Petistas envolvidos no Mensalão e Lava Jato: um retorna à Câmara, outros três ficam de fora
O PT conseguiu eleger apenas um dos quatro antigos nomes do partido envolvidos nos escândalos do Mensalão e da Lava Jato que tentaram retornar ao Congresso. Com 109.548 votos, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) foi eleito deputado federal pela Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV).
José Dirceu (PT-SP), Delúbio Soares (PT-GO) e André Vargas (PT-PR) ficaram como suplentes da Casa Baixa do Congresso. Os quatro tiveram participação em episódios que marcaram os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidente Dilma Rousseff nos escândalos de corrupção.
A volta dos antigos companheiros contou com o apoio político de Lula e do PT, que buscavam ampliar a bancada do partido no Congresso. Lula priorizou nomes que haviam ocupado posições de destaque nas primeiras gestões petistas e que, depois das condenações, caíram no ostracismo.
Cunha é ex-presidente da Câmara
João Paulo Cunha comandou a Câmara de 2003 a 2005, durante o primeiro mandato de Lula, e foi um dos políticos mais importantes do PT. Sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do Mensalão se deu por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.
O ex-deputado cumpriu pena e recebeu, em 2016, indulto natalino com base no Decreto 8.615/2015, da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), após o STF reconhecer que ele preenchia os requisitos para o benefício.
Cunha passou a atuar, então, como advogado em Brasília. Em 2025, Lula o chamou publicamente para retornar à política durante um evento em Osasco, a principal base eleitoral do ex-deputado.
“João Paulo, você trate de voltar para a política. Pare de ganhar dinheiro como advogado em Brasília. Pare de querer ganhar dinheiro em Brasília, venha para a porta de fábrica fazer comício”, disse Lula na ocasião.
Em 2026, o ex-deputado justificou a candidatura à Câmara: “Foram anos de trabalho, reflexão e dedicação à advocacia, mas o momento do país pede responsabilidade, diálogo e gente preparada para reconstruir caminhos. Se eu puder ajudar o Lula a governar, fortalecer nossa região e melhorar a vida da população, estarei presente.”
José Dirceu é figura emblemática do Mensalão
Ex-ministro da Casa Civil de Lula e ex-presidente do PT, José Dirceu, 79 anos, recebeu 78.450 votos e ficou como sexto suplente da Federação na Câmara. Ele foi um dos principais articuladores políticos dos primeiros governos de Lula e um dos personagens centrais do Mensalão.
Em 2005, o então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) apontou Dirceu como responsável pela articulação política do esquema de pagamento a parlamentares em troca de apoio ao governo. Naquele ano, Dirceu deixou a Casa Civil e teve o mandato cassado pela Câmara.
No julgamento do Mensalão, foi condenado a sete anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha. Ele chegou a cumprir pena em regime fechado na Papuda, em Brasília, antes de passar ao regime domiciliar.
Dirceu voltou a ser preso em 2015, durante a Lava Jato, e recebeu novas condenações relacionadas ao esquema de corrupção na Petrobras. Em 2024, o ministro Gilmar Mendes, do STF, anulou os atos processuais da Lava Jato contra o ex-ministro conduzidos pelo então juiz Sergio Moro, hoje governador eleito do Paraná pelo PL.
Com a recuperação dos direitos políticos, Dirceu passou a trabalhar para reconstruir sua presença pública e chegou a ser cotado para disputar uma vaga ao Senado. A candidatura, porém, acabou sendo para a Câmara.
Durante a campanha, ele retomou a atividade política e passou a fazer críticas frequentes ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no domingo (4).
Delúbio Soares voltou a disputar eleição em Goiás
Ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, 70 anos, ficou associado ao chamado “Valerioduto”, sistema de recursos operado pelo publicitário Marcos Valério e apontado nas investigações como fonte de pagamentos a parlamentares.
Delúbio foi condenado pelo STF a seis anos e oito meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha. Cumpriu parte da pena em regime semiaberto e passou à prisão domiciliar. Em 2016, recebeu o perdão da pena por indulto natalino.
O ex-tesoureiro também foi alvo da Lava Jato e chegou a ser condenado em processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro. As condenações foram posteriormente anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça, em 2023.
Ao anunciar a intenção de disputar a eleição, Delúbio afirmou que pretendia ajudar a ampliar a bancada petista e apoiar Lula no Congresso. “Estou colocando meu nome à disposição do meu partido, da Federação Brasil da Esperança, para que em julho ele seja aprovado. O que estou pedindo é apoio político para que a gente possa, em 2026, vencer as eleições no Brasil.”
Em entrevista à Folha de S.Paulo em junho, ao defender seu retorno às urnas, Delúbio resumiu sua posição sobre os processos que enfrentou: “Não me arrependo de nada porque não fizemos nada de errado.” Ele obteve 14.218 votos em Goiás e foi eleito suplente da Federação para a Câmara.
André Vargas foi vice-presidente da Câmara
Ex-1º vice-presidente da Câmara no biênio 2013-2014, André Vargas, 62 anos, recebeu 34.619 votos no Paraná em 2026 e foi eleito suplente para a Câmara. Vargas foi um dos principais nomes do PT paranaense até ser atingido pelas investigações da Lava Jato.
O então deputado teve o mandato cassado pela Câmara em 2014, em meio às revelações sobre sua relação com o doleiro Alberto Youssef. No ano seguinte, foi preso e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A pena chegou a 24 anos e 10 meses.
O ex-parlamentar deixou o PT durante a crise provocada pelas investigações, mas posteriormente retornou ao partido. Após a anulação de suas condenações, voltou a se apresentar como candidato e passou a atuar novamente na organização partidária.
Vargas sustentou que sua prisão teve motivação política e que foi pressionado a fazer uma delação contra Lula e o PT. “Fui vítima de uma prisão ilegal que durou 42 meses. Sofri todo tipo de pressão para fazer a delação, objetivo real da prisão, mas resisti, pois o que queriam era que eu confirmasse invenções mentirosas para atingir o Lula e o PT.”
Na campanha de 2026, defendeu seu retorno à Câmara como uma forma de reforçar a bancada de esquerda. “Volto a disputar uma vaga na Câmara para reforçar o campo político democrático e popular. Hoje, a classe trabalhadora e o presidente Lula sofrem reveses em uma Câmara conservadora e antipopular. Medidas simples como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e a cobrança de impostos de jogos bets têm muitas dificuldades de serem aprovadas.”