Corredor Andes-Atlântico: o que se sabe sobre o ambicioso projeto dos EUA para acessar recursos estratégicos da Argentina (e competir com a China)

11 de Out de 2026 - 15:00
 0  0
Corredor Andes-Atlântico: o que se sabe sobre o ambicioso projeto dos EUA para acessar recursos estratégicos da Argentina (e competir com a China)
    • Author, Redação
    • Role, BBC News Mundo
  • Published Há 42 minutos
  • Tempo de leitura: 6 min

Em meio à intensa agenda da Assembleia Geral das Nações Unidas no fim de setembro, e de investimento de quase US$ 7 bilhões (cerca de R$ 36,5 bilhões). O acordo pode ter passado despercebido por outros países, mas teve peso para os dois envolvidos.

O acordo, chamado Corredor Andes-Atlântico, foi apresentado no Consulado-Geral da Argentina em Nova York pelo ministro das Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, e pelo subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau.

Segundo o governo americano e porta-vozes do presidente argentino, , o principal objetivo é melhorar a infraestrutura de rodovias, portos e ferrovias da Argentina para facilitar a exportação de minerais, e gás.

E, de acordo com o comunicado conjunto divulgado após a assinatura do acordo, o corredor buscará "facilitar o investimento público e privado em transporte, energia e infraestrutura digital" e consolidar os EUA como "um parceiro fundamental para a Argentina em infraestrutura e investimento".

Para analistas e especialistas, o anúncio reforça o apoio a Milei em pleno ano eleitoral e faz parte da disputa dos EUA com a China por espaço nos setores produtivos argentinos.

O comunicado acrescenta que os investimentos devem ampliar as exportações argentinas: "As exportações de minerais, petróleo e gás aumentarão por meio de investimentos americanos e de investimentos respaldados pelos EUA em ferrovias, hidrovias, portos, oleodutos e infraestrutura de geração e transmissão de energia, construídos com tecnologia confiável que busca garantir a maior eficiência possível e o máximo de segurança cibernética."

De acordo com veículos de imprensa locais, o financiamento ficará a cargo do Banco de Exportação e Importação dos EUA (Exim, na sigla em inglês). Com isso, os recursos serão destinados principalmente à compra de bens e serviços americanos a partir de 2027.

Inicialmente, os recursos serão investidos na melhoria da infraestrutura terrestre que conecte os campos de petróleo de Vaca Muerta, no oeste do país, aos portos comerciais argentinos.

"Está claro que, diante da instabilidade que vemos em muitas partes do mundo, os EUA estão buscando uma rota segura para garantir o fornecimento desse tipo de recurso natural", explica o pesquisador de economia Esteban Actis, da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Por outro lado, os analistas consideram que o acordo oferece proteção a potenciais investidores interessados no país sul-americano.

"Diante do histórico de dificuldades de pagamento da Argentina, o acordo busca assegurar, além dos recursos financeiros, o respaldo do governo dos EUA às atividades nos setores de energia e mineração no país", acrescenta Actis.

Um dos pontos que mais chamam a atenção no acordo é a referência às jazidas de lítio e cobre no norte da Argentina, especialmente na província de Jujuy.

"É evidente que esse investimento está ligado à ideia de substituir gradualmente os investimentos chineses já estabelecidos no país nos setores de lítio e de outros minerais", observou Actis.

Gás e petróleo, o primeiro alvo

Veja a intenção de voto no 2º turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim da Promoção Agregador de pesquisas

Na apresentação do acordo Andes-Atlântico, Quirno e Landau destacaram as principais medidas previstas para entrar em vigor em 2027.

A primeira é conectar aos mercados internacionais os campos de Vaca Muerta, situada na região oeste de Mendoza e Neuquén, onde atua a petrolífera YPF, entre outras empresas. O projeto Argentina LNG prevê a produção de cerca de 12 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano.

O projeto havia recebido quase US$ 21 bilhões (cerca de R$ 109,5 bilhões) em investimentos da Itália e dos Emirados Árabes Unidos para construir instalações de extração e unidades de liquefação de gás.

Segundo os dois governos e jornais argentinos como La Nación e Clarín, o apoio dos EUA permitirá obter equipamentos e insumos americanos para facilitar o transporte e a exportação do produto.

Citando o presidente da YPF, Horacio Marín, Quirno afirmou que o projeto poderia gerar até US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,04 trilhão) em exportações nos próximos 20 anos e atrair até US$ 100 bilhões (cerca de R$ 521,6 bilhões) em investimentos.

"A ideia central é aproveitar todo o potencial de Vaca Muerta e, sobretudo, evitar que dificuldades para obter investimentos ou financiamento de longo prazo interrompam projetos desse tipo a qualquer momento", afirma Actis, da Universidade Nacional de Rosário.

A avaliação está em sintonia com relatórios que alertam para o risco de um "gargalo" caso não haja investimentos suficientes em infraestrutura: a produção aumentaria, mas faltariam meios para levá-las aos mercados internacionais.

Um estudo publicado em agosto deste ano pela BBVA Research, área de pesquisas econômicas do banco espanhol BBVA, estima que sejam necessários cerca de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 104,3 bilhões) para adequar a infraestrutura de escoamento de petróleo e gás dessa região da Argentina.

Isso inclui a construção de gasodutos, centros de processamento e as obras previstas no acordo do Corredor Andes-Atlântico entre os EUA e a Argentina.

Minerais críticos

O comunicado também informa que parte dos investimentos será destinado ao setor de minerais críticos, sobretudo lítio e cobre.

"Serão buscadas oportunidades no âmbito do Acordo-Quadro sobre Minerais Críticos entre os EUA e a Argentina para apoiar a mineração e o processamento desses minerais, avançar nos compromissos de garantir a segurança das cadeias de abastecimento e promover sua diversificação global", informa o texto.

A Argentina tem a terceira maior reserva de lítio do mundo, mineral usado, entre outras aplicações, na fabricação de baterias para carros elétricos.

Atualmente, o país mantém diversos contratos com empresas chinesas para explorar esse recurso. Questionado pelo canal de notícias argentino TN sobre a existência de alguma cláusula no acordo referente a esses investidores, Quirno negou.

"Não, não há nenhuma condição desse tipo. A aliança estratégica com os EUA não prejudica a relação comercial da Argentina com a China", afirmou Quirno.

Mas para os analistas é impossível esconder as intenções dos EUA na região.

"Há meses se ouve a resposta de muitos parceiros dos EUA quando o país exige que deixem de receber financiamento e investimentos da China: 'Tudo bem, mas o que Washington D.C. oferece?' Esses programas, esses corredores buscam preencher essa lacuna e permitir que os EUA comecem a disputar com a China no mesmo terreno", afirma Actis, da Universidade Nacional de Rosário.

Modernização digital

Outro ponto que chama a atenção no documento assinado em Nova York, nos EUA, é o das "alfândegas digitais".

O texto prevê "apoio ao uso de tecnologia confiável e colaboração para garantir a segurança das plataformas e dos equipamentos de fiscalização alfandegária".

O documento também explica que, embora a intenção seja ampliar a infraestrutura e os projetos de exploração mineral de acordo com os padrões exigidos, depende da expansão das redes de energia elétrica e da infraestrutura tecnológica.

Segundo Enrique Carrier, analista especializado em tecnologia e telecomunicações, nessa área o objetivo é melhorar a rede de fibra óptica da Argentina.

"Os benefícios dessa iniciativa para os EUA são claros, tanto pelo acesso a recursos energéticos quanto a minerais. Mas a Argentina também ganha, porque poderá reduzir, ainda que parcialmente, sua deficiência crônica de infraestrutura nessa área", explica Carrier em sua newsletter desta semana.

"É uma win-win situation [situação de ganha-ganha, em que todos ganham] no contexto das 'relações carnais 2.0', que convém aproveitar enquanto o cenário político for favorável", acrescenta o especialista em tecnologia, em referência aos vínculos de seu país com os EUA.