Lula abusa das contas públicas e medidas eleitoreiras já beiram R$ 300 bilhões

23 de Out de 2026 - 18:00
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Lula abusa das contas públicas e medidas eleitoreiras já beiram R$ 300 bilhões

As dezenas de medidas, benefícios e renúncias fiscais anunciadas pelo governo Lula (PT) neste ano eleitoral colocam a tentativa de reeleição do atual presidente entre as mais caras da história recente.

O pacote eleitoreiro inclui desde a revisão da chamada "taxa das blusinhas", logo no início da campanha, até o mais recente perdão de dívidas de microempreendedores. Há, ainda, propostas de gratuidade irrestrita no transporte público e pagamento de bolsa mensal a universitários.

Um levantamento da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, estimou em R$ 298,4 bilhões o volume mobilizado por benefícios e políticas do governo em 2026. Já o Gastômetro, do jornal O Estado de S. Paulo, chegou a R$ 354 bilhões ao reunir 46 medidas e incentivos do governo em ano eleitoral.

Os números abrangem conjuntos de medidas e critérios diferentes e não correspondem integralmente a gastos já realizados, mas permitem estabelecer um paralelo histórico e ilustrar a dimensão dos gastos em uma das disputas mais acirradas da trajetória política de Lula.

Em 2014, os desembolsos de Dilma Rousseff associados à tentativa de reeleição foram estimados em 3,1% do PIB por um estudo do FGV Ibre. Em 2026, o conjunto mais amplo de benefícios e políticas do governo Lula equivale a cerca de 2,2% do PIB projetado para o ano, segundo a IFI.

“Essa reeleição caminha para ser comparável à de Dilma”, afirma Alexandre Manoel, pesquisador do Ibre e um dos autores do estudo sobre os gastos eleitorais em 2016.

Segundo ele, uma atualização detalhada sobre os custos fiscais da eleição de 2026 deve ser entregue ao próximo governo em meados de janeiro, para subsidiar medidas de ajuste.

Manoel destaca que o impulso fiscal, medido pelo Monitor de Expansão Fiscal Ampliada (MEFA), chegou a 3,19% do PIB no acumulado de janeiro a setembro deste ano. O índice ficou bem acima do registrado no mesmo período de 2022, de 1,34% do PIB. Na época as contas públicas apresentaram superávit primário, ao contrário de 2026, quando foi registrado déficit primário no período.

“A discussão que havia quando o ministro Haddad assumiu era que o governo anterior [Bolsonaro] tinha feito de tudo para se reeleger”, afirma. “E agora o que a gente sabe, pelo menos por esses números, é que a orientação fiscal foi ainda mais expansionista neste governo. E num cenário pior, de déficit”, diz o pesquisador.

Pacote eleitoral de Lula pode dificultar ajuste fiscal em 2027

Para Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, embora a equipe econômica e a campanha petista indiquem a intenção de compensar parte dos custos no futuro, o alívio não abrangerá todos os compromissos.

“Nem tudo será compensado, e ainda deve sobrar um volume significativo. O ponto importante é que o ajuste fiscal a partir de 2027 partirá de uma situação pior. Ou seja, quem assumir em 2027 terá de fazer um esforço maior para colocar as contas públicas em uma trajetória mais sustentável.”

Procurado pela Gazeta do Povo, o Ministério da Fazenda afirmou que os valores das medidas anunciadas não representam, integralmente, impacto adicional no Orçamento de 2027. A pasta diz que encaminhará ao Congresso os ajustes necessários e que iniciativas ainda dependem da definição de seu formato e da estimativa de custos.

“Em todos os casos, os ajustes serão compatibilizados com a meta de resultado primário e com o arcabouço fiscal, preservando o compromisso com a trajetória de melhora fiscal”, conclui a nota.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Veja as principais medidas eleitoreiras anunciadas na campanha

Agosto: impostos, crédito e serviços 

Setembro: dívidas, combustíveis e benefícios 

Outubro: aposta em MEIs, escala 6×1 e tarifa zero 

A lei autorizando o perdão de débitos tributários federais de MEIs a partir de janeiro de 2027, a ampliação do limite de faturamento e a possibilidade de contratação foi sancionada em 21 de outubro. Na sanção, o governo passou a estimar em mais de R$ 18,7 bilhões o volume de dívidas abrangidas.