Grotesco e sombrio, Cara-de-Barro é o pesadelo de terror corporal que a DC precisava

21 de Out de 2026 - 16:40
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Grotesco e sombrio, Cara-de-Barro é o pesadelo de terror corporal que a DC precisava

Unir DC e terror parece a fórmula perfeita para o sucesso, e, como boa fã do gênero, minhas expectativas para Cara-de-Barro estavam altíssimas. O longa sobre uma das histórias de origem mais trágicas dos quadrinhos da editora é uma mudança brusca após Superman e Supergirl — e não só acerta em cheio em todos os sentidos possíveis, mas também prova que a DC tem muito a ganhar em seguir explorando o gênero.

Abandone toda a esperança

Enquanto Superman e Supergirl trouxeram uma mensagem otimista sobre esperança, Cara-de-Barro segue um caminho totalmente oposto. No terceiro filme do novo DCU, testemunhamos como Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão, vê sua vida mudar do avesso após perder aquilo que lhe é mais sagrado: seu rosto. Desfigurado e vítima de uma campanha de difamação, Matt descobre a rapidez com que a indústria pode lhe virar as costas.

O discurso da meritocracia (que já nos é muito familiar) se mostra dolorosamente cruel aqui: nascido em Gotham, Matt se esforçou para superar um passado cheio de cicatrizes e mudar de vida. E, por um tempo, ele até conseguiu. Mas ao se ver, novamente, na cidade comandada pelos mais poderosos, de nada vale todo seu esforço. Corrupção e poder andam de mãos dadas em Gotham, e nem mesmo uma figura relevante como Matt Hagen pode mudar isso.

Do dia para a noite, o protagonista perde tudo — sua fama, sua reputação, seu instrumento de trabalho e, principalmente, sua esperança. E é nessa desilusão que Matt recorre a uma decisão extrema: participar de um tratamento experimental que promete regenerar suas células e, assim, seu antigo rosto. Ele sabe que, no pior dos cenários, o experimento pode custar sua vida. Mas como perder algo que já lhe foi tirado?

Uma linha tênue entre vilão e vingador

Acompanhando o desenrolar dos eventos pela perspectiva de Matt, é impossível não torcer por ele em sua jornada de vingança. Até certo ponto, é o mero e natural senso de justiça que nos orienta: sabotado por um sistema que deveria protegê-lo, não lhe resta alternativa além de agir por conta própria. Mas, a cada passo, acompanhamos como os limites entre justiça e vingança se deturpam até se perderem completamente.

O tratamento pode até restaurar o rosto de Matt, mas altera profundamente seu ser, e, antes que perceba, nosso vingador assume — literalmente — o lugar de cada vilão que contribuiu para seu triste destino. Vemos, com um misto de pena e euforia, uma aparente e merecida justiça sendo feita, mas ela não chega sem cobrar um preço inimaginável ao protagonista. E não há como não nos deliciarmos com cada momento.

O filho de A Substância e Coringa

Se você gostou do Coringa de Todd Phillips, provavelmente vai adorar Cara-de-Barro. O pessimismo, a opressão e o drama do filme de Joaquin Phoenix estão aqui, embora também haja espaço para alguns sutis momentos de alívio cômico — que chegam através do absurdo em vez de piadas escancaradas. A atmosfera do filme é deliciosamente sombria, e a união com o terror corporal é a cereja reluzente no topo do bolo.

É preciso esclarecer que, apesar do termo, você não vai encontrar elementos clássicos do terror em Cara-de-Barro. Há alguns sustos aqui e ali, e a tensão característica, mas o cerne do subgênero é o incômodo. Os trailers do filme já haviam nos dado um gostinho do que estava por vir, mas fiquei surpresa ao descobrir que o nível de sangue e violência foi além do que eu esperava.

Se o tom lembra Coringa, o terror corporal é uma espécie de A Substância — não tão extrema quanto o filme de Coralie Fargeat, mas igualmente eficaz em causar agonia e mal-estar com suas transformações físicas e mutilações grotescas. Na exibição do filme, sentei, por acaso, ao lado de uma pessoa que precisou desviar o olhar da tela em várias cenas — e, por mais forte que seja meu estômago para essas coisas, confesso que me senti tentada a fazer o mesmo em alguns momentos.

O Veredicto

Sem participações especiais ou cenas pós-créditos, a maior virtude de Cara-de-Barro é confiar plenamente no potencial de seu protagonista e na força de seu elenco. Apesar de um roteiro levemente arrastado em alguns pontos, o longa acerta em cheio ao apresentar, sem rodeios, uma história cativante, brutal e sombria que contrasta completamente com os dois filmes anteriores do novo DCU e revela uma lição valiosa: DC e terror é uma combinação perfeita.