Lula e Trump chegam à ONU com relação ainda marcada por comércio e soberania

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump voltam a dividir os bastidores da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22), um ano depois do encontro inesperado que abriu uma fase de diálogo entre Brasil e EUA.
Até esta segunda-feira (21), não havia reunião bilateral entre os dois na agenda oficial. Um contato rápido, porém, é considerado possível porque o Brasil tradicionalmente abre o debate da Assembleia e os Estados Unidos discursam logo depois. Foi justamente nessa troca entre delegações que Lula e Trump se encontraram em 2025.
Como no primeiro encontro, o cenário atual entre os dois países continua marcado por atritos comerciais e políticos, embora haja canais de negociação mais ativos do que há um ano.

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Em agosto, uma conversa entre Lula e Trump abriu espaço para a retomada de negociações comerciais. Representantes brasileiros passaram a discutir com o governo americano medidas adotadas com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.
O diálogo, no entanto, não eliminou o principal foco de tensão. Em julho, Washington anunciou duas novas sobretaxas, de 25% e 12,5%, que, somadas a outras medidas, passaram a alcançar 23,1% das exportações brasileiras, segundo o Ministério do Desenvolvimento.
Uma das frentes mais sensíveis é o Pix. O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos virou alvo da política comercial dos Estados Unidos, que passaram a tratá-lo como uma possível barreira a empresas americanas. Para Brasília, a discussão ultrapassou o comércio e passou a envolver soberania regulatória e a autonomia do Banco Central para organizar o sistema financeiro.
Lula também endureceu publicamente o discurso contra as tarifas. Em julho, classificou as novas medidas americanas como injustas e como um erro estratégico, argumentando que elas prejudicam a relação bilateral e aumentam custos também para consumidores dos Estados Unidos.
A relação política teve outros episódios de atrito. O governo brasileiro chegou a retardar a aprovação formal do nome indicado por Trump para a embaixada americana em Brasília, episódio que provocou incômodo em Washington.
Cenário atual
O comércio permanece como um dos principais focos de tensão. O governo brasileiro contestou neste ano novas sobretaxas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos nacionais e defendeu uma saída negociada para as divergências.
A Assembleia da ONU adiciona ainda uma dimensão eleitoral à relação. Lula incorporou a defesa da soberania à campanha presidencial e tem usado a política externa como contraponto a Flávio Bolsonaro (PL), que apresenta maior alinhamento com Washington em declarações públicas. A disputa com Trump e temas como tarifas, big techs e minerais críticos passaram a ocupar espaço incomum na eleição brasileira.
O discurso de Lula nesta terça deve reforçar o multilateralismo e a rejeição à interferência estrangeira, embora a orientação até agora seja evitar ataques nominais aos Estados Unidos. O presidente também pretende tratar do combate ao crime organizado nas Américas e de diferenças em relação à estratégia regional defendida por Trump.
Apesar disso, o ambiente é menos fechado do que em 2025. Há interlocução direta entre os presidentes e negociações formais entre as equipes dos dois governos.
Trump terá uma agenda própria de encontros em Nova York, e Lula não aparece entre as bilaterais previstas. O brasileiro, por sua vez, terá uma passagem curta pela cidade por causa da reta final da campanha eleitoral. A previsão é que deixe os Estados Unidos pouco depois de discursar.
Isso reduz as chances de uma conversa longa. Ainda assim, a sequência dos discursos e a proximidade entre as delegações mantêm aberta a possibilidade de um encontro rápido nos corredores da ONU.
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