Por que o corpo humano pode estar esfriando
- Author, Sandy Ong
- Role, BBC Future
- Published Há 47 minutos
- Tempo de leitura: 6 min
Na década de 1860, o Carl Wunderlich se deparou com uma questão fundamental: a seria uma em si mesma ou apenas um sintoma de uma enfermidade subjacente?
Em uma época em que os termômetros não eram utilizados rotineiramente, ele embarcou em uma missão ambiciosa. Ao longo de 15 anos, ele coletou as temperaturas axilares de 25.000 pacientes — de todas as idades e de ambos os sexos —, totalizando mais de um milhão de medições.
A partir desse vasto conjunto de dados, Wunderlich calculou uma média de 37 °C (98,6 °F) para adultos saudáveis. Esse valor se tornou a referência para o monitoramento da temperatura corporal humana normal. Segundo ele, se a temperatura ultrapassasse 38 °C (100,4 °F), isso indicaria a presença de febre.
Embora outros pesquisadores já tivessem chegado à mesma conclusão, o conjunto de dados de Wunderlich era tão extenso que o valor por ele estabelecido passou a desfrutar de um "status privilegiado" como ferramenta de diagnóstico universal, afirma Philip Mackowiak, da e especialista em doenças infecciosas na Universidade de Maryland.
Mais recentemente, no entanto, diferentes pesquisas têm apontado que a temperatura corporal média considerada normal mudou ao longo do último século e meio.
Será que o parâmetro de referência original estava incorreto? Ou será que um mundo em rápida transformação está alterando a nossa biologia?
Esfriando
Wunderlich "estabeleceu grande parte do que sabemos ser verdade" sobre a variação da temperatura corporal, afirma Julie Parsonnet, médica especialista em doenças infecciosas da Universidade Stanford.
A partir de seu conjunto de dados — que abrangia, em sua maioria, pacientes da classe trabalhadora no hospital de Leipzig, onde ele atuava como diretor médico —, Wunderlich descobriu que a temperatura normal varia. Ele observou que as mulheres apresentam temperaturas mais elevadas do que os homens, que a temperatura diminui com o avanço da idade e que também aumenta ao longo do dia.
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Contudo, constatou-se que, hoje, a temperatura média dos indivíduos é mais baixa do que a de seus pares de 150 anos atrás; no caso dos homens americanos, a temperatura é cerca de 0,59 °C inferior à registrada no início do século 19.
Há uma década, a equipe de Parsonnet analisou três grandes conjuntos de dados, compreendendo múltiplas medições de temperatura de quase 190 mil pessoas nos Estados Unidos realizadas entre 1862 e 2017. "O novo padrão de normalidade [para adultos] parece estar mais próximo de 97,5 °F (36,39 °C)", diz ela.
Vários estudos, feitos antes e depois, corroboram as descobertas de Parsonnet.
Essa tendência de queda não se restringe apenas a pessoas que vivem em países desenvolvidos. A temperatura corporal média dos Tsimané — uma comunidade indígena seminômade que habita a floresta amazônica — girava em torno de 37 °C no início dos anos 2000, segundo o antropólogo biológico Adrian Jaeggi, da Universidade de Zurique, na Suíça. Contudo, em 2018, após duas décadas de rápidas transformações socioeconômicas, essa média caiu para 36,5 °C.
Por que as temperaturas corporais médias diminuíram?
Existem diversas explicações possíveis para as médias mais baixas que observamos hoje. Parsonnet, por exemplo, acredita que isso seja reflexo de uma população, de modo geral, mais saudável. Na época de Wunderlich, a expectativa de vida era de 38 anos; hoje, é quase o dobro disso.
"As pessoas não levavam o tipo de vida saudável que levamos atualmente", diz ela. "Elas frequentemente sofriam com diversos problemas de saúde, como tuberculose, condições odontológicas precárias, disenteria, febre reumática e osteomielite."
"Quando o sistema imunológico tenta nos defender contra todas essas ameaças que colocam nossa vida em risco, ele consome calorias. E calorias são, na prática, uma forma de calor", explica Parsonnet.
Da mesma forma, entre os Tsimane, as vacinas e a melhoria do saneamento básico trouxeram ganhos à saúde, afirma Jaeggi. O uso de banheiros e de calçados também se tornou mais comum hoje do que há 20 anos, observa ele, o que reduz a incidência de infecções por ancilóstomos (vermes parasitas) contraídas ao se caminhar descalço sobre solo contaminado.
A temperatura do ar em ambientes fechados também está mais fácil de se controlar atualmente. O ar-condicionado está presente em pelo menos 88% das residências nos Estados Unidos, enquanto uma proporção semelhante de casas no Reino Unido conta com aquecimento central.
"Passamos a maior parte de nossas vidas em um clima ideal — o que chamamos de zona de neutralidade térmica —, na qual não precisamos fazer esforço para manter nossa temperatura corporal", diz Parsonnet. "E, se não precisamos fazer esforço, não gastamos energia e, consequentemente, não produzimos calor."
Será que Wunderlich se enganou?
Mackowiak, contudo, acredita que a queda na temperatura corporal média pode ter uma causa totalmente diferente.
Ao ter a oportunidade de examinar pessoalmente um dos termômetros de vidro de Wunderlich, ele notou que o instrumento estava calibrado com uma diferença de cerca de 2°C para cima em relação aos termômetros modernos. Isso significa que qualquer medição feita com esses aparelhos apresentaria um valor 2°C mais alto do que o real.
Naquela época, medir a temperatura era uma tarefa trabalhosa, diz o historiador da medicina.
Os termômetros de mercúrio em vidro, com cerca de 30 centímetros de comprimento, precisavam ser calibrados previamente com base em pontos fixos, como a água em ebulição e o gelo em fusão. Os pacientes precisavam, então, permanecer imóveis por 15 a 20 minutos, pois "levava um tempo para que a temperatura fosse registrada nesses termômetros", explica ele.
Em outras palavras, o valor obtido por Wunderlich talvez já estivesse incorreto desde o início. Além disso, ele realizava as medições na axila, e não na boca — como é mais comum hoje —, o que torna difícil comparar seus dados com os atuais.
Parsonett, contudo, não acredita que uma calibração inadequada seja a causa da superestimativa de Wunderlich. Ao analisar, com sua equipe, dados de temperatura corporal coletados entre 1862 e 1930 de veteranos que serviram o Exército no período da guerra civil americana, eles constataram que os indivíduos nascidos mais cedo apresentavam, de fato, temperaturas médias mais elevadas do que aqueles nascidos posteriormente.
"Como comparamos pessoas nascidas em anos diferentes que tiveram a temperatura medida na mesma época, e pessoas nascidas no mesmo ano que foram medidas em épocas diferentes, é possível isolar o efeito do instrumento das variáveis de idade e ano de nascimento", ela aponta.
A equipe de Parsonett obteve uma confirmação adicional ao examinar dois outros conjuntos de dados, mais recentes, nos quais observou uma queda semelhante. Esses dados compreendiam temperaturas registradas entre 1971 e 2017 "utilizando termômetros que, presumivelmente, estariam submetidos a padrões de calibração equivalentes".
Um novo guia de temperatura
Será que tudo isso significa que é hora de repensar a importância atribuída aos 37 °C (98,6 °F)?
Alguns já o fizeram, incluindo duas fontes de referência amplamente utilizadas por médicos: o livro Harrison's Principles of Internal Medicine e a base de dados online UpToDate.
No entanto, embora ter um parâmetro para a sua própria temperatura corporal possa ser um guia útil, a maioria dos especialistas alerta para não se dar ênfase excessiva a um único valor.
"É importante não levar esses tipos de limites tão a sério, já que eles não representam divisões rígidas — ninguém diria que 36,99 °C é, de alguma forma, radicalmente diferente de 37,01 °C", afirma Jaeggi.
Ainda assim, quando a temperatura cai demais ou sobe muito — tipicamente abaixo de 35 °C (96 °F) ou acima de 40 °C (104 °F) em adultos —, isso é um indício de que algo mais sério pode estar acontecendo no seu organismo.
*Todo o conteúdo desta reportagem é fornecido apenas para fins informativos gerais, e não deve ser considerado um substituto para a orientação médica de profissionais de saúde.
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