Por que Trump está evitando declarar apoio direto a Flávio Bolsonaro

6 de Out de 2026 - 21:20
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Por que Trump está evitando declarar apoio direto a Flávio Bolsonaro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentou nesta segunda-feira (5) o desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial do Brasil, mas voltou a evitar uma declaração direta de apoio ao candidato da direita na disputa contra o presidente Lula (PT).

Questionado sobre o resultado, Trump classificou a votação de Flávio como uma “vitória muito, muito grande” e disse que o resultado foi “incrível”. O senador terminou o primeiro turno, realizado neste domingo (4), liderando a votação, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. Os dois voltam a se enfrentar nas urnas no dia 25 de outubro.

A fala foi a manifestação mais aberta de Trump sobre Flávio desde o início da atual campanha. Ainda assim, o presidente americano não pediu votos ao candidato do PL, nem declarou formalmente que desejava sua vitória na disputa contra Lula.

A cautela é interessante porque, nos últimos anos, Trump declarou apoio a alguns candidatos da direita em eleições por todo o mundo e chegou, no caso da eleição legislativa argentina e em Honduras, a vincular a continuidade do apoio financeiro americano ao país ao resultado das urnas.

Sobre o Brasil, porém, o comportamento de Trump tem sido diferente. Segundo o jornal Washington Post, a decisão de manter Trump “afastado” da campanha de Flávio foi decidida tanto por integrantes da Casa Branca quanto por aliados do próprio senador brasileiro. O jornal americano lembrou que, quando Flávio visitou Trump na Casa Branca no começo deste ano, a equipe do senador já havia decidido que não pediria o apoio do republicano à candidatura do presidenciável do PL. Ao jornal, o empresário Paulo Figueiredo disse que a candidatura presidencial não foi discutida na visita e que Trump também não ofereceu apoio formal a Flávio.

Do lado americano, a conclusão teria sido semelhante. Um assessor da Casa Branca afirmou ao jornal americano que a avaliação neste momento era de que um apoio de Trump a Flávio poderia produzir efeito contrário ao pretendido pelo republicano na disputa. A preocupação estava ligada principalmente à tentativa de Lula de colocar a questão da “soberania nacional” no centro da disputa eleitoral.

Durante o último ano, devido à falta de negociação por parte do governo Lula e à escalada da censura do Judiciário no Brasil, o governo Trump aumentou tarifas sobre a importação de produtos brasileiros, aplicou sanções contra autoridades do país – entre elas a Lei Magnitsky, contra o ministro Alexandre de Moraes, por perseguição contra a oposição – e pressionou Brasília por causa do processo de suposto golpe de Estado contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. Lula passou então a apresentar tais medidas como uma interferência e um “ataque à soberania” do Brasil por parte dos Estados Unidos.

Segundo o Post, integrantes da Casa Branca começaram a perceber que o discurso do petista estava ganhando espaço entre eleitores. O assessor do governo americano afirmou ao jornal que, quando Trump deixava de ser assunto na campanha presidencial brasileira, Lula tinha mais dificuldade para explorar o discurso de "interferência" dos Estados Unidos na eleição, e a estratégia do petista de usar o tema para ganhar eleitores perdia força. Por isso, a Casa Branca teria concluído que uma declaração aberta de apoio a Flávio neste momento poderia entregar ao petista justamente um argumento que Washington quer retirar da campanha.

A avaliação atribuída à Casa Branca pelo Post é semelhante à de Cezar Roedel, mestre em relações internacionais e estrategista internacional. À Gazeta do Povo, ele lembrou que a postura de Trump neste momento tem mais relação com cálculo político do que com hesitação em relação à candidatura de Flávio.

“A preferência política de Trump parece bastante clara, mas uma declaração formal de apoio teria um custo e poderia produzir o efeito contrário ao pretendido”, disse o analista. Ele lembra que Flávio chegou a este segundo turno na frente de Lula e precisa agora ampliar sua votação para além do eleitorado da direita. Nesse cenário, segundo Roedel, Trump ganha mais mantendo apenas sinais de proximidade com Flávio, como a fala desta segunda, do que entrando diretamente na campanha brasileira.

“Trump conseguiu elogiar o desempenho de Flávio e sinalizar claramente sua simpatia sem pedir votos e sem transformar formalmente a eleição brasileira em uma disputa entre Washington e Brasília”, analisou.

Segundo o estrategista, o histórico recente de tarifas e sanções dos Estados Unidos contra o Brasil tornou qualquer gesto da Casa Branca mais sensível durante a campanha.

“As tarifas já colocaram os Estados Unidos no centro da disputa brasileira e deram a Lula espaço para explorar o discurso da soberania. Um apoio explícito permitiria ao PT associar Flávio novamente à pressão americana sobre o Brasil, desviando o debate dos problemas internos do governo Lula para uma discussão sobre interferência estrangeira”, disse.

Flávio Pierobon, advogado e mestre em Ciência Jurídica e professor da Universidade Positivo, também avalia que a reação de Trump ao resultado do primeiro turno pode ter sido calculada. Segundo ele, apesar da proximidade política entre Trump e Flávio, o republicano ainda precisa considerar a possibilidade de Lula permanecer no poder.

“A vitória ainda não chegou, as eleições ainda não acabaram. Se eventualmente Flávio não confirmar a vitória no segundo turno, Trump vai ter que, em algum momento dos próximos dois anos de mandato, conversar com Lula. Ter vestido o boné do Flávio e dado apoio explícito a outro candidato acaba construindo mais muros do que pontes numa eventual relação entre os países”, disse.

Igor Lucena, doutor em relações internacionais, observa que uma manifestação aberta de Trump sobre Flávio também poderia ser explorada pelos adversários do senador para questionar a legitimidade de uma eventual vitória dele. “Acho que o governo americano também faz esse cálculo de não dar armas para deslegitimar uma possível vitória de Flávio”, disse.

Trump já entrou diretamente em outras eleições na região... e teve sucesso

Na Colômbia, Trump declarou apoio direto a Abelardo de la Espriella dias antes da realização do segundo turno da eleição presidencial deste ano. O republicano afirmou que o resultado no país seria importante para o futuro das relações entre Washington e Bogotá. De la Espriella acabou derrotando o candidato de esquerda Iván Cepeda, apoiado pelo então presidente esquerdista Gustavo Petro, na eleição de junho.

Depois da eleição, Trump reivindicou sua participação no resultado da disputa presidencial. “Eu o apoiei”, disse o chefe da Casa Branca ao comentar a vitória do colombiano. De la Espriella chegou a telefonar para agradecer o apoio recebido dos Estados Unidos.

Trump também se manifestou de forma ainda mais direta na eleição presidencial de Honduras, em novembro do ano passado. Poucos dias antes do pleito, o republicano declarou apoio ao conservador Nasry Asfura, chamando-o de “aliado dos Estados Unidos” e pedindo aos hondurenhos que votassem nele. O presidente dos EUA chegou a colocar em xeque o apoio financeiro americano ao país caso Asfura não vencesse a eleição. O candidato acabou eleito por pequena margem no país, com 40,3% dos votos, contra 39,5% do candidato de centro-direita Salvador Nasralla.

Na Argentina, o aceno de Trump ocorreu nas eleições legislativas de outubro de 2025. Na ocasião, ele declarou apoio ao partido de Javier Milei na disputa para o Congresso argentino e chegou a condicionar a manutenção do suporte americano ao país sul-americano ao sucesso eleitoral da legenda libertária. Naquele momento, Washington também ofereceu uma linha de swap (acordo que permite a troca temporária de moedas entre os dois países) de US$ 20 bilhões à Argentina e discutia outras formas de ajudar financeiramente o país.

O partido La Libertad Avanza, de Milei, terminou a eleição legislativa com 40,68% dos votos, frente aos 31,69% da coalizão peronista, e ampliou sua presença no Congresso. No dia seguinte, Trump afirmou que Milei havia recebido “muita ajuda” dos Estados Unidos e citou expressamente seu próprio apoio ao líder argentino na campanha.

Trump não se manifestou antes das eleições no Equador, Peru e Chile

Nas eleições presidenciais do Equador, Chile e Peru, onde líderes alinhados a Trump também chegaram ao Executivo, o republicano não declarou durante a campanha um apoio público da mesma forma como fez em Honduras ou na Colômbia, mas celebrou posteriormente os resultados.

No Equador, o presidente Daniel Noboa chegou a se reunir com Trump nos EUA poucas semanas antes do segundo turno de 2025, mas não houve uma declaração formal de apoio por parte do republicano a ele.

No Chile, Trump também não anunciou apoio explícito a José Antonio Kast antes da eleição, embora tenha afirmado posteriormente que havia apoiado o presidente conservador na disputa.

Já no Peru, não houve um apoio público de Trump a Keiko Fujimori durante a campanha presidencial deste ano, mas a Casa Branca celebrou o resultado no país após o pleito.

Posicionamentos de Trump contribuíram para derrotas dos conservadores no Canadá e na Austrália

No começo de 2025, os conservadores do Canadá pareciam caminhar para uma vitória ampla depois de quase uma década de governo progressista. Em janeiro daquele ano, eles chegaram a aparecer com mais de 20 pontos à frente dos liberais nas pesquisas.

A disputa, no entanto, mudou depois que Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos, iniciou a aplicação de tarifas contra o Canadá e passou a falar de forma repetida na possibilidade de transformar o país no “51º estado” americano.

Trump não chegou a declarar apoio aberto ao líder do Partido Conservador, Pierre Poilievre. Pelo contrário, o republicano chegou até a dizer durante a campanha que não se importaria com uma vitória dos liberais e que “preferia negociar com um liberal do que com um conservador”. Ainda assim, suas falas sobre o país dominaram a eleição canadense.

O atual premiê Mark Carney, que assumiu a liderança do Partido Liberal depois da saída de Justin Trudeau, transformou o discurso de “resistência às ameaças americanas” em um dos principais temas da campanha da legenda progressista. Com isso, os liberais passaram de uma desvantagem de mais de 20 pontos nas pesquisas no início de 2025 para a liderança dias antes da votação em abril, enquanto Poilievre e os conservadores tiveram dificuldades para adaptar sua campanha ao novo cenário.

A eleição acabou sendo um caos para o Partido Conservador. Os liberais permaneceram no poder e conquistaram 169 cadeiras no parlamento, contra 144 dos conservadores. O próprio Poilievre perdeu temporariamente seu cargo, tendo voltado a ocupar novamente um posto no Legislativo apenas no final do ano passado, após uma eleição suplementar. A imprensa internacional atribuiu parte da recuperação dos liberais na eleição à reação dos canadenses às tarifas de Trump e às suas declarações sobre anexar o país.

Poucos dias depois, algo semelhante ocorreu na Austrália. O conservador Peter Dutton chegou a liderar pesquisas no começo de 2025, mas perdeu força durante uma campanha eleitoral marcada também pelas incertezas no país provocadas pelas tarifas de importação dos EUA.

Na ocasião, o líder da oposição tentou até se afastar das comparações feitas entre ele e o presidente americano. O atual premiê trabalhista Anthony Albanese passou então a explorar este fator na campanha. À agência Reuters, estrategistas políticos avaliaram que Trump não foi o fator decisivo na derrota de Dutton, que também cometeu erros durante a campanha, mas que o chamado “efeito Trump” na disputa aumentou a preocupação de eleitores australianos que passaram a ver mudanças políticas no país com maior cautela.

Albanese acabou conseguindo uma ampla vitória e garantiu um segundo mandato. Dutton não apenas perdeu a eleição como também foi derrotado em seu próprio distrito eleitoral, que ocupava havia mais de duas décadas.

Tais casos podem explicar o risco observado pela Casa Branca ao Post em relação ao Brasil: um presidente Trump muito presente numa campanha pode permitir que seus adversários mudem o assunto da eleição e mobilizem eleitores em torno do tema de “soberania nacional”.

Intervenção explícita de Trump seria risco desnecessário para Flávio, avaliam analistas

Segundo o assessor da Casa Branca ouvido pelo Post, a tendência é que o governo Trump continue evitando uma participação direta na campanha presidencial durante este segundo turno. A avaliação feita ao jornal é de que Flávio não precisa de uma movimentação americana neste momento e que uma tentativa aberta de ajudá-lo poderia acabar favorecendo Lula.

Para Roedel, há pouco incentivo para Trump mudar sua postura em relação à eleição brasileira neste momento. “Uma intervenção explícita de Trump acrescentaria um risco que hoje parece desnecessário. A estratégia mais racional para Washington é preservar a interlocução, continuar sinalizando afinidade política e deixar que a eleição seja decidida pelos brasileiros”, concluiu.

Segundo Pierobon, o resultado do primeiro turno também reduz a necessidade de Trump mudar de postura durante esta reta final da eleição.

Lucena lembra ainda outro fator para a manutenção da cautela de Trump neste segundo turno: a política interna americana.

“O presidente Trump também está focado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Como a prioridade é eleger o Congresso americano, o Brasil acaba ficando em segundo plano neste exato momento. Há uma infeliz, ou feliz, coincidência de datas”, concluiu.

As eleições de meio de mandato nos EUA ocorrem em 3 de novembro. Estarão em disputa todos os 435 assentos da Câmara dos Deputados e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de 36 eleições para governador em estados como Califórnia, Texas e Flórida.