobre tirar a própria vida nos 12 meses anteriores à pesquisa. No mesmo período, 9% relataram sintomas de ansiedade.

Outro estudo, realizado na Austrália com 15 mil adultos, apontou que 16,6% dos participantes haviam apresentado ideação suicida em algum momento da vida.

Pensamentos sobre a própria morte são, portanto, mais comuns do que muitos imaginam, especialmente entre pessoas que vivenciam quadros psiquiátricos como a depressão e ansiedade. 

Os fatores por trás disso são diversos. “A gente tem que olhar para fatores sistêmicos que estão ligados ao sofrimento, como os determinantes sociais da saúde, os contextos de oportunidade, de acesso a condições que dão um nível de qualidade e dignidade para as pessoas”, diz a a docente Kelly Giacchero Vedana, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (EERP-USP), responsável pelo Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do suicídio (CEPS).

Em quadros tão complexos, as medidas não devem ser restritas à individualidade. Mas, embora o cuidado não possa ser reduzido à ação individual de amigos e familiares, a presença de pessoas próximas pode fazer diferença para quem atravessa um período de sofrimento intenso.

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E como oferecer esse apoio sem invadir, julgar ou minimizar o que o outro está vivendo? Especialistas ouvidas por VEJA SAÚDE explicam.

O cuidado começa antes da crise

A ideação suicida quase nunca surge de forma isolada. Em muitos casos, está relacionada a um sofrimento psíquico que pode ser identificado e tratado.

“Quando falamos de depressão, ansiedade ou outros transtornos, o cuidado começa muito antes da crise, no rompimento do estigma em torno dos transtornos mentais, os quais são condições clínicas reais, com critérios diagnósticos e tratamentos baseados em evidências”, diz a psicóloga Raquel Antoniassi, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS).

Isso significa que o apoio não precisa começar apenas quando alguém verbaliza pensamentos sobre a própria morte.

Na verdade, estar atento ao bem-estar de pessoas próximas, manter vínculos e abrir espaço para conversas sobre como elas estão se sentindo também faz parte da prevenção.

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+Leia também: Antes que seja tarde: a prevenção do suicídio entre os mais jovens

Quais são os sinais de alerta?

Prever se uma pessoa vai tentar tirar a própria vida é muito difícil. Por isso, as especialistas recomendam não transformar a identificação de sinais em uma espécie de teste para determinar quem está ou não em risco.

“A gente não vai ter um poder preditivo de saber distinguir quem vai ou não vai tentar suicídio. Então, a gente não vai excluir pessoas que estejam precisando de apoio e talvez não tenham falado diretamente sobre tirar a vida”, comenta Vedana.

Portanto, é preciso estar sempre atento aos sinais de alguém está enfrentando um sofrimento importante. Entre elas estão alterações repentinas de humor ou comportamento, como isolamento repentino, menor cuidado consigo mesmo, alterações no sono ou no apetite, agitação, apatia e aumento do consumo de álcool ou outras drogas.

Também merecem atenção falas sobre morte, sobre estar sobrecarregado, sobre falta de sentido ou sobre não enxergar uma saída para alguma situação vivida.

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A desesperança é um elemento importante. Frases como “não tem mais jeito” ou “sou um peso para os outros” podem indicar um sofrimento intenso.

Existem, ainda, os sinais mais diretos, como a própria pessoa falar sobre desejo de morrer ou desaparecer. Isso pode surgir tanto de maneira explícita quanto em frases como “em breve, não vou estar mais aqui” ou “quero sumir”. A busca por meios para se ferir também é um sinal de alerta.

Outro ponto importante é uma aparente calma repentina depois de um período de sofrimento intenso. “Não é melhora, é um alerta”, considera Antoniassi. Mas é importante não depender apenas da identificação desses sinais, afinal, nem sempre eles estarão visíveis.

“Muitas pessoas vivem uma dor profunda de forma silenciosa, escondendo o que sentem por vergonha, culpa ou mesmo desejo de poupar quem amam”, alerta a psicóloga.

Por isso, cultivar vínculos, manter conversas frequentes e demonstrar interesse genuíno pelo outro são formas de fortalecer uma rede de apoio sem depender de sinais de alerta.

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Qual é a melhor forma de conversar?

Na tentativa de consolar alguém que amamos, é comum acabarmos tentando oferecer soluções rápidas, o que pode ainda nos fazer tender pro lado da “positividade tóxica”, com frases que tentam fazer a pessoa enxergar imediatamente o lado bom da vida.

O problema é que esse tipo de resposta pode invalidar aquilo que a outra pessoa está sentindo.

Para as especialistas, ajudar não significa necessariamente tirar uma solução da cartola ou ter um conselho na ponta da língua. Muitas vezes, o primeiro passo é, simplesmente, estar presente e reconhecer o sofrimento.

“O que dizer é, antes de tudo, uma questão de presença e validação. Frases como ‘estou aqui com você’, ‘eu me importo com você e estou preocupado’, ‘eu vejo que você está sofrendo muito, e isso é real’, ‘você não está sozinho nisso’ e ‘vamos encontrar ajuda juntos’ transmitem acolhimento sem prometer soluções mágicas”, diz Antoniassi.

Vale dizer que esse acolhimento pode ser suficiente para abrir espaço para uma conversa, mas não substitui o atendimento especializado quando existe um sofrimento persistente ou uma preocupação maior com a segurança da pessoa.

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Posso perguntar diretamente se alguém está pensando em suicídio?

O receio de tocar no assunto ainda é comum. Há quem tema que perguntar diretamente possa induzir a pessoa a pensar sobre o tema ou aumentar o risco. As especialistas, porém, ressaltam que uma abordagem acolhedora e direta não aumenta esse risco.

“Falar abertamente sobre o assunto pode justamente criar espaço para que a pessoa conte o que está vivendo. O que piora é o silêncio, o julgamento e a minimização”, afirma Antoniassi.

Mas a abordagem, é claro, não deve ser feita de qualquer jeito. Vedana recomenda começar a conversa por questões mais amplas, como a rotina, o estado emocional e os planos para o futuro. A ideia é construir um ambiente no qual a pessoa se sinta segura para falar.

“Geralmente, a gente começa conversando sobre temas um pouquinho anteriores, para permitir, inclusive, que esse assunto venha de uma forma mais confortável. Então, eu pergunto como está a pessoa, como está a rotina dela, como ela tem se sentido, quais são os planos dela para o futuro, por exemplo.”

Se a preocupação com a segurança da outra pessoa persistir, é possível fazer uma pergunta mais direta. “Eu posso perguntar: ‘Você tem feito algo ou pensado em fazer algo que possa te prejudicar de alguma forma?’”, exemplifica Vedana.

“Eu posso ir chegando de uma forma um pouco mais acolhedora, mas é importante abordar diretamente para a gente não reforçar os tabus e os medos em torno do tema”, diz a coordenadora do CEPS/USP.

O que NÃO fazer?

Há três armadilhas especialmente importantes, segundo Antoniassi: minimizar, moralizar e ordenar.

Minimizar é responder a uma dor profunda com frases como “não é tão grave assim” ou “tem gente em situação pior”. Em vez de acolher, esse tipo de resposta pode fazer a pessoa sentir que seu sofrimento não é legítimo.

Moralizar significa recorrer a frases como “pense na sua família” ou “você tem tanta coisa boa na vida”. Embora possam parecer tentativas de lembrar razões para viver, elas podem produzir culpa e afastar a pessoa.

Ordenar, por sua vez, é dizer “anima”, “reage” ou “deixa disso”. São frases que pressupõem que basta uma mudança de atitude para interromper um sofrimento que pode ser muito mais complexo.

Também não é recomendado tentar convencer alguém por meio de uma lista de motivos para continuar vivendo. “Ninguém ‘argumenta’ alguém para fora do sofrimento”, afirma Antoniassi.

Outro ponto importante é reconhecer que, por mais que tenhamos empatia, não conseguimos enxergar exatamente a dor das outras pessoas.

“Por mais que a vida da pessoa possa parecer perfeita ou sem justificativa para um sofrimento desse tamanho, a gente não consegue perceber exatamente o que ela sente”, diz Vedana.

E há um ponto que pode parecer contraintuitivo. É preciso ter cuidado com promessas de segredo. Se houver risco à vida, a proteção deve vir antes do compromisso de manter a informação em sigilo.

Uma possibilidade é explicar isso de forma transparente: “Diga: vou te acompanhar, mas, em situação de risco, vou buscar ajuda com você”, orienta Antoniassi.

O que fazer diante de uma situação de risco extrema?

Em uma crise aguda, uma das prioridades é não deixar a pessoa sozinha e reduzir, sempre que possível e de forma segura, o acesso a meios que possam ser utilizados para causar uma lesão.

Outra estratégia é construir um plano de segurança, identificando sinais de alerta, possíveis gatilhos, pessoas de confiança, lugares seguros e contatos que possam ser acionados em uma emergência.

Acompanhar a pessoa na busca por atendimento também pode ajudar. Isso pode significar oferecer-se para ir junto a uma consulta, a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou a um serviço de emergência.

Depois, manter contato — por telefone, mensagem ou presencialmente — ajuda a sustentar a rede de apoio.

“Em situações de crise, o objetivo não é encontrar sozinho a solução para o sofrimento, mas transformar a preocupação em ações concretas e seguras”, diz Antoniassi.

Primeiros socorros em saúde mental

Ainda pensando em momentos agudos, é possível recorrer ao que os especialistas chamam “primeiros socorros em saúde mental”. Esta é uma abordagem de acolhimento que pode ser realizada por qualquer pessoa que tenha treinamento mínimo para isso.

A proposta é oferecer uma resposta inicial, segura e acolhedora diante de uma situação de sofrimento, sem substituir o atendimento de profissionais especializados.

Segundo Vedana, o método utilizado por seu grupo de pesquisa, um método desenvolvido pela Johns Hopkins University, é sintetizado pelo acrônimo RAPID, que reúne cinco etapas:

  1. R — Rapport: estabelecer uma relação de confiança e escuta, oferecendo à pessoa segurança, privacidade e um ambiente sem julgamentos.
  2. A — Avaliação: compreender o que está acontecendo e verificar se existe algum risco que exija encaminhamento mais rápido para suporte profissional. Essa etapa também pode envolver a identificação de outras situações de violência ou da necessidade de suporte temporário.
  3. P — Prioridades: entender como a pessoa deseja ser ajudada, respeitar seus limites e identificar suas principais preocupações e o que poderia fazê-la se sentir mais segura.
  4. I — Intervenção: ajudar a pessoa a pensar em formas de lidar com a situação, comunicar suas necessidades, identificar quem pode oferecer apoio e encontrar alternativas que tragam alívio ou segurança sem causar danos.
  5. D — Disposição de recursos: disponibilizar informações sobre serviços e outras formas de suporte que a pessoa possa procurar naquele momento ou posteriormente. Também significa mostrar que ela pode voltar a conversar ou procurar ajuda caso a situação mude.

Como incentivar alguém a buscar ajuda?

Essa tarefa, porém, nem sempre é fácil. Mas, segundo as especialistas, isso não significa vencer resistências, mas sim abrir possibilidades.

Uma das estratégias é normalizar o cuidado. Em vez de tratar a busca por atendimento como sinal de fraqueza, apresentá-la como uma forma de cuidar da própria saúde. Oferecer companhia também pode diminuir uma barreira: “Eu vou com você. Você não precisa ir sozinho”, exemplifica Antoniassi.

Se a pessoa não quiser procurar um psiquiatra, por exemplo, pode aceitar conversar primeiro com um psicólogo, médico de família ou grupo de apoio. Quer dizer, precisamos mostrar que há diferentes portas de entrada que podem levar ao cuidado.

Também pode ser útil envolver alguém de confiança que a pessoa respeite. E é importante reconhecer os próprios limites: “Eu não sou profissional de saúde. Sou alguém que se importa com você. Deixe eu te ajudar a encontrar quem pode te cuidar”, diz a psicóloga.

Forçar ou ameaçar, por outro lado, pode aumentar o afastamento. A recusa ao atendimento pode estar relacionada a medo, vergonha ou desesperança em relação ao tratamento. Por isso, acolher essa resistência e apresentar alternativas pode abrir mais caminhos do que confrontá-la.

Há, porém, situações em que a prioridade muda, vale dizer. Quando existe risco iminente, plano e intenção claros, acesso a meios, comportamento muito agitado ou desorganizado, incapacidade de garantir a própria segurança, tentativa recente ou autoagressão grave, é necessário buscar atendimento de emergência.

Nessas circunstâncias, serviços como Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), pronto-socorros e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192, podem ser acionados.

E depois de uma crise?

O apoio não termina quando a crise passa. Ao mesmo tempo, amigos e familiares não precisam — e não devem — assumir o papel de terapeutas.

O papel de quem está próximo é manter o vínculo, oferecer presença e incentivar a continuidade do tratamento, sem transformar cada conversa em uma cobrança.

E aqui também é importante estabelecer limites. É possível se importar profundamente com alguém sem estar disponível 24 horas por dia. Dividir o cuidado com outros familiares, amigos e profissionais evita que toda a responsabilidade recaia sobre uma única pessoa.

“Quem apoia alguém em sofrimento também precisa de suporte. Cuidar de quem cuida faz parte da própria rede de proteção”, considera a psicóloga.

Onde buscar ajuda?

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia. O serviço também disponibiliza atendimento por canais digitais. A conversa com o CVV é uma forma de acolhimento e não substitui o acompanhamento de profissionais de saúde quando ele é necessário.

Na rede pública, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) podem fazer o acolhimento inicial e orientar o encaminhamento, enquanto os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) integram a rede de cuidado em saúde mental.

+Leia também: Precisa conversar? Onde buscar apoio emocional gratuito no Brasil, inclusive 24 horas

Em situações de emergência, é possível procurar uma UPA ou pronto-socorro ou acionar o SAMU, pelo 192.

Na rede privada, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde mental também podem oferecer acompanhamento.

Não existe uma única porta de entrada para o cuidado. O mais importante é que a pessoa não precise esperar o sofrimento chegar ao limite para procurar ajuda.

 

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