Por que os latinos abandonaram Trump e votaram nos democratas em 2026

Os eleitores latinos deram a Donald Trump em 2024 a maior votação obtida por um candidato republicano à presidência na história recente da democracia. Mas, agora, nas eleições de meio de mandato de 2026, eles votaram em peso nos democratas. A virada ajudou o partido a retomar o controle da Câmara e do Senado, com vitórias no Texas e no Kansas, estados que não elegiam um senador democrata desde 1988 e 1932, respectivamente.
Pesquisas de boca de urna, como as divulgadas pela rede NBC e o jornal The New York Times, colocam apoio aos candidatos democratas à Câmara acima de 60%. Para se ter uma ideia da mudança, Trump chegou a obter 46% desse voto há dois anos, de acordo com pesquisa da Edison Research. Antes disso, ele tinha perdido o grupo por 38 pontos em 2016, e por 33% em 2022, segundo a CNN.
A mudança também aparece na identificação partidária. Segundo a NBC, 43% dos eleitores latinos se declararam democratas neste ano, ante 39% em 2024. A variação até parece marginal, mas ganha força quando se percebe o tamanho desse eleitorado: o grupo reúne cerca de 39 milhões de pessoas aptas a votar, segundo pouco mais de 5 milhões mais que em 2022, de acordo com o Pew Research Center, e representa perto de 15% do eleitorado nacional.
No Texas, o segundo estado com mais latinos do país, James Talarico derrotou o procurador-geral Ken Paxton, apoiado por Trump, com cerca de 65% dos votos, e foi eleito senador. Levantamentos citados pela revista Time e pela organização UnidosUS indicam que entre 60% e 65% dos latinos do estado votaram em Talarico, depois de Trump ter conquistado cerca de 55% desse eleitorado em 2024. No condado de Webb, na fronteira com o México, metade dos eleitores apoiou Trump há dois anos. Agora, quase três em cada quatro escolheram agora os democratas.
Por que os latinos mudaram?
O peso das prisões é uma das hipóteses para a virada, em razão da campanha de deportações em massa do governo Trump. Em 25 de janeiro, o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês), mantinha 70.766 pessoas detidas, um recorde para a agência, ante 39.328 registradas um ano antes. Até junho, o órgão contabilizava cerca de 356 mil deportações em 2026.
As prisões cresceram e passaram a ser executadas sem critério claro. Um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), com dados do Deportation Data Project, mostra que o número de latinos detidos sem antecedentes criminais foi multiplicado por seis nos oito primeiros meses do governo. Só 9% deles foram soltos, contra 42% no governo Joe Biden. O ICE sustenta que 60% das pessoas sob sua custódia têm ficha criminal.
A rejeição já aparecia nas pesquisas um ano antes da votação. Em novembro de 2025, o Pew registrou que cerca de dois terços dos latinos desaprovavam a política migratória de Trump, e que 52% temiam que eles próprios ou alguém próximo fosse deportado.
Mão de obra e indústria
A segunda hipótese passa pelo lugar dos imigrantes, notadamente os latinos, na economia dos EUA. Eles somavam 32,7 milhões de pessoas na força de trabalho americana em 2025, ou 19,1% do total. Quase metade (47,3%) da força de trabalho é composta por hispânicos, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS, na sigla em inglês).
Uma das características desse grupo é que é ele que, proporcionalmente, ocupa mais vagas que os nativos em produção, transporte e movimentação de materiais, além das áreas de construção, manutenção e recursos naturais. Sem os latinos, a economia americana não sustentaria o seu patamar.
Exemplo disso está no fato de que a produção econômica dos latinos nos Estados Unidos chegou a US$ 4,1 trilhões 2023, ante US$ 1,6 trilhão em 2010, segundo o Latino Donor Collaborative,, elaborado pela Universidade Luterana da Califórnia. O valor equivale a cerca de 15 por cento do PIB americano, e faria do grupo a quinta maior economia do mundo, caso fosse um país.

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Politicamente, a adesão dos latinos ao discurso de Trump de fazer a “América Grande Novamente” foi explicada pelo fato de que esses trabalhadores participavam de setores que perderam postos de trabalho, em razão da desindustrialização dos EUA.
Mais recentemente, certo de que as tarifas a quase todos os países do mundo faria a indústria dos EUA resgatar seu seu vigor, Trump experimentou o efeito contrário do que desejava. Entre abril de 2025 (quando o republicano anunciou as tarifas no chamado “Dia da Libertação”) e fevereiro de 2026, a indústria dos EUA fechou 89 mil postos de trabalho. Em 2026, a queda no desemprego foi contida, mas economistas de diferentes linhas teóricas nos EUA são céticos sobre os efeitos positivos da política alfandegária da Casa Branca, preferindo atribuir a melhora ao avanço da Inteligência Artificial (IA).
Nesse quadro de disputa, os democratas aproveitaram para recalibrar o discurso, visando conseguir, como foi feito, obter o voto latino. Jon Ossoff, reeleito senador na Geórgia, foi direto ao ponto na campanha: “sob o mandato do fracassado presidente Trump, está mais caro do que nunca na história dos EUA encher o tanque da sua caminhonete, abastecer a geladeira, ir ao médico ou ter eletricidade em casa”.
Se os democratas, agora com maioria no Congresso, vão conseguir reverter as dificuldades, é algo que o tempo dirá. Mas, com a vitória esmagadora da última terça-feira (3), colocaram em xeque a relação de Trump com o eleitorado que o levou de volta à Casa Branca em 2024.
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