E se você fosse dono do supermercado onde faz as compras?
Por Cléber Moletta, especial para a Gazeta do Povo
28/09/2026 às 14:07
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Comprar em grupo para pagar menos. Essa é a premissa das cooperativas de consumo, modelo em que as pessoas se associam para ganhar poder de negociação e reduzir gastos com escola, farmácia e supermercado, dentre outros segmentos. O desconto não depende de campanha ou promoção, mas nasce do fato de o cooperado ser cliente e dono ao mesmo tempo.
"A ideia é a compra em comum de mercadorias, produtos ou serviços; por exemplo, alimentos, medicamentos, combustíveis, maquinários", explica Leonardo Rafael de Souza, professor da .
No Brasil, são 191 cooperativas e 2,84 milhões de cooperados que se beneficiam dessa modalidade de consumo, segundo dados do , publicado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Redução de intermediários
É diferente do clube de compras, que envolve empresa comercial com fins lucrativos em que se paga para ter acesso a ofertas. A cooperativa de consumo pertence aos próprios consumidores (cooperados), que dividem as decisões e os resultados financeiros.
A organização das compras é feita para atender às necessidades dos associados a um preço justo, em geral mais baixo, por eliminar intermediários e não ter a maximização do lucro como objetivo principal. Os custos com funcionários, instalações, logística, tecnologia e administração são calculados e abatidos na operação. Os próprios sócios escolhem a direção da Cooperativa e têm o direito de acompanhar a gestão, já que são igualmente proprietários do negócio.
Por comprar em grande escala, a cooperativa negocia direto com fornecedores e consegue melhores condições. Exemplos desse modelo, na área supermercadista, são a Coop, de São Paulo, com 34 unidades de varejo em dez cidades, e a Rede Cooper, de Santa Catarina, com 24 lojas de supermercado e 23 farmácias.
A cada ano, as sobras podem ser distribuídas conforme a participação de cada cooperado nas operações e as regras da cooperativa: quanto mais ele comprou, maior a sua parte no resultado.
Nas escolas cooperativas, por sua vez, pais, responsáveis ou outros integrantes da comunidade se organizam para ter acesso à educação. Os valores pagos pelos associados mantêm a estrutura, pagam os profissionais e financiam as atividades pedagógicas, sem distribuir lucro a investidores externos.
Cooperativas de educação lideram o setor
Segundo o AnuárioCoop 2026, a educação representa a maior parcela das cooperativas de consumo, com 28,3% do total, seguida pelos supermercados, com 24,6%, e pelas farmácias, com 15,2%. Também aparecem cooperativas voltadas a equipamentos (10,5%), vestuário e beleza (13,6%) e serviços veiculares (7,3%).
Como em todas as cooperativas, o cooperado tem o direito de participar das assembleias, votar e ser votado, de acordo com as regras da organização. Também precisa utilizar a cooperativa, fazendo sua participação econômica no negócio, para que a estrutura tenha escala suficiente para funcionar.
“Se você se associa a uma cooperativa de consumo, qual a sua grande obrigação? Priorizar a cooperativa. Se não consumir, o custo aumenta e fica com a cooperativa e, automaticamente, quem paga? Os cooperados”, afirma Souza.
Quanto mais o cooperado usa a cooperativa, maior o benefício, seja em preços menores, seja nas sobras, quando previstas e distribuídas proporcionalmente às operações.
Cooperativa de contadores: redução de 30% nos preços
Um exemplo inovador desse modelo já consagrado de cooperativismo está no setor contábil. Criada em 2019, a é uma cooperativa que iniciou com 20 profissionais da contabilidade e que atualmente tem 260 cooperados distribuídos por 18 estados. A cooperativa organiza a compra e a oferta de soluções sob medida para escritórios de contabilidade.
“Temos produtos e serviços que são do dia a dia do profissional da contabilidade, como inúmeros softwares, consultorias específicas por segmentos, gestão de telefonia, produtos de qualificação, plano de saúde. Tudo aquilo que o contador necessita para prestar seu serviço, a cooperativa tem”, afirma o presidente da CooperCont, Mauro Cesar Kalinke.
A cooperativa também trabalha fornecendo produtos que podem ser utilizados pelos clientes dos escritórios associados, como softwares de gestão.
“Temos a premissa de trabalhar com cerca de 30% de redução de preço. Deste percentual, geralmente em torno de 20% fica de vantagem direta com o cooperado e 10% para manutenção da cooperativa”, afirma.
Estímulo de negócios entre os próprios associados
O percentual é apenas uma referência, e varia conforme cada produto e negociação. A lógica, no entanto, é sempre a mesma: garantir o maior benefício ao cooperado e uma margem suficiente para manutenção da empresa.
A CooperCont optou por não cobrar mensalidade ou anuidade dos associados, segundo Kalinke. Para ingressar, o profissional precisa fazer uma integralização de capital de R$ 500 e R$ 700 de taxa de administração. Depois da entrada, é o próprio uso dos serviços que ajuda a manter os custos da operação.
Outra frente de ação da cooperativa é estimular negócios entre os próprios associados. Um contador que possui determinada especialidade pode prestar serviços para o cliente de outro cooperado, criando uma rede de fornecedores dentro da própria organização e ampliando a possibilidade de os associados aumentarem seus ganhos.